Capturado pela câmera após 400 anos: o enigma ainda sem solução do raio globular
Cinco minutos depois da meia-noite - 00:05, horario do Leste, 19 de marco de 1963. O voo 539 da Eastern Airlines, de Nova York para Washington, sacudia em meio a uma tempestade eletrica quando uma descarga ofuscante e ensurdecedora envolveu o aviao inteiro. Segundos depois, da direcao da cabine de comando, surgiu algo: uma esfera luminosa de pouco mais de vinte centimetros - uns vinte e dois, calcularia depois a testemunha - brilhando num azul-branco suave, mais ou menos como uma lampada de dez watts.
A esfera flutuou pelo corredor a altura do encosto de um assento, uns setenta e cinco centimetros acima do piso, mantendo um rumo constante e um passo tranquilo de cerca de metro e meio por segundo. Passou a meio metro de um passageiro sentado, nao irradiou vestigio algum de calor e seguiu a deriva rumo a cauda do aviao antes de desaparecer.
O passageiro por quem ela deslizou dificilmente poderia ter sido mais bem escolhido. Roger Jennison era fisico - um radioastronomo que trabalhara em Jodrell Bank e em breve ocuparia uma catedra de eletronica fisica na Universidade de Kent - e fez exatamente o que um fisico faz: observou, estimou tamanho, brilho e velocidade, e fixou a coisa na memoria como dado, nao como espanto. Em 1969 publicou o relato na revista Nature, sobrio e quantificado, algumas frases cuidadosas que continuam entre os testemunhos mais limpos que o fenomeno possui.
O de Jennison nao foi o unico relato de sua especie. Pilotos e tripulacoes descreveram bolas luminosas rolando por cabines de passageiros e de comando com frequencia suficiente para que pesquisadores catalogassem a parte os casos de aeronaves, e o padrao e curiosamente constante: uma descarga brilhante fora da fuselagem e depois uma esfera lenta e serena dentro, sumida em poucos segundos. Esses encontros ocorrem dentro do que e, na pratica, uma gaiola de Faraday de aluminio - uma carcaca que deveria impedir a entrada de qualquer campo externo perdido.
O que Jennison viu tem um nome e quatro seculos de testemunhos atras de si. Testemunhas surpreendidas por tempestades - agricultores, marinheiros, pilotos, fisicos - descrevem repetidamente o mesmo objeto: uma bola luminosa, muitas vezes do tamanho de uma toranja, que paira, vagueia, as vezes chia ou solta um cheiro acre de enxofre, e entao some em silencio ou explode com estrondo. O fenomeno chama-se raio globular, e durante quase toda a historia da ciencia nao houve prova fisica alguma dele: apenas relatos, milhares e milhares. O fisico russo Mark Stakhanov e outros reuniram bancos de dados de muitas centenas de avistamentos; um catalogo juntou mais de dois mil casos, coerentes o bastante para deles extrair um consenso aproximado sobre o tamanho da bola, sua cor e sua duracao.
O relato detalhado mais antigo vem de Widecombe-in-the-Moor, na Inglaterra. Em 21 de outubro de 1638, durante a tempestade lembrada como a Grande Tempestade, testemunhas descreveram uma enorme bola de fogo que irrompeu pela igreja do vilarejo, destruindo bancos e janelas e enchendo a nave de um fedor de enxofre. Quatro pessoas morreram e cerca de sessenta ficaram feridas. Os moradores, com razao para a epoca, culparam o diabo; pesquisadores modernos leem esse mesmo velho relato como uma descricao de manual de raio globular, o que mostra quao pouco a descricao em si mudou em quase quatrocentos anos.
Outros casos celebres entraram no registro pelo caminho. Em 1753, o fisico Georg Richmann morreu em Sao Petersburgo enquanto conduzia um experimento ao estilo de Franklin com uma haste sem aterramento durante uma tempestade, e uma gravura famosa mostra um globo de fogo saltando para sua testa. Por geracoes, isso foi recontado como a primeira morte cientifica por raio globular.
Por quase dois seculos, a ciencia oficial inclinou-se para a postura dos ceticos, descartando os relatos como imagens residuais gravadas na retina por um clarao comum, como fogo de Santelmo mal lembrado ou como pura imaginacao. Ainda assim, os testemunhos continuavam chegando, e muitos traziam um detalhe que nenhuma fisica conhecida conseguia digerir: as testemunhas insistiam que as bolas luminosas atravessavam vidracas de janela fechadas, e as vezes paredes solidas, e depois seguiam calmamente do outro lado como se nada tivesse acontecido. E o traco mais persistente do testemunho.
Entao, em julho de 2012, a sorte interveio. No planalto tibetano, em Qinghai, uma equipe da Universidade Normal do Noroeste, em Lanzhou - entre eles Jianyong Cen e Ping Yuan -, gravava raios comuns de nuvem para o solo com cameras de alta velocidade e espectrografos sem fenda quando um impacto a cerca de 900 metros levantou uma bola luminosa. Os instrumentos a seguraram por 1,64 segundo, enquanto ela derivava uns dez metros para o lado e subia cerca de tres, e nesse instante mudou de cor diante das lentes, do branco a um apagado brilho avermelhado, antes de se apagar. O halo visivel abrangia uns cinco metros, embora o nucleo ardente fosse bem menor.
O resultado, publicado na Physical Review Letters em janeiro de 2014, foi o primeiro espectro de um raio globular natural ja registrado, e a primeira vez que alguem viu o fenomeno nascer de um raio. Trazia uma mensagem escrita em luz: linhas de emissao de silicio, ferro e calcio - a impressao digital quimica do solo, nao do ar.
Conclusões e perguntas em aberto
Essa impressao digital combina com a teoria que John Abrahamson propos com James Dinniss na Nature em 2000: a descarga de um raio vaporiza a silica do solo, liberando uma rede filamentosa de nanoparticulas de silicio que se oxidam devagar no ar e brilham enquanto queimam, uma bola de poeira em brasa mais do que de fogo. Tem um apoio cauteloso de laboratorio: em 2007, Gerson Paiva e Antonio Pavao, da Universidade Federal de Pernambuco, no Brasil, vaporizaram laminas de silicio com arcos eletricos e produziram pequenas esferas brilhantes que rolaram pela mesa por ate oito segundos. Mas o solo vaporizado nao explica facilmente uma bola que se forma dentro de uma cabine lacrada em pleno voo, longe de qualquer solo; nem as esferas que escorregam pelo vidro sem quebra-lo; nem por que o fenomeno e tao raro quando o raio de nuvem para o solo nao e.
Teorias mais antigas tapam alguns buracos e abrem outros. Em 1955, o Nobel Piotr Kapitsa sustentou que a bola e uma descarga luminescente sustentada por radiacao de micro-ondas da tempestade, de pe no ar como o som num tubo de orgao; explicaria a flutuacao e o sumico abrupto, mas ninguem jamais mediu as micro-ondas necessarias junto a um avistamento real. Em 2016, o fisico Hui-Chun Wu ampliou a ideia na Scientific Reports, propondo que a ponta de um raio dispara um feixe de eletrons relativisticos que irradia um intenso pulso de micro-ondas e se aprisiona numa bolha de ar ionizado. Seu atrativo e que as micro-ondas atravessam o vidro, o que enfim explicaria os relatos da passagem pela janela; sua fraqueza e que todo o mecanismo continua sendo um calculo, e os feixes de eletrons nunca foram observados numa tempestade.
O laboratorio ofereceu bolas de fogo proprias: Eli Jerby e Vladimir Dikhtyar, em Tel Aviv, conjuraram bolas de plasma flutuantes furando ceramicas com um magnetron, embora alimentadas por uma fonte domestica de micro-ondas e nao por uma nuvem de tempestade. Em 1991, o quimico David Turner propos que a bola se mantem unida eletroquimicamente: um nucleo de plasma quente cujos ions migram para fora, recolhem vapor de agua e se resfriam numa pele de goticulas acidas que a mantem estavel muito mais tempo do que cabe a um plasma nu; lisonjeia os relatos de um cheiro acre e sulfuroso, mas tem dificuldade em explicar uma bola que se forma no ar ressecado de uma cabine em grande altitude.
E ha a ideia mais perturbadora de todas. Em 2010, Joseph Peer e Alexander Kendl, da Universidade de Innsbruck, propuseram que parte do raio globular nao esta no mundo, mas dentro do cranio: os campos magneticos de certas descargas repetitivas poderiam estimular o cortex visual como faz na clinica a estimulacao magnetica transcraniana, pintando fosfenos luminosos diretamente no campo visual da testemunha. Uma alucinacao atravessa paredes, nao deixa escombros e nao precisa de fisica de confinamento; mas fosfenos nao chamuscam bancos, nao enchem uma igreja de enxofre, nao se registram num espectrografo e nao percorrem o corredor de um aviao diante de um fisico treinado. O mesmo olhar cetico solapa tambem o velho canone: a autopsia de Richmann le-se como um raio comum, e a bola iconica talvez viva apenas num acrescimo posterior de um gravador.
O que deixa a pergunta que ninguem consegue fechar: e um unico fenomeno - ou varios usando o mesmo nome emprestado? A bola de Qinghai nasceu da terra e nunca chegou perto de uma janela; a de Jennison se formou dentro de um tubo de aluminio lacrado no ceu; o fogo de Widecombe matou, e uma alucinacao nao pode. Talvez o vapor de solo em chamas, as micro-ondas aprisionadas, o plasma eletroquimico e os truques cerebrais induzidos pela tempestade sejam todos reais, todos raros, e todos arquivados em silencio sob um unico rotulo velho. Nada ainda amarra essa taxonomia; e uma suspeita, nao um achado. Assim, o raio globular mantem seu estranho status - fotografado e medido espectralmente exatamente uma vez, e ainda alem de qualquer explicacao segura -, enquanto em algum lugar, esta noite, uma tempestade talvez leve uma pequena esfera brilhante em rumo constante e tranquilo, um passo a frente das cameras.