A manhã em que Bell Island explodiu: um clarão forte o bastante para um satélite de vigilância nuclear
Bell Island fica na baía de Conception, a uma curta travessia de balsa da costa da Terra Nova. Durante quase todo o século vinte foi uma cidade do ferro: as minas de Wabana avançavam sob o leito do mar e empregavam milhares de pessoas até fecharem em 1966, deixando uma paisagem de poços, pilhas de rejeito e galerias abandonadas. Em 1978 a ilha era uma comunidade rural tranquila, de fazendas e pequenos povoados. Na manhã de domingo, 2 de abril de 1978, por volta das onze horas, foi atingida por uma explosão que nunca recebeu explicação definitiva.
Moradores da área de Bickfordville, no lado sudoeste da ilha, descreveram um clarão e depois um estrondo. Um menino de doze anos chamado Darin Bickford contou ter visto uma bola de luz que surgiu do nada, com um belo azul no centro cercado de laranja e amarelo. O som seguinte foi ouvido do outro lado da baía, em St. John's, onde as pessoas sentiram um abalo, e foi relatado em localidades a uns cinquenta e cinco quilômetros, como Harbour Grace e Cape Broyle. Janelas tremeram e quebraram. De início supôs-se que um tanque de combustível ou uma linha de gás tivesse explodido, ou que um avião tivesse caído.
Os danos na própria ilha foram concentrados e estranhos. Na casa dos Bickford, um fusível saltou da caixa e atravessou uns seis metros da sala deixando atrás de si um risco de chama azul. Um galpão anexo ao celeiro da família foi levantado dos alicerces, e várias galinhas que estavam dentro morreram. No povoado vizinho de Lance Cove, televisores estouraram. Em todo o distrito atingido a fiação das casas ficou chamuscada, aparelhos foram destruídos, caixas de fusíveis derreteram e depois se encontrou borracha derretida dentro de peças elétricas. Num campo apareceram dois buracos em forma de tigela, cada um com cerca de sessenta centímetros de profundidade e noventa de largura. Não houve mortes. Algumas pessoas sofreram ferimentos superficiais e os efeitos da onda de choque.
Nada na situação local oferecia uma causa óbvia. As minas estavam fechadas havia doze anos. Não existia na ilha nenhuma planta industrial capaz de produzir uma detonação daquele porte. E, segundo o registro meteorológico, não houve tempestade elétrica. O raio globular foi levantado como possibilidade em poucos dias e foi em grande parte descartado pelos meteorologistas, sob o argumento de que as condições atmosféricas daquela manhã não o sustentavam.
Então a escala da história mudou. O clarão fora brilhante o bastante para ser registrado pelos satélites Vela. Vela foi um programa americano iniciado em 1963 para verificar o cumprimento do Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares, com satélites em órbita alta portando sensores ópticos projetados para captar o característico clarão duplo de uma detonação nuclear atmosférica, além de detectores de raios X, gama e nêutrons. Uma detecção Vela não era coisa banal. Significava que algo sobre a Terra Nova produzira uma assinatura óptica forte o bastante para acionar instrumentos construídos para vigiar explosões nucleares em qualquer ponto do planeta.
Dois cientistas do Laboratório Científico de Los Alamos, no Novo México, chegaram a Bell Island: John Warren, físico de plasmas, e Robert Freyman. Percorreram o terreno atingido, olharam os buracos, examinaram fiação e equipamentos danificados e conversaram com os moradores. A chegada deles, e o próprio fato de o laboratório nuclear americano ter demonstrado interesse, causaram na ilha uma impressão que não se apagou.
Warren e Freyman concluíram que o evento fora um super-raio. Um super-raio é uma descarga excepcionalmente potente, ordens de grandeza acima de uma descarga comum, da ordem de cem vezes mais intensa e, em algumas estimativas, muito mais, e dura um tempo incomumente longo para um raio, cerca de um milésimo de segundo. Os super-raios haviam sido identificados poucos anos antes, e identificados justamente porque os sensores ópticos dos satélites Vela registravam repetidamente clarões na Terra brilhantes demais para serem raios comuns. São raros, e mais raros ainda sobre terra firme. Segundo o repórter da Canadian Broadcasting Corporation Rick Cera, que cobriu o caso, Freyman disse fora de câmera que ele e Warren vinham rastreando super-raios ao longo da costa leste norte-americana desde dezembro de 1977.
Essa explicação cobria bem vários aspectos do evento. Dava conta do brilho extremo, da detecção por satélite e de boa parte da destruição elétrica, pois uma descarga dessa magnitude perto de uma rede de distribuição pode empurrar uma sobretensão enorme pela fiação doméstica, arrancar fusíveis com violência e destruir aparelhos longe do ponto de impacto. Tinha ainda a vantagem de ter sido proposta por pessoas que, naquele momento, estavam entre as pouquíssimas do mundo a estudar o fenômeno profissionalmente.
Isso não encerrou o assunto na ilha, e não o encerrou desde então. A ausência de tempestade no registro continuou sendo a dificuldade à qual todos voltavam. Os moradores não descreveram tempestade alguma. Uma explicação por raio também não se ajustava bem a dois buracos limpos em forma de tigela num campo, nem à extensão geográfica dos danos elétricos. Nunca se emitiu um relatório público detalhado numa forma que os moradores de Bell Island pudessem ler e avaliar, e os dois cientistas foram embora. No vazio deixado, cresceram outros relatos: circularam na ilha histórias sobre homens não identificados que faziam perguntas nos dias seguintes, e o evento assumiu a forma de algo examinado de perto e depois arquivado em silêncio.
A especulação sobre armas acompanha o caso desde então. Alcançou seu maior público com um documentário de 2004, The Invisible Machine, que levantou a hipótese de que o estrondo foi um teste de arma de pulso eletromagnético ou de energia dirigida, conduzido pela União Soviética ou pelos Estados Unidos, no qual feixes de alta energia focalizados na ionosfera teriam sido puxados para baixo pelo ferro das minas abandonadas da ilha. A ideia não é aceita pelos físicos, mas mostrou-se extremamente duradoura, em parte pelo momento: o fim dos anos setenta foi um período de pesquisa ativa e publicamente discutida dos dois lados sobre feixes de partículas e efeitos eletromagnéticos, e Bell Island por acaso era uma grande massa de minério de ferro sob uma ilha pouco povoada do Atlântico Norte.
Quase meio século depois não há resposta consensual. A conclusão do super-raio está registrada, ligada a dois cientistas nomeados de um laboratório nacional, e continua sendo a única explicação técnica jamais oferecida formalmente. Nunca foi aceita de forma universal, e o estrondo de Bell Island ainda figura entre os eventos não resolvidos da história canadense.
Conclusões e perguntas em aberto
A hipótese do super-raio de Warren e Freyman é a candidata mais forte, e os argumentos a seu favor são reais. Super-raios existem, foram descobertos exatamente por meio do tipo de dado óptico de satélite que registrou este evento, e uma descarga dessa classe perto de uma rede de distribuição pode plausivelmente causar falhas violentas de fusíveis, televisores destruídos e fiação chamuscada numa área ampla. Sua fraqueza é o tempo. Raio de qualquer tipo exige um sistema de tempestade, e nenhuma tempestade aparece no registro de Bell Island naquela manhã. Um raio também não explica facilmente dois buracos simétricos em forma de tigela em terreno aberto.
O raio globular foi a primeira alternativa oferecida no local, e nunca desapareceu de todo. Sua fraqueza é o mesmo problema meteorológico, agravado pelo fato de que o raio globular, seja lá o que for, não é conhecido por produzir danos de onda de choque nesta escala nem por ser visível como uma detonação a partir da órbita.
Alguns defendem um bólido: um pequeno meteoroide explodindo baixo na atmosfera. Isso explicaria um clarão visível por satélite, uma onda de choque audível a cinquenta e cinco quilômetros e um evento súbito sem tempestade associada. Sua fraqueza é material. Não se recuperaram fragmentos, os buracos nunca foram identificados como estruturas de impacto e nenhuma confirmação sísmica ou acústica independente de uma explosão aérea sobre a baía de Conception foi tornada pública.
A teoria do teste de armas, popularizada pelo documentário de 2004, sustenta que um ensaio de energia dirigida ou de pulso eletromagnético deu errado ou foi deliberadamente apontado para a ilha. Uma teoria sustenta que o corpo de minério enterrado de Wabana funcionou como alvo ou condutor. Suas fraquezas são várias. Nenhum documento governamental que a apoie jamais veio à tona. Físicos questionaram se o minério é magnético o bastante para se comportar como a teoria exige. E o cenário nos pede acreditar que uma superpotência realizou um teste energético de armas sobre território habitado de um aliado da OTAN, à luz do dia, e que o segredo se manteve.
Por baixo de tudo isso há uma pergunta em aberto mais discreta, que trata de provas e não de exotismo. A detecção Vela é citada repetidamente, mas nunca foi examinada publicamente em detalhe. O que exatamente os satélites registraram em 2 de abril de 1978, em que faixa, com que intensidade, e como essa assinatura se compara ao catálogo confirmado de super-raios, não é informação disponibilizada ao público em forma avaliável. Tampouco está claro se Warren e Freyman chegaram a produzir um relatório escrito formal, ou se sua conclusão foi um julgamento de campo informado que endureceu em resposta oficial pela força da repetição.
As perguntas testáveis são, portanto, estas. Os registros ópticos da Vela para aquela data sobreviveram, e podem ser liberados e comparados com assinaturas conhecidas de super-raios? Foi escrito um relatório de Los Alamos, e ele existe em algum arquivo? Poderia o campo onde os buracos foram achados ser reexaminado, e a química do solo distinguiria entre uma descarga elétrica, um impacto e uma explosão? E pode uma reanálise moderna dos dados atmosféricos de 1978 decidir, num sentido ou noutro, se houve qualquer atividade elétrica sobre a baía de Conception naquela manhã?
Até que ao menos algumas delas sejam respondidas, a mais ruidosa explosão inexplicada da história da Terra Nova permanece exatamente onde está desde 1978: atribuída, mas não resolvida.