UM CASO REAL
Resolvido

Landru, o "Barba Azul de Gambais": 11 vítimas, uma caderneta preta e um fogão de cozinha

2026-11-04 · · Os crimes mais graves, resolvidos · 12 min de leitura

Primavera de 1915. A França está em guerra há 8 meses. Milhões de homens estão no front. Os jornais de Paris publicam longas listas de mortos.

Nesses mesmos jornais, outra seção cresce a cada semana: os anúncios de casamento.

As viúvas liam. Liam também as mulheres cujos noivos tinham morrido, e as mulheres que a guerra simplesmente deixou sozinhas. Um anúncio aparecia sem parar. Na versão citada em relatos posteriores, dizia: cavalheiro sério procura viúva de 35 a 45 anos, ou mulher sem sorte no amor.

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O homem que o publicava não era viúvo. Era casado, pai de filhos já adultos, e um vigarista condenado fugindo da polícia. Seu nome era Henri Désiré Landru.

Entre janeiro de 1915 e janeiro de 1919, desapareceram 10 mulheres que lhe responderam. Desapareceu também o filho adolescente de uma delas. Nenhum corpo foi encontrado.

Este é o caso Landru, o homem que a imprensa francesa chamou de "Barba Azul de Gambais". É a história de como 2 irmãs de 2 desaparecidas, um prefeito de aldeia e um inspetor da polícia de Paris o encontraram. E de como um tribunal francês o mandou para a guilhotina por 11 assassinatos sem um único cadáver.

Um vigarista muito antes da guerra

Landru nasceu em Paris em 12 de abril de 1869. Prestou serviço militar a partir de 1889. Em 1893 casou-se com a prima.

Teve muitos empregos pequenos e não ficou muito tempo em nenhum. O que fez com constância foi fraude.

A primeira condenação conhecida veio em julho de 1904: 2 anos de prisão por fraude. Em 1909 foi preso por 3 anos depois de enganar uma viúva em Lille, no norte da França. Entre 1902 e 1914 entrou e saiu da prisão repetidas vezes por pequenos golpes.

Em julho de 1914 um tribunal o julgou à revelia e o condenou pela 6.ª vez. A pena foi pesada: 4 anos de trabalhos forçados, seguidos de deportação perpétua para a Nova Caledônia, uma colônia francesa no oceano Pacífico.

Ele nunca a cumpriu. Mudava-se com frequência e usava nomes falsos.

Um mês depois, em agosto de 1914, começou a Primeira Guerra Mundial. No caos da guerra, com os homens partindo para o front e as famílias espalhadas, um homem com nome falso era muito difícil de achar.

A primeira casa

Em dezembro de 1914 Landru alugou uma casa chamada Villa Ermitage em Vernouillet, uma pequena cidade a cerca de 35 km a noroeste de Paris.

A primeira mulher que levou para lá foi Jeanne-Marie Cuchet, uma viúva de 39 anos. Com ela foi o filho, André. As fontes dão a ele 16 ou 17 anos. Diante deles, Landru se apresentava como "Raymond Diard".

Mãe e filho foram vistos pela última vez por volta de 26 de janeiro de 1915. A família dela passou a acreditar, mais tarde, que ela lhe entregara 5.000 francos.

No verão veio Thérèse Laborde-Line, de 46 anos. Foi vista pela última vez depois de 26 de junho de 1915.

Algumas semanas depois veio Marie-Angélique Guillin, de 51 anos. Desapareceu por volta de 3 de agosto de 1915. Depois disso, 12.000 francos saíram da conta bancária dela.

Em Vernouillet, os vizinhos começaram a reparar. Landru não esperou para ver o que fariam. Foi embora.

A casa de Gambais

Em dezembro de 1915 Landru alugou uma segunda casa: a Villa Tric, em Gambais, uma aldeia no campo a oeste de Paris. O vizinho mais próximo morava a cerca de 300 m.

Pouco depois de se mudar, comprou um grande fogão de cozinha e uma grande quantidade de carvão.

Daí em diante, as mulheres iam para Gambais. O padrão era sempre o mesmo, e o próprio Landru o anotava. Na estação comprava 2 bilhetes: um de ida e volta para si e um só de ida para a mulher.

Estas são as mulheres, na ordem que os investigadores reconstituíram depois:

Berthe-Anna Héon, 55 anos, viúva de guerra. Os bilhetes são de 8 de dezembro de 1915.

Anna Collomb, 44 anos. Vista pela última vez depois de 27 de dezembro de 1916.

Andrée-Anna Babelay, 19 anos, a mais jovem. Vista pela última vez depois de 12 de abril de 1917.

Célestine Buisson, 47 anos. Os bilhetes são de 19 de agosto de 1917. Vista pela última vez depois de 1 de setembro de 1917. Para ela, Landru era "Georges Frémyet".

Louise-Joséphine Jaume, 38 anos. Vista pela última vez entre 24 e 26 de novembro de 1917. Para ela, ele era "Lucien Guillet".

Anne-Marie Pascal, 36 anos. Levada para Gambais em 5 de abril de 1918.

Marie-Thérèse Marchadier, 37 anos. Levada para Gambais em 13 de janeiro de 1919. Levou consigo seus cães.

As idades variam um pouco conforme a fonte. O que não varia é o fim: nenhuma voltou.

O que a aldeia viu

Os moradores de Gambais contaram depois aos investigadores o que tinham visto.

O homem da Villa Tric chegava cada vez com uma mulher diferente. Ia embora sozinho.

Às vezes saía da chaminé uma fumaça preta e espessa, com cheiro ruim. Vizinhos lembravam de uma fumaça assim em janeiro de 1919, o mês em que chegou Marie-Thérèse Marchadier.

Ninguém foi à polícia. Era tempo de guerra, e um homem queimando lixo num fogão não comete crime algum.

Para onde ia o dinheiro

Landru não matava por paixão. Tudo no processo aponta para dinheiro.

Vendia os móveis e os títulos das mulheres. Sacava dinheiro das contas delas, às vezes fingindo ser um parente. A esposa dele admitiu depois que falsificara assinaturas para lhe dar acesso às contas de 2 das vítimas.

Era cuidadoso e era sovina. Em suas cadernetas, classificava as mulheres que respondiam aos anúncios pelos bens que pareciam ter. A mulher marcada como sem bens era descartada.

Duas irmãs começam a perguntar

Durante 4 anos ninguém ligou os desaparecimentos. As mulheres eram viúvas, muitas viviam sozinhas, e os parentes supunham que tinham se casado de novo e se mudado.

O caso começou com uma irmã.

Marie Lacoste era irmã de Célestine Buisson. Escrevia-lhe repetidamente para a casa de Gambais. Nunca veio resposta.

Em janeiro de 1919 ela escreveu ao prefeito de Gambais.

O prefeito já tinha recebido uma carta parecida. Vinha de Victorine Pellat, irmã de Anna Collomb, que também perguntava por uma mulher que fora para Gambais e se calara.

O prefeito pôs as duas mulheres em contato.

Elas compararam o que sabiam. Cada uma descreveu o homem com quem a irmã ia se casar. Collomb o conhecia como "Dupont". Buisson o conhecia como "Frémyet". As 2 descrições eram do mesmo homem.

As irmãs registraram queixas de desaparecimento junto ao promotor de Seine-et-Oise, o departamento em torno de Paris ao qual Gambais pertencia.

As queixas chegaram a Jules Belin, inspetor da brigada móvel de Paris, a unidade que cuidava de crimes graves.

Um homem que não existia

Belin tinha 2 nomes, uma casa numa aldeia e as descrições de duas irmãs. Não era muito.

"Dupont" e "Frémyet" não levavam a lugar nenhum. O homem que alugara a Villa Tric dera dados falsos. Não morava em Gambais. Ia e vinha.

A investigação empacou. Então o acaso mudou tudo.

Em 11 de abril de 1919, uma amiga de Marie Lacoste chamada Laure Bonhoure passeava pelo centro de Paris, perto da Rue de Rivoli. Viu um homem que reconheceu como o pretendente da irmã de sua amiga. Ele estava com uma mulher jovem, e os dois entraram numa loja.

Ela contou a Marie Lacoste. Marie Lacoste telefonou para Belin.

Na loja, a polícia descobriu que o homem deixara um cartão de visita. Trazia o nome "Lucien Guillet" e um endereço: Rue de Rochechouart 76, perto da estação Gare du Nord, em Paris.

A prisão

Em 12 de abril de 1919, por volta do meio-dia, a polícia bateu à porta do apartamento da Rue de Rochechouart.

Lá dentro estavam um homem barbudo de uns 50 anos e uma mulher jovem, Fernande Segret, de 24 anos. Era sua amante. Não sabia quem ele era de verdade.

Os relatos divergem sobre quem comandou a prisão. Um relato oficial diz que ela foi feita sob a autoridade de um comissário de polícia. Outro cita Belin e um segundo inspetor. Todos concordam com a acusação daquele primeiro dia: fraude. A polícia ainda não tinha um único corpo.

No início o homem se recusou a confirmar quem era. Depois admitiu: era Henri Désiré Landru, vivera com nomes falsos como foragido e era um vigarista.

Assassino, disse, não era.

Segundo o relato oficial do caso, no dia da prisão ele tentou se livrar de uma pequena caderneta preta. A polícia ficou com ela.

A caderneta preta

A caderneta virou o centro do caso.

Landru anotava tudo. Encontros. Viagens. Despesas, até a passagem de trem mais barata. O bilhete de ida e volta para si e o só de ida para a mulher, de novo e de novo.

Também anotava nomes. Os investigadores contaram 283 mulheres com quem ele se correspondera ou tivera algum tipo de contato.

E havia uma lista separada com 11 nomes. Batiam com os desaparecidos: as 10 mulheres e André Cuchet.

A polícia saiu para encontrar cada uma das 283 mulheres. A maioria foi achada viva. Tinham respondido a um anúncio, conhecido um cavalheiro educado e sido deixadas de lado, em geral porque não tinham dinheiro.

72 das mulheres nunca foram localizadas. Isso não quer dizer que tenham sido vítimas. Num país em guerra, muita gente simplesmente não podia ser encontrada. Mas isso também nunca foi explicado.

Quando os investigadores perguntavam a Landru sobre as mulheres da lista, ele se recusava a responder. "Esse é o meu segredo", dizia. E também: "O fato de eu ser Landru não prova que eu seja um assassino."

A busca em Gambais

Em 29 de abril de 1919 a polícia fez uma busca na Villa Tric.

Os relatos da busca não batem por completo. Um diz que o inspetor chegou esperando encontrar 11 corpos e de início achou apenas restos de cães. O registro detalhado do caso descreve o que foi encontrado nas cinzas.

Sob um galpão e dentro do fogão da cozinha, os investigadores recolheram 4,176 kg de resíduos queimados. Neles havia 295 fragmentos de ossos humanos e 47 dentes pequenos ou pedaços de dentes. Havia também retalhos de tecido, botões, partes de espartilhos e sapatos.

No jardim, cavaram. Acharam apenas 2 esqueletos de cão. Landru disse que os cães eram de Marie-Thérèse Marchadier e que os enterrara a pedido dela.

Os fragmentos de osso foram para um médico-legista, Charles Paul. A conclusão dele foi cautelosa. Os fragmentos vinham de pelo menos 3 esqueletos humanos. Ele não pôde dizer se eram de homens ou de mulheres, porque não foram achados ossos da pelve. Não pôde ligá-los a nenhuma desaparecida em particular.

Esse era o buraco do caso, e ele nunca se fechou. Havia ossos, mas não um corpo. Havia 11 desaparecidos, mas nenhuma prova de como qualquer um deles morreu.

Tudo o mais que a polícia encontrou

O que a polícia encontrou, sim, foram os pertences das mulheres.

Em garagens que Landru usava apareceram móveis e roupas das desaparecidas. Apareceram documentos de identidade e papéis bancários.

Cada objeto tinha de ser rastreado até a dona. Um vestido, um armário, um maço de papéis. Peça por peça, os investigadores ligaram os bens de cada um dos 11 ao homem que dizia não saber o que tinha sido deles.

Em dezembro de 1919 a polícia prendeu também a esposa de Landru, então com 51 anos, e o filho mais velho, então com 25. Os dois foram soltos em julho de 1920 sem acusação. O filho mais novo ajudara a transportar os móveis das vítimas. Nunca foi preso.

Enquanto isso, o caso virara uma obsessão nacional. Nas eleições de novembro de 1919, cerca de 4.000 eleitores escreveram o nome de Landru nas cédulas.

A investigação durou 2 anos e meio. Só então o caso foi a julgamento.

O julgamento em Versalhes

O julgamento abriu em 7 de novembro de 1921 no Tribunal do Júri de Seine-et-Oise, em Versalhes, a cidade real vizinha a Paris. Durou mais de 3 semanas.

A sala estava lotada. Cantores e escritores famosos da época vinham ver o "barbudo infame", como o chama um relato.

Landru foi defendido por Vincent de Moro-Giafferi, um dos advogados mais famosos da França.

As testemunhas vieram uma após a outra. A irmã de Jeanne-Marie Cuchet. Os vizinhos de Gambais. Pessoas que o tinham visto na estação. Fernande Segret também depôs.

A posição de Landru nunca mudou. Admitia ser vigarista. Negava ser assassino ou louco.

Quando o juiz presidente lhe perguntou sobre as mulheres, respondeu que sua vida privada não dizia respeito a ninguém além dele mesmo.

Quando lhe perguntaram sobre os filhos, que o ajudaram a levar móveis, disse que lhe obedeciam sem perguntar por quê. E perguntou ao juiz como ele educava os próprios filhos.

O advogado construiu a defesa sobre um único ponto: não havia corpo. Como, perguntou aos jurados, condenar um homem por matar 10 mulheres se nenhuma delas foi encontrada?

Num certo momento, segundo o relato oficial, o advogado anunciou ao tribunal que uma das supostas mortas tinha sido encontrada e estava prestes a entrar. Todos na sala, inclusive os jurados, viraram-se para a porta.

O promotor respondeu que só uma pessoa não se virara: o próprio Landru.

O veredicto

Em 30 de novembro de 1921, depois de cerca de 3 horas de deliberação, o júri considerou Landru culpado de 11 assassinatos. A decisão foi por maioria de 9 a 3.

A pena foi a morte.

Ele pediu clemência ao presidente da França. O pedido foi negado.

Em 25 de fevereiro de 1922, às 6h05 da manhã, Henri Désiré Landru foi guilhotinado diante da prisão de Saint-Pierre, em Versalhes.

Segundo o relato oficial, ao pé do cadafalso o advogado perguntou se ele finalmente confessaria. Landru respondeu em francês com uma frase que quer dizer: "Isso, doutor, é a minha pequena bagagem."

Levou a resposta consigo.

O que continua em aberto

Landru nunca confessou. Nenhum corpo inteiro de nenhuma das 11 vítimas foi encontrado, e como exatamente ele se livrou delas não foi provado no tribunal. A condenação se apoiou na caderneta, nos bilhetes, nos bens e nos fragmentos queimados, e o júri não chegou a ela por unanimidade.

As 72 mulheres da caderneta que nunca foram localizadas continuam sendo uma pergunta em aberto. Ninguém mostrou que alguma delas tenha sido vítima.

Depois do julgamento, o fogão da Villa Tric foi vendido em leilão em 1923. Por um tempo, a casa de Gambais virou um restaurante de tema macabro. Fernande Segret, a jovem encontrada com ele no dia da prisão, processou mais tarde os autores do filme francês "Landru", de 1963, pela forma como a retratava, e ganhou uma indenização.

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