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O fogo que ninguem arquivou: meio seculo na Porta do Inferno

2026-08-24 · Lugares enigmáticos · 7 min de leitura

Ve-se antes de la chegar. A subir para norte a partir de Asgabate, atravessando o Karakum, o deserto e negro e sem feicoes depois do por do sol, e entao surge uma mancha alaranjada baixa na barriga do ceu, horas antes de a estrada la chegar. De perto, o chao esta quente atraves das solas das botas. O poco tem cerca de setenta metros de largura e talvez vinte de profundidade e, ate ha pouco, as suas paredes e o seu fundo estavam cobertos por centenas de chamas separadas, umas do tamanho de uma vela e outras do tamanho de um carro, todas alimentadas por gas que sobe da rocha. Ruge. O calor empurra-nos para tras a partir do bordo. As pessoas do lugar chamam-lhe a Porta do Inferno, e o nome pegou em todas as linguas que os turistas trouxeram consigo.

A historia que acompanha a cratera e contada em toda a parte, com as mesmas palavras e a mesma confianca. Em 1971 uma equipa de geologos sovieticos perfurava a procura de gas natural no Karakum. O solo sob a torre cedeu e engoliu-a, deixando um poco largo que comecou a libertar metano. Receando que o gas envenenasse pessoas e gado nas imediacoes, os engenheiros atearam-lhe fogo, esperando que a bolsa se consumisse em poucas semanas. Arde desde entao.

E uma historia muito boa. Tem data, causa, uma decisao razoavel e um desfecho ironico. O que nao tem e uma fonte.

Quando os investigadores foram procurar a papelada, voltaram de maos vazias. O departamento de geologia do Turquemenistao nao tem nenhum relatorio de incidente desse periodo. Nao ha diario de perfuracao sovietico, nem memorando ministerial, nem noticia de jornal da epoca, nem fotografia dos anos setenta que mostre um poco a arder em Darvaza. A data de 1971 e repetida em sites de viagens e em paginas enciclopedicas sem qualquer referencia por tras, e todas as tentativas de a seguir rio acima terminam noutro artigo que repete a mesma frase. No que toca ao registo publico, o mais famoso acidente industrial da Asia Central nao tem processo.

Ha razoes para isso alem do descuido. Os acidentes industriais na Uniao Sovietica eram classificados por rotina. As falhas em instalacoes de gas e petroleo envergonhavam ministerios e eram retiradas do registo ou nunca la entravam. Depois da independencia, o Turquemenistao tornou-se um dos estados mais fechados do planeta, com arquivos praticamente inacessiveis e uma historia oficial escrita por encomenda. A falta de um documento nao prova nada por si so. Mas quando a unica prova de um facto amplamente repetido e que toda a gente o repete, vale a pena diz e-lo em voz alta.

As pessoas que poderiam saber contam outra coisa. Geologos turcomenos que trabalharam na regiao durante decadas disseram que o abatimento em Darvaza aconteceu nao em 1971 mas algures nos anos sessenta, e que o poco ali esteve como buraco aberto a libertar gas durante anos, sem arder. Segundo essa versao, o fogo so foi ateado nos anos oitenta, e pela mesma razao que a versao popular indica: travar o gas venenoso que se espalhava pelo deserto. Um relatorio de 2010 do geologo turcomeno Anatoly Bushmakin coloca tanto o abatimento como a ignicao no inicio dos anos oitenta. Estes relatos tambem nao concordam entre si. Aquilo em que concordam e que 1971 nao e para onde apontam as provas.

O outro visitante famoso da cratera nao conseguiu resolver a questao. Em novembro de 2013 o explorador e cacador de tempestades canadiano George Kourounis, apos dois anos de preparacao, foi descido por corda ate ao fundo do poco em chamas, com um fato refletor de calor e um arnes preparado para aquelas condicoes, e passou cerca de dezassete minutos la em baixo. O objetivo era cientifico: recolheu solo do fundo da cratera, e a analise posterior relatou bacterias a viver nele, organismos que sobrevivem em terreno quente e saturado de gas onde nada deveria sobreviver. Tambem perguntou, no local e depois, como e que aquilo tinha comecado. Encontrou o que todos encontram. Ha, como disse, muita discordancia sobre como comecou, e a documentacao da era sovietica esta em falta, incompleta ou ainda fechada.

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Mesmo assim a fama da cratera cresceu, e cresceu depressa. Ao longo dos anos 2000 Darvaza passou de boato que circulava entre trabalhadores do petroleo para a unica coisa que os estrangeiros sabiam sobre o Turquemenistao, um pais que de resto admitia muito poucos deles. Os operadores turisticos construiram um circuito a sua volta: a longa viagem para norte a partir de Asgabate, tendas montadas a distancia prudente do bordo, uma noite de luz laranja e rugido, e o regresso ao amanhecer. Chegaram fotografos, depois equipas de filmagem, depois um governo que teve de decidir o que fazer com um buraco no seu proprio campo de gas que o resto do mundo aprendera a amar. Algures pelo caminho o relato popular endureceu em facto. A repeticao nao e prova, mas comporta-se como prova: quando alguem se lembrou de perguntar de onde vinha a data de 1971, ela ja tinha sido impressa tantas vezes que perguntar parecia pedantismo e nao metodo.

O capitulo moderno e mais politico do que geologico. Em 2010 o presidente turcomeno mandou os especialistas encontrarem uma forma de fechar a cratera. Nada de visivel aconteceu. Em 2022 a ordem foi repetida em termos mais duros: o fogo devia ser extinto por completo, com o argumento de que prejudicava o ambiente e a saude das pessoas que vivem por perto, e de que gas valioso, exportavel com lucro, estava a arder em vez disso. Seguiram-se trabalhos, incluindo perfuracoes destinadas a desviar gas para longe da cratera.

Em 2025 a diferenca era obvia para quem ja tivesse visto o local antes. Onde havia um inferno continuo havia agora uma taca carbonizada com focos dispersos de chama, e os investigadores relataram que o fogo tinha encolhido para cerca de um terco da sua extensao anterior. Nao e uma noticia inteiramente boa. Queimar metano converte-o em dioxido de carbono, que e um gas com efeito de estufa muito mais fraco; o metano que simplesmente escapa sem arder e varias vezes mais nocivo. A monitorizacao da Carbon Mapper registou no local emissoes de cerca de 1.960 quilogramas por hora em outubro de 2025, acima da media de aproximadamente 1.300 quilogramas por hora medida entre 2022 e 2025. As chamas estao a diminuir. O gas, nessa leitura, nao.

Conclusoes e perguntas em aberto

O relato habitual de 1971 nao e impossivel. As torres de perfuracao perdem-se mesmo em abatimentos sobre gas pouco profundo, e atear fogo a uma saida de metano descontrolada e uma resposta de campo reconhecida, ainda que grosseira. A sua forca esta em ser mecanicamente plausivel e em corresponder ao comportamento destes locais. A sua fraqueza e total: ninguem apresentou um documento, uma fotografia, um nome ou um relato da epoca, e a historia parece entrar em circulacao alargada apenas nos anos noventa, quando a cratera se tornou destino. Uma narrativa arrumada que chega com o turismo, e nao antes, merece suspeita.

A versao dos geologos, abatimento nos anos sessenta e ignicao nos anos oitenta, tem a vantagem de vir de pessoas que estiveram profissionalmente na regiao. O relatorio de Bushmakin, que coloca ambos os acontecimentos no inicio dos anos oitenta, vem do mesmo meio. A sua forca e a proximidade. A sua fraqueza e que sao recordacoes dadas decadas depois, que se contradizem entre si nas datas e que nao estao mais bem documentadas do que a versao que contradizem. Duas historias sem documentacao nao fazem uma documentada.

Uma terceira possibilidade e que o abatimento nao tenha sido causado por perfuracao de todo, ou nao apenas por ela. Darvaza nao e a unica cratera nesta parte do Karakum. Outras duas ficam a curta distancia de carro, uma com agua e outra a borbulhar lama e gas, e ninguem afirma que uma torre de perfuracao caiu nelas. As dolinas formam-se naturalmente sobre reservatorios de gas pouco profundos quando a rocha do teto cede. A forca desta leitura e que as crateras vizinhas mostram que o terreno aqui abate sozinho. A sua fraqueza e que explica o buraco e nao o fogo, porque alguem teve, ainda assim, de lhe chegar uma chama.

O que fica genuinamente por explicar nao e a quimica mas o registo. Ninguem estabeleceu quem ateou fogo a cratera, em que data ou com que autoridade, e nao ha razao confirmada para acreditar que a resposta alguma vez tenha sido escrita. Uma segunda pergunta em aberto e mais cientifica: uma bolsa de gas que devia esgotar-se em semanas tem sido alimentada continuamente ha cerca de meio seculo, o que diz algo substancial sobre o tamanho e a recarga do reservatorio la em baixo, algo que nunca foi publicado. E uma terceira pergunta e hoje urgente e nao historica. Se o fogo for extinto e o gas continuar a subir, uma chama espetacular tera sido trocada por uma pluma invisivel. A Porta do Inferno pode fechar-se sem que ninguem consiga dizer quando se abriu, nem o que deixara para tras.

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