Documentado

A menina do Vaticano: quarenta anos de silêncio em torno de Emanuela Orlandi

2026-08-01 · Desaparecidos sem rasto · 8 min de leitura

Emanuela Orlandi nasceu em Roma a 14 de janeiro de 1968, a quarta de cinco filhos de Ercole Orlandi, funcionário leigo da Prefeitura da Casa Pontifícia. Por causa do cargo do pai, a família vivia dentro das muralhas da Cidade do Vaticano. Isso fazia de Emanuela algo muito invulgar: uma adolescente que era cidadã do mais pequeno Estado soberano do mundo e que ia à escola e às aulas de música pelas ruas comuns de Roma.

Tinha quinze anos, tocava flauta e três tardes por semana frequentava a escola de música Tommaso Ludovico da Victoria, na praça de Sant'Apollinare, a poucos passos da Piazza Navona. Na quarta-feira, 22 de junho de 1983, saiu de casa por volta das quatro da tarde para a sua aula. Roma estava quente e meio vazia, o ano letivo terminava e nada naquela tarde era fora do comum.

Durante uma pausa da aula, Emanuela telefonou à irmã Federica. Um homem, disse ela, aproximara-se dela à saída da escola e oferecera-lhe trabalho pago: distribuir folhetos num desfile de moda da empresa de cosméticos Avon, duas horas de trabalho por uma quantia muito elevada para uma rapariga de quinze anos. Federica disse-lhe para não fazer nada e para falarem em casa com os pais. Esse telefonema é o último contacto direto que a família teve com ela.

Colegas de turma disseram depois à polícia que tinham visto Emanuela por volta das sete e meia daquela noite numa paragem de autocarro no Corso del Rinascimento, a falar com uma rapariga que ninguém conseguiu identificar. Os depoimentos recolhidos na altura mencionavam também um BMW escuro estacionado ali perto. Emanuela não voltou a casa. Nessa noite o pai e o irmão Pietro percorreram as ruas em torno de Sant'Apollinare à sua procura.

A 25 de junho, três dias depois do desaparecimento, chegou a primeira chamada anónima. Uma voz masculina jovem que se identificou como Pierluigi disse à família que conhecera no Campo de' Fiori uma rapariga que se apresentava como Barbarella e vendia cosméticos Avon. Descreveu um estojo de flauta e uns óculos, pormenores que não tinham sido tornados públicos. A 27 de junho um segundo interlocutor, que deu o nome de Mario e afirmou ser dono de um bar, contou uma história semelhante sobre raparigas fugidas que vendiam cosméticos.

A 3 de julho de 1983 o papa João Paulo II referiu-se publicamente ao caso durante o Angelus de domingo e falou dos responsáveis pelo desaparecimento. Com isso, a hipótese do rapto tornou-se oficial.

A 5 de julho as chamadas mudaram completamente de carácter. Um homem com sotaque americano, nunca identificado e desde então conhecido apenas como o Americano, começou a telefonar para o Vaticano e para os meios de comunicação italianos. Afirmava que Emanuela estava nas mãos de um grupo e impôs uma condição para a sua libertação: a libertação de Mehmet Ali Agca, o atirador turco que baleara o papa na praça de São Pedro a 13 de maio de 1981 e cumpria prisão perpétua numa cadeia italiana. Fez ouvir uma breve gravação que, segundo ele, era a voz da rapariga, e fixou um prazo até 20 de julho. A 6 de julho indicou à agência ANSA onde encontrar material; junto ao Parlamento italiano foi recuperado um pacote com um manual de música, uma fotografia tipo passe e outros objetos ligados a Emanuela. A 8 de julho alguém telefonou para casa de uma das colegas dela, repetiu a exigência e pediu contacto direto com o cardeal Agostino Casaroli, então secretário de Estado da Santa Sé.

Entre agosto de 1983 e novembro de 1985 chegaram cartas de um grupo que se dizia frente turca de libertação anticristã. Continham pormenores pessoais sobre Emanuela difíceis de explicar e alegavam ter tanto a ela como a Mirella Gregori, outra rapariga de quinze anos desaparecida em Roma a 7 de maio de 1983, seis semanas antes de Emanuela. Nem os interlocutores nem os autores das cartas apresentaram alguma vez prova de que qualquer uma das duas estivesse viva. Nunca se tentou uma troca, nunca se cobrou um resgate e nunca apareceu um corpo.

A 24 de dezembro de 1983 o papa João Paulo II visitou a casa dos Orlandi e falou com a família. Depois disso o caso deslizou para décadas de silêncio. Em 1997, ao fim de catorze anos de trabalho, o Ministério Público de Roma encerrou a primeira investigação, considerando a exigência terrorista uma manobra de distração deliberada e não uma negociação genuína.

Em 2005 uma chamada anónima para um programa de televisão italiano revelou que Enrico De Pedis, um dos chefes do grupo criminoso romano conhecido como Banda della Magliana, abatido a tiro em 1990, estava sepultado na cripta da basílica de Sant'Apollinare, a igreja contígua à escola de música de Emanuela. O enterro era real e, para um homem com o seu historial, era extraordinário. Em 2008 Sabrina Minardi, que fora companheira de De Pedis, disse aos procuradores que o grupo tinha levado Emanuela. O seu relato era detalhado, mas continha contradições que os investigadores não conseguiram resolver. A 14 de maio de 2012 o túmulo foi aberto e os restos examinados; nada ali se ligou ao caso. Em mais de quarenta anos, nenhum processo saído destas linhas de investigação produziu uma condenação pelo desaparecimento.

No verão de 2018 o advogado da família recebeu uma carta anónima com a fotografia de uma estátua de anjo no Cemitério Teutónico, um pequeno cemitério dentro do território do Vaticano, e uma linha que lhe dizia para olhar para onde o anjo apontava. A 11 de julho de 2019 o Vaticano fez algo sem precedentes: mandou abrir dois túmulos do século XIX daquele cemitério, os da princesa Sophie von Hohenlohe e da duquesa Carlota Frederica de Mecklemburgo. Ambos estavam completamente vazios. Não havia caixões nem ossos, nem sequer os das duas mulheres cujos nomes constavam das lápides. Sob o pavimento os investigadores encontraram ossários com grandes quantidades de ossos; os peritos nomeados para os examinar comunicaram que os restos eram anteriores a 1983.

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A 9 de janeiro de 2023 o papa Francisco autorizou a investigação do próprio Vaticano, dirigida pelo procurador-chefe da Santa Sé, Alessandro Diddi. Era a primeira vez que o Vaticano investigava formalmente o desaparecimento. Pietro Orlandi prestou o seu primeiro depoimento oficial perante Diddi a 11 de abril de 2023 e em junho o Vaticano anunciou que entregaria o seu material ao Ministério Público de Roma. Em paralelo, o Parlamento italiano criou uma comissão bicameral de inquérito sobre os desaparecimentos de Emanuela Orlandi e Mirella Gregori, aprovada pela Câmara dos Deputados a 23 de março de 2023 e pelo Senado a 27 de junho de 2023, com plenos poderes de investigação e um mandato de quatro anos. A 25 de junho de 2023 o papa Francisco mencionou publicamente Emanuela no Angelus e manifestou a sua proximidade à família.

Em novembro de 2024 o procurador-chefe do Vaticano confirmou que existe um processo confidencial da Santa Sé sobre o caso, depois de anos em que a sua existência fora negada.

Mais de quarenta e três anos depois daquela tarde de 22 de junho de 1983, não há rasto de Emanuela Orlandi. Não há corpo, não há confissão e não há sentença.

Conclusões e perguntas em aberto

Quatro décadas de investigação produziram muitíssimas explicações e nem um único facto provado sobre o que aconteceu depois daquela paragem de autocarro. As leituras principais podem ser expostas com clareza, cada uma com a objeção que sempre lhe foi levantada.

A primeira é o terrorismo internacional. Foi a leitura que os próprios interlocutores ofereceram em julho de 1983 e a que o Vaticano adotou então publicamente. A sua fraqueza é de fundo: raptores a sério negoceiam, e estes nunca negociaram. Nunca foi dada uma prova de vida, nunca foi marcado um encontro e os prazos passaram sem consequências. Em 1997 o Ministério Público de Roma concluiu que a exigência sobre Agca fora uma cortina e não um motivo.

A segunda liga o caso às finanças do Vaticano. Alguns investigadores e jornalistas defenderam que Emanuela foi levada como instrumento de pressão nos escombros do colapso do Banco Ambrosiano de 1982 e nos negócios do banco do Vaticano, então dirigido pelo arcebispo Paul Marcinkus, com a Banda della Magliana a servir de instrumento. Esta teoria assenta sobretudo no testemunho de Sabrina Minardi, prestado vinte e cinco anos depois dos factos, e na anomalia do enterro de De Pedis em Sant'Apollinare. A sua fraqueza é que a cronologia de Minardi não se aguentava, que a abertura do túmulo em 2012 nada deu e que nunca foi apresentado um documento a ligar uma pessoa concreta ao desaparecimento. Marcinkus, falecido em 2006, nunca foi acusado a esse respeito, e a alegação continua a ser uma teoria em aberto e não uma conclusão.

Uma terceira leitura sustenta que algo aconteceu dentro do mundo do Vaticano ou perto dele e foi depois encoberto, tendo a história do rapto sido construída para desviar as atenções para fora. Versões disto foram avançadas ao longo dos anos pelo jornalista Pino Nicotri e por outros, algumas citando comentários em segunda mão de clérigos. A sua fraqueza é que assenta em memórias e em boatos, sem prova material em nenhum momento.

Também é possível a leitura mais simples: um crime comum cometido por um particular, seguido de chamadas falsas de quem aproveitou um caso que se tornara notícia nacional. A sua fraqueza é o calendário. O primeiro interlocutor, ao quinto dia, descreveu a flauta e os óculos antes de esses pormenores serem públicos.

O que continua por explicar é a própria forma do caso. Como sabia Pierluigi o que sabia. Quem era o Americano, um homem cuja voz foi gravada repetidamente e nunca identificada. Porque é que dois túmulos do século XIX dentro do próprio cemitério do Vaticano foram encontrados completamente vazios em 2019 e o que era a câmara moderna de betão descoberta por baixo. Porque existia um processo confidencial depois de o Vaticano ter dito que não existia. E o que quis dizer o papa Francisco quando, segundo a família, lhes disse pouco depois da eleição que Emanuela estava no céu.

As perguntas em aberto são as que Pietro Orlandi repete em público há mais de trinta anos. Guarda a Santa Sé documentos que não divulgou. Terá a comissão parlamentar italiana acesso a eles. E resta alguém vivo que saiba o que aconteceu a uma rapariga de quinze anos que voltava para casa de uma aula de flauta e tenha escolhido não o dizer.


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