Tres dias depois da busca: a morte do doutor Jeff Bradstreet
Em 19 de junho de 2015 um pescador viu um corpo na agua do rio Rocky Broad, na altura de Chimney Rock, no condado de Rutherford, Carolina do Norte. O corpo foi recolhido e identificado como James Jeffrey Bradstreet, um medico da Florida que mantinha consultorio em Buford, na Georgia. O gabinete do xerife do condado de Rutherford declarou que ele morrera de um ferimento de bala no peito que aparentava ser autoinfligido. Depois, uma pistola foi recuperada do rio. Tres dias antes, agentes federais e estaduais haviam feito busca em sua clinica na Georgia.
Bradstreet nasceu em 6 de julho de 1954. Formou-se na Universidade do Sul da Florida em 1976, entrou ali na faculdade de medicina em 1979, obteve licenca medica na Florida em 1984 e concluiu formacao de pos-graduacao em medicina aeroespacial no Wilford Hall Medical Center. Mais tarde foi professor adjunto de desenvolvimento infantil e neurociencia no Southwest College of Naturopathic Medicine, em Tempe, Arizona. No papel era um medico com credenciais convencionais, e isso importava enormemente aos pais que o procuravam.
A virada de sua vida foi pessoal. Seu filho foi diagnosticado com autismo, e Bradstreet atribuiu o diagnostico a uma vacina aplicada aos quinze meses. Sobre essa conviccao construiu uma carreira. Fundou o International Child Development Resource Center em Melbourne, na Florida, e a Good News Doctor Foundation, que buscava unir fe crista e pratica medica, e abriu consultorios em Buford e no Arizona. Familias viajavam longas distancias para ve-lo. Para uma comunidade ampla de pais, era o medico que os levava a serio quando ninguem mais o fazia.
Em 2003 e 2004 assinou artigos no Journal of American Physicians and Surgeons sustentando que vacinas causavam autismo, incluindo a alegacao de que criancas autistas tinham niveis elevados de mercurio e de que se encontrara RNA do sarampo no liquido cefalorraquidiano de tres criancas autistas. O consenso cientifico, entao e agora, e que nao existe ligacao causal entre vacinas e autismo. Depois de perder o cargo em dezembro de 2001, Andrew Wakefield, cujo artigo de 1998 sobre o tema foi mais tarde retratado e considerado fraudulento, tornou-se diretor de pesquisa no centro de Bradstreet, embora os advogados de Wakefield tenham declarado em 2005 que ele nunca fora pago pelo centro nem firmara contrato com ele.
Os tratamentos que Bradstreet oferecia decorriam da teoria. Aplicava terapia de quelacao, procedimento destinado a retirar metais pesados do organismo, em criancas autistas. Num caso documentado, tratou uma crianca com quelacao a partir de 2000 apesar de exames normais de mercurio, e o menino compareceu ao consultorio cerca de 160 vezes em oito anos. Stephen Barrett, do Quackwatch, descreveu os exames de base como falsos, e a quelacao ja causou mortes e complicacoes graves em criancas autistas. Bradstreet promoveu ainda a imunoglobulina intravenosa para autismo, abordagem sobre a qual a Academia Americana de Alergia, Asma e Imunologia concluiu em 2006 que dificilmente beneficiaria pessoas autistas, e a oxigenoterapia hiperbarica, para a qual uma metanalise de 2016 nao encontrou evidencia suficiente e que a agencia americana de alimentos e medicamentos depois incluiu numa lista de tratamentos enganosos para autismo. Em 2014 publicou um artigo descrevendo a injecao de celulas-tronco fetais no abdome de quarenta e cinco criancas autistas.
O tratamento que levou o governo ate sua porta foi o GcMAF, uma proteina experimental derivada de hemoderivados humanos. Nao era aprovada como medicamento nem fabricada em condicoes padronizadas, o que significava que os pacientes nao tinham garantia alguma sobre o conteudo do frasco. Bradstreet comecou a promove-la em 2012 e disse te-la administrado a centenas de criancas, numero que as reportagens sobre a investigacao posterior elevaram bastante. O servico de saude britanico classificaria o GcMAF em 2022 como falso ou potencialmente prejudicial.
Em 16 de junho de 2015 o Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Norte da Georgia expediu mandado de busca para seu centro de bem-estar em Buford. Executaram-no agentes da agencia de alimentos e medicamentos e da Agencia de Drogas e Narcoticos da Georgia. O mandado buscava provas de crime relacionado a produtos adulterados ou com rotulagem enganosa e a fraudes praticadas por meios de comunicacao. Mencionava expressamente o GcMAF e abrangia quaisquer registros de venda, envio, faturamento e entrega, alem de documentos financeiros e atividade na internet. Nenhuma acusacao havia sido formalizada. Na pratica americana, um mandado assim marca o inicio de uma investigacao, nao o seu fim.
Tres dias depois Bradstreet estava morto. A sequencia nao e contestada, e e a razao pela qual o caso nunca se acomodou como uma tragedia comum. Um medico cuja obra de uma vida acabara de ser vasculhada por agentes federais dirigiu varias horas da Georgia ate as montanhas da Carolina do Norte e foi encontrado num rio com um unico ferimento de bala no peito. O gabinete do xerife registrou o ferimento como aparentemente autoinfligido, recuperou a arma da agua e tratou a morte como suicidio. Essa continua sendo a conclusao oficial.
A familia nao a aceitou. Parentes disseram publicamente que nao acreditavam que ele tivesse tirado a propria vida, e um familiar abriu uma pagina de arrecadacao para custear uma investigacao independente das circunstancias da morte. A familia contratou um investigador particular para procurar indicios de crime. A campanha recebeu doacoes da comunidade da medicina alternativa e de pais de criancas que ele tratara. Nos anos seguintes, nenhum resultado divulgado desse esforco privado contradisse a conclusao do xerife, e nenhuma autoridade reabriu o caso.
O que veio depois foi maior que a familia Bradstreet. Em semanas, Erin Elizabeth, do site Health Nut News, comecou a compilar uma lista de medicos mortos, apresentando Bradstreet como o primeiro de uma serie. A lista comecou com cinco nomes, cresceu para uma duzia e depois para numeros na casa dos cinquenta e sessenta, e foi amplificada pelo Natural News e pelo Infowars, de Alex Jones. Um documentario chegou a ser anunciado.
A alegacao foi examinada e nao sobreviveu ao exame. O Snopes percorreu os casos um a um e constatou que a lista misturava mortes com explicacoes inteiramente convencionais. Um dos nomes, a medica Teresa Sievers, de fato fora assassinada, mas seu marido foi condenado por homicidio de primeiro grau num caso que girava em torno de apolices de seguro de vida e problemas conjugais, sem qualquer relacao com medicina alternativa. Varios dos medicos citados nao eram sequer praticantes alternativos. Em setembro de 2015 a revista Reason publicou uma refutacao direta, sob o titulo de que a ideia de que as autoridades federais assassinam medicos alternativos estava desmentida, e expos a aritmetica: com cerca de 900 mil a um milhao de medicos nos Estados Unidos e mortalidade geral de aproximadamente 821 obitos por 100 mil pessoas ao ano, morrem da ordem de 700 medicos americanos por mes. Seis ou oito mortes em noventa dias nao sao um padrao. Sao um erro de arredondamento apresentado como conspiracao.
Houve um epilogo mais silencioso. A entidade sem fins lucrativos por tras do centro de Bradstreet ja havia perdido sua isencao fiscal em fevereiro de 2015 por nao apresentar declaracoes durante tres anos seguidos, e o estado a dissolveu administrativamente em setembro de 2016.
Conclusoes e perguntas em aberto
Os fatos documentados deste caso sao poucos e nao sao realmente contestados: um mandado de busca em 16 de junho de 2015, uma morte em 19 de junho, um unico ferimento de bala no peito, uma arma recuperada e uma conclusao oficial de suicidio do gabinete do xerife do condado de Rutherford. Tudo o que se disputa mora no espaco entre esses fatos e o seu significado.
Uma teoria sustenta que Bradstreet foi morto para ser calado. Na sua versao mais forte nao diz nada sobre quem, apenas que a coincidencia de datas e limpa demais. Sua fragilidade e que a coincidencia de datas e tudo o que ela tem. Nenhum orgao investigador apresentou prova da participacao de outra pessoa, nunca houve denuncia, e a narrativa maior em que essa teoria foi encaixada, a suposta onda de medicos holisticos assassinados, foi desmontada em detalhe pelo Snopes e pela Reason. Quando o principal apoio de uma teoria e uma lista que se demonstrou montada com mortes sem relacao entre si, a teoria herda essa fragilidade.
Um argumento mais estreito, o que a familia levantou, e que o modo da morte nao combinava com o seu carater. Parentes que o conheciam disseram que ele nao era homem de tirar a propria vida, e estavam dispostos a gastar dinheiro para testar essa conviccao. Isso merece ser registrado, e nao descartado. Familias costumam acertar sobre o carater e costumam errar sobre o desfecho, e as duas coisas sao verdadeiras ao mesmo tempo. O Snopes tratou tambem de uma alegacao especifica que circulou na epoca, a de que as pessoas nao atiram no proprio peito; um ferimento assim nao e incomum em suicidios. Isso nao resolve o que ocorreu num caso individual, mas retira o ponto da lista de anomalias.
Uma terceira leitura ve na busca nao o motivo, e sim a explicacao. Por ela, um medico diante do colapso do consultorio, da apreensao de seus registros e do provavel fim da carreira tirou a propria vida tres dias depois. E compativel com a conclusao e com o entendimento comum de uma crise aguda, mas e uma inferencia sobre um estado mental privado, e nenhum documento publico a estabelece. Convem sustenta-la com folga, e nenhum orgao ou servidor carrega responsabilidade pelo desfecho de uma busca legal.
As perguntas que permanecem abertas sao processuais, nao sensacionais. A investigacao privada custeada pela familia nunca publicou um relatorio. A investigacao federal terminou sem denuncia porque seu alvo morrera, de modo que as provas reunidas em Buford nunca foram examinadas em juizo e o publico nunca soube o que o mandado produziu. Sao lacunas reais, e do tipo que se preenche com pedidos de documentos, nao com teorias.
Uma conclusao nao esta em aberto. Nada no modo como Bradstreet morreu sustenta aquilo que ele vendia. O GcMAF continua sendo um produto nao aprovado, depois descrito pelo servico de saude britanico como falso ou potencialmente prejudicial, a quelacao e o oxigenio hiperbarico continuam sem respaldo para autismo, e a hipotese vacinal sobre a qual ele construiu a carreira continua rejeitada pela evidencia. Um homem pode ser sinceramente pranteado, e sua morte pode seguir sem resolucao na cabeca de quem o amava, sem que nada disso torne verdadeira a sua medicina.