UM CASO REAL
Contestado

O motor ainda estava ligado: o catamarã vazio do Kaz II

2026-09-14 · · Navios fantasma · 7 min de leitura

Na manhã de 15 de abril de 2007, três homens de Perth saíram de Airlie Beach num catamarã de 9,8 metros chamado Kaz II. Estavam no começo de uma viagem longa. O plano era subir a costa de Queensland até Townsville e seguir adiante, contornando o extremo norte da Austrália e descendo pelo lado ocidental, até em casa.

Derek Batten tinha 56 anos e era o dono do barco. Fizera um curso de vela e levara duas vezes embarcações pelas ilhas Whitsunday, o que, na escala do mar de Coral, é experiência modesta mas não nula. Com ele iam dois irmãos, Peter Tunstead, de 69 anos, e James Tunstead, de 63. Eram amigos de Batten e nenhum dos dois tinha muitas horas de água. Era, como costumam ser essas coisas, uma viagem sobre a qual três homens já mais velhos falavam havia tempo.

Por volta do meio-dia fizeram uma chamada de rádio perto de George Point, na foz do rio Proserpine. Foi rotineira. Ninguém voltou a ouvi-los.

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Três dias depois, em 18 de abril, um helicóptero de resgate em outra missão avistou um catamarã à deriva diante da Grande Barreira de Coral, sem ninguém visível no convés. As condições do mar impediram a abordagem por mais dois dias. Quando finalmente subiram a bordo em 20 de abril, o Kaz II estava a 88 milhas náuticas da costa do norte de Queensland, bem fora da barreira, à deriva.

O que encontraram a bordo é a razão pela qual ainda se fala deste caso.

O motor a diesel estava ligado, em ponto morto. As luzes da cabine estavam acesas. Um laptop estava ligado e o programa de navegação continuava rodando. Havia comida posta, e talheres, como se uma refeição tivesse sido interrompida. As defensas, aquelas almofadas infláveis que um barco pendura na lateral ao atracar, estavam estendidas sobre a amurada em pleno oceano aberto. Os coletes salva-vidas dos três continuavam guardados. Assim como seus pertences, suas carteiras, seu equipamento. Uma vela estava içada e muito rasgada, desfeita por dias batendo ao vento sem ninguém para recolhê-la.

Não havia sinal dos três homens nem sinal de que algo tivesse dado errado. Nem sangue, nem dano na cabine, nem bilhete, nem chamado de socorro. Não faltava nada do que alguém que parte por vontade própria levaria.

A busca que se seguiu foi das maiores da história recente de Queensland: aviões e navios cobrindo milhares de quilômetros quadrados do mar de Coral durante cinco dias. Nada foi encontrado. Nenhum corpo jamais foi recuperado.

Quase de imediato o caso adquiriu o vocabulário do Mary Celeste, com tudo o que isso traz. A cobertura australiana e internacional recorreu à pirataria, a um negócio de drogas, a um desaparecimento encenado, à ideia de que outra embarcação se aproximara pelo costado, e aí entraram as defensas estendidas. A polícia de Queensland disse cedo que tratava o desaparecimento como suspeito, o que na linguagem policial significa apenas que nada tinha ainda sido excluído, e que a imprensa leu como insinuação.

Então os investigadores acharam a câmera.

Uma câmera de vídeo a bordo havia gravado imagens daquela manhã. Mostravam os três homens no convés, vivos, tranquilos, pescando. O motor estava desligado. Pela popa arrastava-se na água um cabo branco. A gravação era comum sob todos os aspectos, e era exatamente isso que a tornava valiosa: fixava as últimas horas, estabelecia que não havia mais ninguém a bordo e mostrava um cabo na água atrás.

O inquérito judicial abriu em Townsville em 4 de agosto de 2008 perante o legista do estado de Queensland, Michael Barnes. Durou dias e ouviu 27 testemunhas: policiais, peritos, especialistas marítimos, as famílias dos homens e marinheiros que sabiam exatamente o que faz um catamarã quando se larga o leme com vento.

Barnes descartou crime. Descartou desaparecimento encenado. Depois expôs, em linguagem cuidadosa, uma sequência que dá conta do que havia no barco.

Um dos irmãos Tunstead, concluiu, muito provavelmente entrou na água para soltar uma linha de pesca enroscada no leme ou na hélice, ou foi atrás de algo que caíra pela borda. O outro irmão foi atrás dele. Batten, sozinho no convés, largou o leme para arriar a vela e voltar para buscá-los. Nesse instante o barco cambou. A retranca varreu o cockpit e o atirou ao mar.

Tudo o que havia a bordo é compatível com isso. Um motor em marcha lenta em ponto morto é o que sobra quando alguém tira a aceleração e abandona o timão às pressas. A vela rasgada é uma vela que estava sendo arriada quando quem a arriava deixou de existir. A comida na mesa é uma refeição à qual ninguém voltou.

Sobre a água em si, o legista foi direto. Nenhum dos três era bom nadador, o mar estava picado e um catamarã com qualquer pano içado afasta-se de um homem na água mais rápido do que ele consegue acompanhar. Escreveu que o fim teria sido rápido e que os homens se esgotariam depressa.

Escreveu também outra coisa, e é por isso que isto continua sendo um mistério e não um acidente encerrado. Disse que não podia ser tão categórico quanto às circunstâncias em que ocorreram as mortes.

Conclusões e perguntas em aberto

A reconstrução do legista é a explicação mais sólida disponível e merece ser levada a sério, não tratada como despacho burocrático. Sua força está em explicar quase tudo o que era material naquele barco com uma única cadeia de eventos comuns, sem precisar de segunda embarcação, de violência ou de um plano. Quedas ao mar em cascata, em que o socorrista segue quem tenta salvar e depois um terceiro segue os dois, são uma categoria documentada de morte marítima, não uma especulação.

Sua fraqueza é ser uma reconstrução, montada de trás para frente a partir do estado do convés. Nenhuma parte da sequência foi presenciada, e o legista disse isso. A cambada que levou Batten é o elo menos sustentado da corrente, porque não há nada no barco que a registre. O cenário também exige que dois homens de 69 e 63 anos, ambos inseguros na água, entrassem no mar a partir de uma embarcação em movimento, ponto que marinheiros experientes questionaram na audiência.

As explicações concorrentes sobrevivem sobretudo graças a essa lacuna, e cada uma tem problema próprio.

Uma onda anômala ou uma tromba d'água explicaria a remoção de três pessoas de uma vez, e o mar de Coral produz ambas. Mas uma onda pesada o bastante para varrer três homens de um catamarã deixa marcas. Desloca equipamento, alaga a cabine, arranca ferragens. A cabine estava seca e arrumada, o laptop funcionava e a comida ainda estava sobre a mesa.

Um encalhe num banco de areia perto de George Point, seguido de os três entrarem na água para empurrar o barco, também foi proposto e combina com a geografia da última chamada de rádio. Combina ainda com as defensas, que vários familiares sustentaram estarem fora porque o barco estivera atracado a algo. O contra-argumento, apresentado por oficiais marítimos na audiência, é prosaico: embarcações pequenas muitas vezes deixam as defensas do lado de fora por dias depois de sair de uma marina, por simples preguiça, e vê-las em alto-mar não prova nada.

As teorias que envolvem outra embarcação, pirataria ou um encontro no mar não têm nada por trás. Nada foi levado. Três carteiras, objetos pessoais, um barco que em si valia a pena levar, tudo ainda a bordo. Quem veio, por essa versão, veio por nada e deixou tudo.

E há mais um ponto que a versão mais arrumada do acidente não absorve inteiramente. A câmera mostrou os homens pescando com o motor desligado e um cabo arrastando atrás do barco. Quando o barco foi encontrado, o motor estava ligado. Alguém o acionou. Isso não derruba a versão do legista, pois Batten pode muito bem ter dado partida depois que o primeiro caiu na água, mas significa que a sequência começou mais cedo e de forma menos calma do que sugere a fórmula lisa de uma infeliz sucessão de acontecimentos.

Dezenove anos depois, o Kaz II continua sendo o caso que os marinheiros australianos evocam sempre que alguém subestima a rapidez com que uma tripulação pequena pode ser reduzida a nenhuma. Há uma reconstrução que quase certamente descreve o que aconteceu. Não há testemunha, nem corpo, nem prova. O legista disse exatamente isso, e vale repetir nos termos dele: podia dizer o que o mar provavelmente fez a três homens numa manhã clara de outono, mas não podia dizê-lo com certeza.

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