Rumo ao sol poente: a expedição que entrou na Austrália e nunca saiu
Em 3 de abril de 1848, numa fazenda distante chamada Cogoon, na borda oeste de Darling Downs, no que hoje é Queensland, sete homens reuniram seus animais e partiram para oeste. Com eles seguiram sete cavalos, vinte mulas e cinquenta bois. Levavam carne seca e farinha para muitos meses e esperavam que a viagem durasse dois ou três anos. Seu chefe já havia atravessado um continente e era célebre em todas as colônias australianas. A partir daquela manhã nenhum europeu voltou a vê-los, e nos cento e setenta e oito anos decorridos não se recuperou um único vestígio confirmado de qualquer daqueles homens, de seus animais ou de seu equipamento.
O chefe era Ludwig Leichhardt, nascido em 1813 na aldeia prussiana de Trebatsch. Estudou filosofia, línguas e ciências naturais em Berlim e Gotinga sem concluir nenhum curso, e depois passou anos na Inglaterra, na França e na Itália transformando-se em naturalista de campo por meio de museus, coleções particulares e longas caminhadas. Chegou a Sydney em fevereiro de 1842 com cartas de recomendação, quase sem dinheiro e com o plano de fazer nome estudando a flora do interior de um continente cujo centro ainda era um vazio nos próprios mapas. Coletou no vale do Hunter e ao longo da costa de Queensland, viveu da hospitalidade dos criadores de gado e, em 1844, convenceu um grupo de comerciantes e proprietários de Sydney a financiar uma travessia terrestre que o governo colonial se recusara a pagar.
Aquela primeira expedição o tornou famoso. Leichhardt partiu da estação Jimbour, em Darling Downs, em 1 de outubro de 1844, com dez homens, rumo ao pequeno posto militar britânico de Port Essington, na distante costa norte. A viagem durou quase quinze meses. Ele atravessou e batizou uma série de rios importantes, entre eles o Dawson, o Mackenzie, o Isaacs, o Burdekin, o Lynd, o Mitchell e o Roper, e trouxe a primeira descrição coerente do interior oriental e do norte tropical. Não foi um êxito sem sangue. Na noite de 28 de junho de 1845, perto do rio Mitchell, o acampamento foi atacado: o naturalista John Gilbert morreu atingido por uma lança e outros dois homens, John Roper e James Calvert, ficaram gravemente feridos. Os sobreviventes chegaram a Port Essington em 17 de dezembro de 1845, quando em Sydney já os davam por mortos havia muito. Voltaram por mar em março de 1846 para festejos públicos, uma bolsa reunida por subscrição e medalhas das sociedades geográficas de Londres e Paris.
O êxito não se repetiu. Em dezembro de 1846 Leichhardt partiu novamente de Darling Downs, desta vez para tentar o que ninguém conseguira: atravessar o continente de leste a oeste e chegar ao povoado do rio Swan, perto da atual Perth. A chuva contínua transformou o terreno em lamaçal. A febre percorreu o grupo. Os animais passaram fome, a farinha estragou e, após meses de luta, a expedição voltou atrás em meados de 1847, tendo percorrido apenas uma pequena parte do itinerário previsto. Vários integrantes criticaram depois sua liderança, sua navegação e seu manejo dos suprimentos. Ele respondeu preparando quase de imediato uma nova tentativa.
O grupo de 1848 era menor e, segundo ele, mais resistente. Além do próprio Leichhardt, havia quatro europeus: o alemão Adolph Classen, Arthur Hentig, Donald Stuart e Thomas Hands, um condenado em liberdade condicional que se juntara na estação Cecil Plains. Dois guias aborígenes de Port Stephens, Wommai e Billy Bombat, completavam os sete. Os cinquenta bois não eram apenas transporte, mas uma despensa ambulante, destinada a ser abatida um a um ao longo dos anos que a travessia exigiria. O plano era seguir para noroeste a partir de Darling Downs, retomar aproximadamente a linha de sua rota anterior e depois virar para sudoeste através do interior rumo ao rio Swan.
O último contato foi na propriedade Cogoon, de Allan Macpherson, uma dependência da estação Mount Abundance a oeste da atual Roma. Dali Leichhardt enviou cartas de volta. Como se conta desde então, quando lhe perguntaram para onde ia, respondeu simplesmente que seguia rumo ao sol poente. Depois o grupo saiu dos distritos povoados e o registro se interrompe.
Durante vários anos ninguém se alarmou de verdade. Leichhardt já fora dado por morto uma vez e saíra vivo do norte. Por volta de 1852 o silêncio tornara-se insuportável, e o governo de Nova Gales do Sul enviou Hovenden Hely, que participara da tentativa fracassada de 1847, para procurá-lo. Hely encontrou acampamentos abandonados no interior que julgou serem de Leichhardt, mas as provas eram ambíguas e foram contestadas quase desde o momento do relatório. Em 1858 o governo encarregou Augustus Charles Gregory, o mais capaz explorador australiano de sua geração, que já dirigira a Expedição Exploratória do Norte da Austrália em 1855 e 1856. Gregory deixou Sydney em 12 de janeiro de 1858, alcançou o rio Barcoo em abril e ali encontrou uma árvore marcada com a letra L, junto a tocos de outras árvores cortadas a machado. Não conseguiu ir além. Na década de 1860 Duncan McIntyre relatou árvores marcadas e dois cavalos velhos no rio Flinders, o que desencadeou uma onda de comoção pública: reuniu-se dinheiro por subscrição para a Expedição de Busca das Senhoras, que McIntyre liderou e que nada conseguiu antes de ele morrer de febre em 1866. Ofereceram-se recompensas, saíram grupos particulares e as buscas prosseguiram pelos séculos vinte e vinte e um. Todas voltaram sem nada ou com objetos que não podiam ser atribuídos a Leichhardt pelo nome.
Há uma exceção. Por volta de 1900, na região do córrego Sturt, entre os desertos de Tanami e o Grande Deserto Arenoso, perto da fronteira entre a Austrália Ocidental e o Território do Norte, um vaqueiro aborígene chamado Jackie, que trabalhava com o vaqueiro e garimpeiro Charles Harding, encontrou uma arma de fogo parcialmente queimada encravada em um baobá. Presa à coronha havia uma pequena placa de latão com a inscrição: Ludwig Leichhardt 1848. Harding percebeu o valor da placa, descartou a arma arruinada e ficou com a placa. Por volta de 1917, na localidade de Laura, no sul da Austrália, deu-a a um adolescente chamado Reg Bristow-Smith que se tornara seu amigo. A placa permaneceu depois em mãos particulares durante quase todo o século vinte, conhecida dos pesquisadores mas nunca analisada.
Em 2006 o Museu Nacional da Austrália a adquiriu e submeteu a um exame formal de autenticidade dirigido pelo conservador David Hallam. A análise encontrou uma composição de latão compatível com a fabricação do século dezenove, resíduos compatíveis com pólvora e sinais físicos de dano por fogo. Somado à cadeia de custódia documentada de Harding a Bristow-Smith, o museu concluiu que tanto a placa quanto o relato do local do achado eram autênticos. É a única relíquia da expedição de 1848 com procedência corroborada.
O que a placa estabelece é geográfico, não humano. O córrego Sturt fica a cerca de dois terços do caminho pelo continente a partir de Darling Downs. Se a arma foi encontrada onde o registro diz, então Leichhardt e seus homens penetraram na Austrália muito mais fundo do que qualquer buscador do século dezenove pôde demonstrar. A placa nada diz sobre quando chegaram ali, se os sete ainda estavam vivos, em que direção viajavam ou como a história terminou. Não há túmulo, nem corpo, nem diário, nem acampamento datável, nem equipamento além de uma arma queimada que alguém jogou fora.
Conclusões e perguntas em aberto
A reconstrução mais aceita é também a mais sombria. O historiador Darrell Lewis, que passou anos reunindo e pesando as provas remanescentes, sustenta que o grupo avançou além do córrego Sturt e morreu de sede e fome no deserto que se estende adiante. A reconstrução encaixa com a placa, com a estação do ano e com o terreno. Sua fraqueza é o silêncio do solo. Sete homens com setenta animais grandes deixam ferro, osso, vidro e couro, e o interior árido conserva essas coisas por muito tempo. Nada disso jamais foi encontrado e identificado.
Uma segunda explicação, defendida desde a década de 1850, é que o grupo morreu em confronto com grupos aborígenes cujo território atravessava. O risco era real e documentado: foi assim que Gilbert morreu em 1845. A fraqueza aqui é probatória, não lógica. Nunca se apresentou testemunho oral verificado nem prova física referente ao grupo de 1848, e no período colonial a teoria foi muitas vezes afirmada sem prova alguma, o que tornou cautelosos os pesquisadores posteriores.
Alguns sustentam que o desastre ocorreu muito antes, na rede alagada de canais dos rios do interior, onde um grupo poderia afogar-se ou dispersar-se numa única noite. Isso explicaria a ausência total de restos mais a oeste. Sua fraqueza é a placa: se o achado do córrego Sturt é autêntico, a expedição viajou cerca de dois mil quilômetros além dos rios onde essa teoria situa seu fim.
Uma teoria sustenta que o grupo se rompeu por dentro. Sua forma mais persistente vem de Andrew Hume, um condenado que afirmou na década de 1870 ter encontrado um sobrevivente branco de sobrenome Classen vivendo com aborígenes no interior. Hume conseguiu apoio com esse relato e morreu no deserto em 1874 tentando chegar de novo até aquele homem. A fraqueza é o próprio Hume: tinha um histórico documentado de fraudes, e nenhuma parte de seu relato foi corroborada por ninguém.
Por fim, alguns pesquisadores argumentaram que a placa não é o que parece, seja uma falsificação posterior, seja um objeto autêntico levado para longe do lugar onde se perdeu. Os testes de 2006 pesam bastante contra uma falsificação pura, já que o metal, os resíduos de pólvora e o dano por fogo correspondem a uma arma de 1848. O que nenhum laboratório pode testar é o local. O baobá depende de uma cadeia de memória de um século e, apesar de tentativas repetidas, a árvore nunca foi reencontrada.
As perguntas em aberto são portanto concretas, e não místicas. Onde exatamente ficava aquela árvore, e resta algo a seus pés? Por que não se achou nenhum acampamento datável ao longo de uma rota de milhares de quilômetros? Por que as buscas muito mais bem equipadas do século vinte encontraram menos do que um vaqueiro achou por acaso em 1900? E poderia um levantamento sistemático aéreo e por satélite da região do córrego Sturt, combinado com um trabalho cuidadoso junto aos proprietários tradicionais daquela terra, ainda localizar o lugar onde a expedição parou?
Sete homens saíram de Cogoon em abril de 1848. Famílias os esperaram por décadas. Nenhum dos sete tem um túmulo, e isso, mais do que qualquer teoria, é o que manteve viva a busca.