Dois pontos na crista: as ultimas horas de Mallory e Irvine
Na manhã de 8 de junho de 1924, Noel Odell subia sozinho pela vertente norte do Evereste a cerca de oito mil metros, sem oxigénio, dando apoio aos dois homens que estavam algures acima dele. A montanha estava envolta em nuvens. Às dez para a uma, a nuvem abriu-se.
Nessa noite escreveu no diário que vira M. e I. na crista, perto da base da pirâmide final. No relato mais detalhado que deu depois, descreveu um minúsculo ponto negro a mover-se sobre uma pequena crista de neve por baixo de um degrau de rocha, e em seguida um segundo ponto a subir para se juntar ao primeiro. O nevoeiro fechou-se de novo em poucos minutos. Ninguém voltou a ver George Mallory ou Andrew Comyn Irvine com vida.
Mallory tinha trinta e sete anos, era professor no Cheshire e aquela era a sua terceira expedição ao Evereste. Era o alpinista dos Himalaias mais experiente que a Grã-Bretanha tinha, e era também o homem que respondeu à pergunta de um repórter de Nova Iorque sobre por que motivo alguém iria ali com três palavras que sobreviveram a tudo o resto que disse. Irvine tinha vinte e dois anos, era estudante em Oxford e remador da universidade, quase sem alpinismo sério no currículo. Foi escolhido pelas mãos. Os aparelhos de oxigénio da expedição de 1922 tinham fugas, encravavam e pesavam mais do que valia a vantagem que davam. Irvine desmontou-os no campo base, retirou peso às armações e conseguiu que funcionassem.
A expedição de 1924 foi a terceira tentativa britânica em quatro anos, chefiada por Edward Norton depois de Charles Bruce ter adoecido na marcha de aproximação. Norton e Howard Somervell já tinham feito uma tentativa ao cume sem oxigénio, e Norton chegara sozinho a cerca de 8570 metros antes de voltar para trás, uma altitude que ninguém ultrapassaria durante quase trinta anos. Mallory concluiu que a última oportunidade da época estava nos aparelhos de oxigénio, e escolheu Irvine para os levar consigo.
Saíram do campo IV, no Colo Norte, às nove menos vinte da manhã de 6 de junho, com oito carregadores. Nessa tarde, quatro deles desceram do campo V, a 7681 metros, com um bilhete de Mallory: ali em cima não havia vento e as coisas pareciam promissoras. A 7 de junho subiram ao campo VI, a cerca de 8170 metros, e os últimos carregadores trouxeram mais dois bilhetes. Um dizia que provavelmente partiriam cedo na manhã seguinte, dia 8. O outro era para Odell, pedindo-lhe que estivesse atento a vê-los recortados contra o céu, e indicava uma hora que Mallory escreveu como oito da noite e que praticamente toda a gente lê como um lapso por oito da manhã. Nesse mesmo bilhete pede desculpa pelo estado em que deixavam o acampamento e menciona que o fogareiro deles tinha rolado encosta abaixo. É a última coisa que qualquer um dos dois escreveu.
Às duas da tarde de 8 de junho, uma hora depois do avistamento de Odell, uma rajada de neve varreu a face norte. Odell continuou a subir até ao campo VI, encontrou a tenda cheia de roupa e material espalhados e saiu por cima dela para o mau tempo, a assobiar e a gritar à maneira tirolesa, caso os dois estivessem perto o suficiente para o ouvirem. A rajada passou. Desceu ao campo V para dormir. A 9 de junho voltou a subir sozinho ao campo VI, pela segunda vez em dois dias acima dos oito mil metros e ainda sem oxigénio, o que por si só foi um dos melhores desempenhos da expedição. A tenda estava exatamente como a deixara. Arrastou sacos-cama para fora e estendeu-os sobre a neve no sinal combinado para os acampamentos lá em baixo: sem rasto, esperança abandonada.
Tudo o que veio depois assenta nos dez minutos em que a nuvem esteve aberta.
O primeiro relato de Odell, publicado no The Times, situava os pontos junto a um degrau rochoso proeminente a muito curta distância da base da pirâmide final, o que descreve aquilo a que os alpinistas chamam o Terceiro Degrau. Quando Norton editou o livro oficial da expedição, aquilo foi alterado para o Segundo Degrau. A maioria dos alpinistas que desde então estudou os horários e o terreno acredita que Odell os terá visto muito mais abaixo, no Primeiro Degrau, o que os deixaria horas atrás de qualquer horário que termine no cume. O próprio Odell mudou de opinião repetidamente ao longo de sessenta anos, e pouco antes de morrer, em 1987, admitiu que nunca tivera claro em que ponto exato da crista estavam as figuras. A única testemunha ocular das últimas horas da subida passou o resto da vida em dúvida quanto ao seu próprio testemunho.
Em 1933 a expedição britânica seguinte encontrou alguma coisa. Percy Wyn-Harris deu com uma picareta de gelo pousada sobre as lajes cerca de duzentos e trinta metros a leste do Primeiro Degrau e uns vinte metros abaixo da linha da crista. Marcas talhadas no cabo identificaram-na como sendo de Irvine. O chefe da expedição, Hugh Ruttledge, tirou a conclusão evidente: uma picareta não se deixa ali de propósito, e não cai da mão de um alpinista que está de pé e no controlo.
Depois, durante quarenta anos, nada. Em 1979 um alpinista chinês chamado Wang Hongbao contou a um alpinista japonês no campo base que, na expedição chinesa de 1975, tinha encontrado um inglês morto a cerca de 8100 metros, com roupa antiga. Morreu numa avalanche no dia seguinte, e a história foi oficialmente desencorajada durante anos, mas não desapareceu e acabou por gerar as expedições de busca de 1986 e 1999.
A 1 de maio de 1999, Conrad Anker, que subia com a Mallory and Irvine Research Expedition, saiu para um terraço de lajes partidas a 8156 metros e encontrou um corpo. Estava de bruços, congelado no cascalho, os braços esticados acima da cabeça e os dedos enterrados, como se tivesse tentado travar um deslize. A roupa era lã velha e gabardina, e as etiquetas com o nome diziam G. Leigh Mallory.
As lesões liam-se. Havia uma marca de corda severa em torno da cintura, o que significava que os dois homens iam encordados e que a corda esticara com força. A perna direita estava partida acima do tornozelo, e a perna sã tinha sido puxada por cima dela, que é o que um homem consciente faz com um membro partido. Havia uma ferida perfurante na testa. O corpo não caíra de longe e, de resto, quase não apresentava danos.
Nos bolsos havia cartas, um canivete, um altímetro e uns óculos de neve. Os óculos estavam no bolso e não na cara, o que alguns leem como sinal de que se movia no escuro. A fotografia da mulher, Ruth, que ele lhe dissera que deixaria no cume, não estava com ele. Também não estava a pequena Kodak de bolso que ele e Irvine tinham pedido emprestada a um companheiro de expedição.
Vinte e cinco anos depois, em setembro de 2024, uma equipa de filmagens da National Geographic que trabalhava no glaciar Rongbuk Central, por baixo da face norte, deparou-se com garrafas de oxigénio marcadas com a data de 1933. Mais acima no gelo, Jimmy Chin, Erich Roepke e Mark Fisher encontraram uma bota a emergir do glaciar com um pé ainda lá dentro. Dentro da bota havia uma meia, e cosida à meia estava uma etiqueta com um nome: A.C. IRVINE. Chin disse depois que a bota teria saído do gelo cerca de uma semana antes de eles passarem por ali. Os restos foram levados numa geleira portátil e entregues à associação de montanhismo da China e do Tibete, uma amostra de ADN seguiu para o consulado britânico para confirmação, e a família de Irvine, incluindo a sobrinha-neta Julie Summers, ofereceu as suas próprias amostras para comparação. A câmara não estava lá.
Conclusões e perguntas em aberto
A pergunta não é o que lhes aconteceu. Caíram, encordados, em terreno alto da crista nordeste, e ambos morreram. A pergunta é o que tinham feito antes de cair.
A tese de que chegaram ao cume assenta em três coisas. Odell viu-os ainda a subir às 12:50 e achou que estavam altos. Os óculos de neve de Mallory estavam no bolso e não na cara, o que encaixa num homem a descer depois de escurecer. E a fotografia de Ruth, que prometera deixar no topo, não estava no corpo. A fraqueza de cada ponto é séria. Odell retirou a sua própria certeza sobre onde estavam os pontos, e se estavam no Primeiro Degrau o cume estava fora de alcance com aquele horário. Os óculos saem dos olhos dentro da nuvem tão facilmente como no escuro. E uma fotografia que falta num casaco que passou setenta e cinco anos numa encosta varrida pelo vento não prova rigorosamente nada. E acima de tudo há o Segundo Degrau, uma parede quase vertical onde hoje está montada uma escada chinesa. Conrad Anker, que encontrou Mallory, escalou-a ele próprio com e sem a escada, e disse desde então que não acredita que dois homens exaustos, de botas pregadas e amarrados a uma corda de cânhamo, a tenham vencido em 1924. Teve o cuidado de nunca lhe chamar impossível.
A tese de que voltaram para trás, ou de que caíram na subida, é a leitura mais económica. Encaixa com a picareta abandonada perto do Primeiro Degrau, encaixa com a marca da corda e encaixa com um corpo caído pouco abaixo da crista. A sua fraqueza é que explica tudo e não prevê nada, e não dá conta de por que razão a picareta apareceu a quatrocentos metros do sítio onde Mallory ficou.
Uma terceira linha de argumentação é aritmética e não narrativa. Mesmo na leitura mais generosa do avistamento de Odell, iam horas atrás do horário que o próprio Mallory tinha esboçado, e os investigadores que reconstruíram os aparelhos de 1924 defendem que as duas garrafas que cada um levava lhes deixavam uma margem apertada para o cume e o regresso. A fraqueza aí é que ninguém sabe que caudal usavam de facto, que Irvine tinha refeito os aparelhos à sua maneira e que os alpinistas daquela época entravam e saíam do oxigénio à vontade.
O que resolveria a questão é a câmara. A Kodak e, mais tarde, vários conservadores disseram que uma película mantida congelada durante um século ainda poderia dar uma imagem, embora ninguém o garanta. É essa a importância do achado de 2024: não que um pé dentro de uma bota prove seja o que for sobre o cume, mas que fixa onde a montanha tem vindo a depositar aquilo que levou. Tudo o que se separou do corpo de Irvine viajou pelo mesmo funil de gelo até à bacia do Rongbuk Central, e a busca tem agora uma bacia em vez de uma parede.
Sobra uma ressalva que sobrevive a tudo o resto. Mesmo uma fotografia tirada do topo responderia apenas a metade da pergunta, porque o alpinismo só dá uma subida por concluída quando o alpinista regressa, e nenhum dos dois regressou. A subida de 1953 por Edmund Hillary e Tenzing Norgay não está em causa de uma maneira nem de outra. Em causa estão dez minutos de visibilidade a 8 de junho de 1924, e o homem que deu esse testemunho passou os sessenta e três anos seguintes sem saber ao certo o que tinha visto. Em cento e dois anos a montanha devolveu uma picareta, um corpo e um pé. Não devolveu a câmara.