Acho que consigo chegar: o desaparecimento de Michael Rockefeller
Pouco depois das sete da manhã de 19 de novembro de 1961, um americano de vinte e três anos despiu-se sobre o casco emborcado de um pequeno catamarã no mar de Arafura, ao largo da costa sudoeste do que era então a Nova Guiné Neerlandesa. Passara uma noite e quase um dia inteiro agarrado aos destroços, ao lado de um antropólogo holandês chamado Rene Wassing. A corrente afastava-os da terra em vez de os aproximar. Michael Clark Rockefeller amarrou dois bidões vazios para formar uma boia improvisada, disse que esperar já não era opção e pronunciou a frase que persegue o caso desde então: "Acho que consigo chegar".
Wassing seguiu-o com o olhar durante cerca de meia hora. Mais tarde descreveu três pontos sobre a água, os dois bidões e uma cabeça, cada vez menores. Depois, nada. Nunca se recuperou o menor vestígio de Michael Rockefeller.
Nasceu a 18 de maio de 1938, quinto filho e filho varão mais novo de Nelson A. Rockefeller, então governador de Nova Iorque e mais tarde vice-presidente dos Estados Unidos, e de Mary Todhunter Clark. Tinha uma irmã gémea, Mary. Estudou na Buckley School, em Manhattan, e na academia Phillips Exeter, formou-se cum laude em Harvard em história e economia e serviu seis meses como soldado raso no exército americano.
O que o separava do resto da sua geração na família era uma obsessão que nada tinha a ver com banca ou política. Em 1961 juntou-se a uma expedição do Museu Peabody de Arqueologia e Etnologia de Harvard ao vale do Baliem, nas terras altas da Nova Guiné Neerlandesa, trabalhou como técnico de som no filme etnográfico de Robert Gardner, Dead Birds, e tirou centenas de fotografias próprias. Quando a expedição terminou, no verão, já sabia para onde queria ir a seguir.
A região asmat estende-se pela costa sudoeste: um imenso pântano de marés feito de lodo, mangais e rios castanhos e lentos, sem estradas, onde só se chega às aldeias por água. O seu povo era, e continua a ser, dos melhores entalhadores de madeira do mundo: altos postes bisj com figuras de antepassados, escudos de guerra, proas de canoa, tambores e remos, produzidos dentro de um sistema ritual e cosmológico denso que Rockefeller apenas começava a compreender. Era administrador do Museum of Primitive Art, fundado pelo pai em Nova Iorque, e regressou à Nova Guiné no outono de 1961 com a intenção de passar vários meses a reunir talha asmat para o museu. Obtinha-a por troca, com machados de aço, anzóis e linha, tabaco e tecidos, mantendo cadernos e inventários. Nas suas cartas falava em querer resolver o enorme quebra-cabeças da arte asmat antes que ela mudasse por completo.
Precisava de um barco capaz de chegar às aldeias. No pequeno posto administrativo de Agats comprou um catamarã caseiro a um oficial de patrulha holandês: duas longas canoas escavadas presas a uma plataforma de madeira e movidas por um motor fora de borda. Era uma embarcação de rio, não de mar.
A 18 de novembro de 1961 partiu nela de Agats ao longo da costa. Acompanhavam-no Rene Wassing, antropólogo do governo holandês destacado pelo departamento colonial de assuntos indígenas, e dois jovens asmat que os registos guardam como Simon e Leo. O trajeto atravessava as foz de rios largos, onde a corrente de vazante encontra a ondulação do mar de Arafura e a água se torna curta e íngreme. A milhas de terra o catamarã encheu-se de água, o motor afogou-se e a plataforma virou.
Simon e Leo decidiram nadar para terra. Ambos chegaram, após muitas horas na água, e deram o alarme. Numa região sem estradas e quase sem rádios, a notícia avançou devagar.
Rockefeller e Wassing ficaram junto ao casco. A maré, em vez de empurrar os destroços para dentro, levou-os para o largo. As estimativas da distância até à linha de mangal na manhã seguinte variam muito, de cerca de três milhas nos primeiros relatos a dez ou doze noutros. Wassing, que não era bom nadador, defendia esperar. Rockefeller fez a boia com dois bidões vazios, pegou numa faca e entrou na água.
Wassing foi recolhido no dia seguinte, a cerca de vinte milhas da costa, por um navio de busca orientado a partir do ar.
Nessa altura já decorria uma operação enorme. O governador Pieter Platteel mobilizou lanchas de patrulha, fuzileiros, polícia e aviação. Helicópteros australianos foram transportados e descarregados no aeródromo de Merauke. Os Estados Unidos, contactados ao mais alto nível, disponibilizaram aviões e um navio. Tripulações papuas em canoas percorreram durante dias os esteiros, os lodaçais e os mangais, e os relatos holandeses da época falam em milhares de habitantes locais somados à busca costeira.
Nelson Rockefeller fretou um Boeing 707, segundo a imprensa por cerca de trinta e oito mil dólares, e voou com Mary, a irmã gémea de Michael, arrastando uma multidão de jornalistas que encheu a pista de Merauke. Durante cerca de duas semanas a busca prosseguiu sobre pântano, mar e litoral. Não se recuperou um único objeto: nem corpo, nem roupa, nem óculos, nem bidões.
Nelson Rockefeller deu a busca por terminada e regressou a casa. A conclusão oficial, registada pelas autoridades holandesas e aceite pela família, foi morte por afogamento. Michael Rockefeller foi declarado legalmente morto em 1964.
A coleção que reunira chegou de facto a Nova Iorque. Boa parte dela está hoje no Museu Metropolitano de Arte, numa ala com o seu nome. Um vitral desenhado por Marc Chagall foi instalado em sua memória na Union Church de Pocantico Hills. A irmã gémea, Mary Rockefeller Morgan, tornou-se terapeuta e escreveu sobre o luto particular de um gémeo sobrevivente. Rene Wassing passou o resto da vida a responder à mesma pergunta feita por estranhos. E na Holanda, nos Estados Unidos e no próprio Asmat, o processo nunca foi verdadeiramente encerrado.
Conclusões e perguntas em aberto
O veredicto oficial é a leitura mais simples das provas e tem defensores sérios. Mary Rockefeller Morgan sustentou que o irmão, por melhor nadador que fosse, enfrentava marés sazonais, correntes fortes para o largo e água fluvial turbulenta em vazante, e que a distância era simplesmente excessiva. A fragilidade da tese do afogamento é que explica um desaparecimento mas não uma ausência: numa busca daquela dimensão, numa costa onde tudo o que flutua acaba nos mangais, não se encontrou absolutamente nada, nem sequer os dois bidões.
Um segundo conjunto de relatos, muito mais antigo, aponta para a aldeia de Otsjanep. Poucas semanas depois do desaparecimento, dois missionários holandeses que falavam as línguas locais, Cornelius van Kessel e Hubertus von Peij, relataram ter ouvido de aldeões que Rockefeller chegara a terra e ali fora morto. Von Peij escreveu em dezembro de 1961 que quatro homens lhe descreveram como restos mortais tinham sido repartidos por um grupo da aldeia. Um oficial de patrulha holandês, Wim van de Waal, fez as suas próprias averiguações em 1962 e disse depois que lhe fora entregue um crânio. A agência Associated Press publicou uma versão da história em março de 1962. Em 1969 o jornalista americano Milt Machlin viajou à região, afastou a ideia romântica de que Rockefeller estaria vivo em cativeiro e concluiu que os indícios de uma morte violenta eram fortes.
A investigação moderna mais completa é o livro de Carl Hoffman, Savage Harvest, publicado em 2014. Hoffman trabalhou em arquivos governamentais e eclesiásticos holandeses e viveu temporadas em aldeias asmat, e afirma ter ouvido relatos coerentes com os recolhidos nos anos sessenta. O motivo que lhe descreveram, e que antes descreveram aos missionários, não era apetite mas dívida. Em janeiro de 1958 uma patrulha colonial holandesa comandada por um administrador chamado Max Lapre abriu fogo em Otsjanep e matou vários homens cujos nomes reaparecem nos relatos posteriores. Na compreensão asmat da época, uma morte dessas criava uma dívida que tinha de ser equilibrada. Uma teoria sustenta que um estranho chegado sozinho do mar, vindo do mesmo mundo colonial, podia ser lido como o acerto dessa conta. Hoffman argumentou ainda que os funcionários holandeses, num território que estavam prestes a perder para a Indonésia e lidando com uma das famílias mais notórias dos Estados Unidos, tinham todas as razões para deixar a conclusão em afogamento.
Nada disto está provado. Os relatos são orais, recolhidos com décadas de intervalo, através de intérpretes, por vezes perante estrangeiros com dinheiro e câmaras, e em toda a parte as pessoas tendem a dar ao visitante a história que ele veio procurar. Nenhuma prova física foi apresentada e analisada. Os asmat são um povo vivo, com os seus próprios historiadores e a sua própria versão de 1961, que não coincide necessariamente com a que circula nos livros ocidentais; a violência colonial documentada em Otsjanep em 1958 é a parte desta história que menos se conta. Qualquer descrição do que aconteceu depois da tentativa a nado deve ser lida como testemunho e não como sentença, e quem vive naquela costa tem direito a ser tratado como testemunha e não como cenário.
As perguntas em aberto são teimosas. Porque é que uma operação com aviões, navios e milhares de pessoas não recuperou absolutamente nada, seja qual for a tese? A que conclusão chegou internamente a administração holandesa, e onde estão hoje esses processos? Foi o veredicto de afogamento um juízo ou uma conveniência? Seria ainda possível identificar restos mortais, e seria essa investigação ética ou desejada pelas comunidades envolvidas? E por detrás de tudo permanece a pergunta a que o caso regressa sempre: em que é que se estava a meter, exatamente, um colecionador de vinte e três anos que chegou com machados e anzóis a um lugar onde o seu próprio governo tinha disparado três anos antes.