UM CASO REAL
Contestado

'Oumuamua: o primeiro visitante de outra estrela continua desafiando qualquer explicação

2026-07-27 · · Objetos não identificados (OVNI) · 7 min de leitura

Na noite de 19 de outubro de 2017, um telescópio robótico no cume do Haleakala, o vulcão adormecido que domina a ilha havaiana de Maui, registou mais uma mancha ténue entre as milhares que anota numa noite limpa. Quando o astrónomo Robert Weryk se sentou a examinar as imagens do Pan-STARRS1, o ponto recusou fazer sentido. Movia-se depressa de mais, e por uma trajetória que não podia ser fechada em nenhuma órbita em torno do Sol.

Weryk verificou, voltou a verificar e depois telefonou a colegas. Em poucos dias a medição ficou confirmada: o objeto não vinha do nosso sistema solar. Tinha caído do espaço interestelar, contornara o Sol por volta de 9 de setembro a cerca de 87 quilómetros por segundo e já subia de saída, numa trajetória que nunca o traria de volta. Os astrónomos esperavam visitantes destes havia décadas, porque todo o sistema planetário jovem deveria atirar destroços para a galáxia, mas até àquela semana nenhum tinha sido apanhado.

Quase escapou. Quando Weryk o encontrou, o objeto já se afastava da Terra e esmorecia depressa, o que deixou aos observatórios umas poucas semanas para reunir tudo o que conseguissem. Foi catalogado como 1I/2017 U1, o número e a letra marcando-o como o primeiro objeto interestelar dos registos, e a equipa que o descobriu deu-lhe um nome havaiano que traduziu como batedor ou mensageiro que estende a mão a partir do passado remoto: 'Oumuamua.

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Mesmo para os maiores telescópios nunca passou de um ponto de luz, pequeno e distante de mais para se resolver num disco, pelo que a sua forma teve de ser lida no modo como o brilho mudava. E mudava de forma dramática: oscilava por um fator de cerca de dez vezes, umas duas magnitudes e meia, enquanto girava uma vez a cada sete ou oito horas. Um corpo cujo fulgor sobe e desce assim ao rodar tem de ser extremamente alongado, com um eixo pelo menos seis vezes maior do que os outros e, segundo algumas estimativas, mais perto de dez para um. As estimativas do seu comprimento iam de cerca de cem a quatrocentos metros. Nada entre os milhões de asteroides e cometas catalogados do nosso sistema solar tem esse perfil. As primeiras reconstruções desenharam um charuto escuro; análises posteriores da mesma curva de luz favoreceram uma lasca achatada, mais próxima de um disco. Também não rodava limpamente em torno de um eixo fixo, mas cambaleava, virando de ponta a ponta, o que costuma indicar uma colisão ou uma origem violenta num passado distante.

A sua cor era um vermelho profundo, o tom que os gelos e os compostos orgânicos adquirem após longa exposição a raios cósmicos, e é isso que se espera de um corpo vindo do espaço profundo. Mas não mostrou qualquer outro comportamento cometário. Não havia coma, nem cauda, nem envelope luminoso de gás e poeira. Quando a NASA virou o olho infravermelho do telescópio espacial Spitzer para a sua posição prevista, o Spitzer não registou nada, uma não deteção sensível o bastante para limitar toda a produção de poeira a um fio. Para cada instrumento que o examinou, 'Oumuamua parecia uma rocha nua e inerte.

Depois chegou a medição que reabriu o caso. Em junho de 2018, uma equipa dirigida por Marco Micheli publicou na Nature uma reconstrução cuidadosa da trajetória do objeto, baseada em dados de terra e em observações do Hubble que o seguiram até janeiro de 2018. Não se afastara apenas por gravidade. Ao recuar, ganhava um pequeno empurrão extra para fora, uma aceleração de cerca de 4,9 milionésimos de metro por segundo ao quadrado, que enfraquecia com a distância ao Sol mais ou menos como enfraquece a própria luz solar. Pelas contas da equipa, a deteção rondava os trinta sigmas, tão firme em termos estatísticos quanto as medições neste campo chegam a ser.

Num cometa, tal empurrão é rotina. A luz solar transforma o gelo em vapor, o vapor escapa em jatos e o recuo empurra o núcleo como um foguete muito lento. Mas os cometas denunciam-se enquanto o fazem. O gás que escapa arrasta uma nuvem visível de poeira e deixa uma assinatura química que os espectrógrafos sabem ler. 'Oumuamua não produziu nada disso: nem jatos visíveis, nem poeira, nem coma, nem gases de carbono onde o Spitzer os teria detetado. Sob a primeira dificuldade assenta uma segunda. Para produzir aquela aceleração por libertação de gás, o objeto teria de largar uma fração substancial da sua própria massa em vapor, e no entanto o seu cambalear manteve-se constante, quando jatos fortes o bastante para o mover deveriam ter alterado a rotação de forma mensurável.

Na primavera de 2018 o objeto estava fora do alcance de todos os telescópios na Terra e em órbita. Viaja agora para fora, para lá das órbitas dos planetas exteriores, e nunca mais será observado. Tudo o que alguém alguma vez saberá sobre 'Oumuamua foi reunido em cerca de onze semanas, por instrumentos que não tinham sido concebidos para a tarefa.

Desde então foram encontrados mais dois visitantes interestelares. O cometa 2I/Borisov, descoberto pelo astrónomo amador Gennadiy Borisov em 2019, parecia inteiramente vulgar: uma coma a sério, uma cauda a sério, química de manual. Um terceiro objeto, o cometa 3I/ATLAS, foi captado em 2025. O Observatório Vera C. Rubin, no Chile, construído para varrer todo o céu austral noite após noite, deverá transformar tais descobertas de acontecimentos de uma vez por década em entradas de rotina num catálogo.

Conclusões e perguntas em aberto

A posição dominante é que 'Oumuamua foi um corpo natural, e vários modelos naturais concretos competem para explicar a aceleração sem cauda. Cada um é credível, e cada um invoca algo que nunca foi observado diretamente.

Uma teoria, proposta por Darryl Seligman e Gregory Laughlin, sustenta que 'Oumuamua era um icebergue de hidrogénio molecular congelado, libertando um gás tão frio e transparente que nenhum telescópio o poderia ver. Isso explicaria o empurrão sem cauda visível. A sua fraqueza é que o hidrogénio sólido é difícil de formar e ainda mais difícil de manter congelado ao longo de uma viagem entre estrelas, e os críticos defendem que um corpo assim se evaporaria muito antes de chegar.

Alan Jackson e Steven Desch defenderam em 2021 que era uma lasca de gelo de azoto arrancada da superfície gelada de um mundo semelhante a Plutão noutro sistema, feita da mesma substância que cobre as planícies de Plutão. A sua fraqueza, levantada por outros investigadores, é de fornecimento: a galáxia pode não conter mundos plutonianos suficientes, nem impactos violentos suficientes sobre eles, para produzir um fragmento deste tamanho e enviá-lo na nossa direção.

A proposta mais económica surgiu em 2023, quando Jennifer Bergner e Darryl Seligman publicaram na Nature a ideia de que 'Oumuamua era um corpo vulgar de gelo de água, um chamado cometa escuro, no qual os raios cósmicos tinham convertido a água superficial em hidrogénio aprisionado que escoava em silêncio à medida que o Sol o aquecia, de novo sem produzir poeira. A sua fraqueza é que o mecanismo, embora plausível em laboratório, não foi observado diretamente a atuar em nenhum objeto, e as condições exigidas são muito específicas.

Uma posição claramente minoritária, defendida pelo astrofísico de Harvard Avi Loeb com o seu investigador de pós-doutoramento Shmuel Bialy em The Astrophysical Journal Letters, sustenta que a pressão apenas da luz solar poderia explicar a aceleração se o objeto fosse extraordinariamente fino: uma folha talvez com uma fração de milímetro de espessura, com muita área e muito pouca massa. Nada na natureza é feito assim, mas engenheiros humanos propuseram exatamente essa geometria para uma vela solar. Loeb tem sido explícito quanto a não ter prova alguma, e argumenta apenas que uma origem artificial, como uma sonda desativada ou um fragmento descartado de tecnologia à deriva sobre a luz das estrelas, não deveria ser excluída por princípio. A maioria dos astrónomos rejeita a ideia, e as objeções são sérias: uma vela fina como uma hóstia que cambaleia a cada oito horas deveria fletir e mudar de brilho de maneiras que a curva de luz não mostra com clareza, e a probabilidade prévia de um artefacto morto passar tão perto é muitíssimo pequena. Como o objeto desapareceu, nenhuma prova direta pode agora resolver a questão num sentido ou no outro.

O que permanece por explicar é estreito mas real. Nenhum modelo aceite explica ainda, só com processos observados, uma aceleração daquela dimensão sem poeira, sem gás detetado e sem alteração do cambalear. Também a razão de eixos extrema não tem equivalente no nosso sistema solar.

Daí decorrem as perguntas em aberto. Foi 'Oumuamua um objeto invulgar, ou um pedaço vulgar de destroços interestelares que só parece estranho por ser o único que vimos de perto? Continuariam uma lasca de azoto ou um icebergue de hidrogénio a parecer exóticos se tivéssemos cem exemplos para comparar? Encontrará o Observatório Rubin mais objetos que acelerem sem cauda, ou foi este um caso verdadeiramente atípico? A resposta honesta, por agora, é que não sabemos o que atravessou o sistema solar no outono de 2017, e que um único exemplo observado por pouco tempo pode nunca chegar para decidir. Veio de outra estrela, e levou a sua resposta consigo.

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