A moça do casaco vermelho: Paula Welden e a montanha que não devolveu nada
Num domingo à tarde, em dezembro de 1946, uma universitária de 18 anos terminou o seu turno no refeitório, vestiu roupa de caminhada e disse à colega de quarto que ia fazer uma trilha.
Não levou bolsa. Nem roupa extra. Quase nenhum dinheiro.
Eram mais ou menos duas e meia. Em menos de 2 horas o sol ia se pôr.
O nome dela era Paula Welden. Ninguém voltou a vê-la.
Esta é a história de uma jovem que entrou numa floresta de montanha no estado de Vermont, no nordeste dos Estados Unidos, e desapareceu. Centenas de pessoas procuraram por ela. Não encontraram corpo, nem uma peça de roupa, nada. Até hoje ninguém sabe se ela se perdeu, se foi embora por vontade própria ou se foi morta.
Quem ela era
Paula nasceu em 1928 no estado vizinho de Connecticut, a poucas horas de carro para o sul. O pai era engenheiro e desenhava utensílios domésticos para uma empresa de metais.
Em 1946 ela estava no segundo ano do Bennington College, uma pequena faculdade na cidadezinha de Bennington, no canto sudoeste de Vermont.
Morava no alojamento do campus e trabalhava em turnos no refeitório.
No domingo, 1 de dezembro, trabalhou no turno do café da manhã e no do almoço. Depois voltou para o quarto.
A última tarde
Por volta das duas e meia, saiu do campus.
Vestia um casaco vermelho. Os investigadores disseram depois que a roupa servia para um passeio à tarde, mas não para o frio de uma noite na montanha.
Ficou na beira da estrada pedindo carona. Por volta das quinze para as três, um motorista da região parou. Ela disse que ia caminhar pelo Long Trail.
O Long Trail é uma trilha de mais de 400 km que atravessa Vermont inteiro, por florestas fechadas e por cima das montanhas. Ela cruza a estrada principal a leste da cidade.
O motorista a levou uns 4 km em direção a esse cruzamento. De lá, ela pegou outra carona ou seguiu a pé.
Perto das 4 horas, um homem da região e alguns amigos, que desciam de uma cabana na mata, a encontraram na trilha. Ela fez perguntas sobre para onde a trilha ia.
Eles a avisaram para não ir longe. Disseram que ela não estava agasalhada e que logo ia escurecer.
Ela continuou andando para o norte, por uma estrada de terra que naquele trecho fazia parte da trilha.
Ao longo dessa estrada morava um lenhador. Naquela tarde ele estava do lado de fora, discutindo com a namorada. Ele viu a moça de casaco vermelho passar.
Os últimos relatos a colocaram um pouco mais adiante, depois de um velho abrigo de caminhantes ao lado da trilha.
Depois disso, nada.
Ninguém percebeu naquela noite
Paula não voltou para o quarto naquela noite.
A colega não se preocupou. Era época de provas, e ela achou que Paula estava estudando até tarde na biblioteca.
De manhã a cama continuava vazia. A colega avisou do desaparecimento. A faculdade vasculhou o campus e depois chamou o promotor do condado e o xerife.
Àquela altura já tinham passado mais de 15 horas desde que os homens da trilha falaram com ela.
Alguns dias depois, um deles viu a foto dela no jornal local e a reconheceu. Só então ficou certo que ela tinha mesmo subido a montanha.
As buscas
A faculdade fechou por vários dias, e os estudantes se juntaram às buscas.
Vieram centenas de voluntários. Vieram soldados da Guarda Nacional e bombeiros. Aviões sobrevoaram as serras. Equipes percorreram os ramais da trilha e a estrada principal a leste da cidade.
A área de busca foi ampliada 16 km para o norte, até uma montanha chamada Glastenbury.
Foi reunida uma recompensa de 5.000 dólares por qualquer informação.
Semanas se passaram. Nada foi encontrado. Nem uma luva, nem um sapato, nem o casaco vermelho.
Um estado sem polícia
Aqui a história esbarra num problema que marcou tudo o que veio depois.
Em 1946 Vermont não tinha polícia estadual. Cada condado tinha um xerife, geralmente com pouco treinamento e poucos homens. Uma busca por montanhas, estradas de mata e várias cidades estava muito além deles.
A investigação foi conduzida pelo promotor do condado, pelo xerife e por um único investigador do estado.
O pai de Paula achava que assim não havia chance, e disse isso. Ele recorreu ao governador de Vermont. O governador ligou para o governador de Connecticut, e Connecticut mandou 2 detetives experientes da sua polícia estadual, um homem e uma mulher. Investigadores dos estados de Nova York e Massachusetts também participaram.
Eles interrogaram todas as pessoas que tinham visto Paula, ou que achavam que tinham.
Pistas que não levaram a lugar nenhum
Sem nenhum vestígio na montanha, os investigadores começaram a se perguntar se ela tinha mesmo se perdido ali.
Uma garçonete de uma cidade de Massachusetts disse ter servido uma refeição a Paula no dia seguinte ao desaparecimento. Foi verificado. Era falso.
Um condutor de trem disse tê-la visto bem ao sul, no estado da Carolina do Sul. Também foi verificado. Também era falso.
Os investigadores anotaram todas as possibilidades. Que ela fugiu para começar uma vida nova. Que casou em segredo. Que caiu, bateu a cabeça e perdeu a memória. Que tirou a própria vida. Que foi sequestrada. Que foi assassinada.
Nenhuma pôde ser provada. Nenhuma pôde ser descartada.
O lenhador
Um homem chamou mais atenção do que qualquer outro: o lenhador que a viu passar em frente à casa dele.
O relato dele sobre aquela tarde mudou. Numa versão, depois da briga com a namorada, ele foi sozinho, com raiva, para o seu barraco. Em outra, subiu a estrada de carro, na mesma direção em que Paula tinha ido.
Segundo o processo, ele mentiu à polícia mais de uma vez.
Foi tratado como pessoa de interesse em 1946, e de novo quando o caso foi reaberto em 1952.
Mais tarde, 2 pessoas disseram que ele tinha contado que sabia, com margem de uns 30 metros, onde a moça estava enterrada. Quando perguntaram, ele disse que tinha sido só conversa.
Nenhum corpo foi encontrado. Nenhuma prova física o ligou a ela. Ele nunca foi acusado de crime nenhum e deve ser considerado inocente.
Aqui termina o que se sabe
**O último fato documentado é uma jovem de casaco vermelho andando para o norte numa estrada de montanha, no fim de uma tarde de dezembro, com a noite chegando. Tudo o que vem depois é suposição.**
7 meses depois, em julho de 1947, o legislativo de Vermont criou a Polícia Estadual de Vermont. As críticas à forma como a busca foi conduzida, em grande parte feitas pelo pai de Paula, estão registradas como um motivo direto.
Em 1956, 10 anos depois de desaparecer, Paula foi declarada legalmente morta.
A Polícia de Vermont ainda mantém o caso como não resolvido e ainda recebe informações sobre ele.
Ela não foi a única
Paula não foi a única pessoa a desaparecer naquela região. Um escritor local deu mais tarde às florestas a nordeste de Bennington um apelido, o "Triângulo de Bennington", por causa do Triângulo das Bermudas.
Há 2 casos que costumam ser contados junto com o dela.
Em 1936, uma mulher de 22 anos saiu para caminhar a partir de um vilarejo no estado de Nova York, a uns 64 km ao sul de Bennington, e não voltou. Em 1943, mais de 7 anos depois, caçadores encontraram restos mortais perto da divisa com Massachusetts. Foram identificados, de forma provisória, como dela.
Em 1952, uma menina de 10 anos fugiu de um acampamento de verão em Connecticut, a uns 74 km ao sul de Bennington. Foi vista pela última vez pedindo carona numa rodovia. Nunca foi encontrada.
A história de Paula deixou mais uma marca. Uma romancista americana famosa morava na cidade em 1946, e os papéis dela indicam que se inspirou no caso para um romance publicado em 1951. Com os anos vieram outros romances.
Então é isto o que se sabe. Paula subiu a montanha. Pelo menos 2 grupos de pessoas a viram lá. Ela estava vestida para um passeio curto. E isto é o que não se sabe: se ela chegou a descer.
Conclusões e perguntas em aberto
Os investigadores, e os autores que vieram depois, propuseram várias explicações. Cada uma tem algo a favor, e cada uma tem um buraco.
**Ela se perdeu e morreu de frio na montanha.** A favor: não estava vestida para a noite, escurecia, tinha sido avisada e a mata é fechada. O problema: centenas de pessoas, soldados e aviões vasculharam a área por semanas. Nem uma peça de roupa apareceu. E em quase 80 anos de caçadores e caminhantes pela mesma floresta, nenhum resto foi encontrado.
**Ela foi embora por vontade própria para começar uma vida nova.** A favor: os investigadores levaram isso a sério, e 2 testemunhas disseram tê-la visto longe dali. O problema: as 2 aparições foram verificadas e eram falsas. Ela não levou bolsa, nem roupa, nem quase dinheiro. Nada no processo aponta para um plano.
**Alguém a pegou na estrada.** A favor: ela pedia carona, as estradas estavam vazias e escurecia. Segundo uma teoria, levantada por um autor que estudou o caso, a mulher desaparecida em 1936, Paula e a menina desaparecida em 1952 foram vítimas do mesmo homem desconhecido. O problema: não há prova de crime no caso de Paula, e nada concreto liga os 3 casos. Eles estão espalhados por 16 anos e dezenas de km.
**O lenhador sabia mais do que disse.** A favor: o relato dele mudou, ele mentiu à polícia e 2 pessoas disseram que ele afirmava saber onde ela estava enterrada. O problema: não há corpo, nem prova, nem acusação. Um relato que muda e conversa fiada não são prova, e ele deve ser considerado inocente.
Uma conclusão não é teoria nenhuma, porque o próprio Vermont a tirou oficialmente. As primeiras horas foram perdidas, a busca foi dirigida por pessoas que nunca tinham dirigido uma, e quando os profissionais chegaram a pista já estava fria. Se uma busca mais rápida a teria encontrado, ninguém pode saber.
O que continua sem explicação é simples e teimoso. Uma jovem subiu por uma trilha conhecida, de dia, e várias pessoas a viram. Depois, a floresta, as estradas e as cidades não devolveram absolutamente nada.