A princesa que nunca existiu: uma múmia falsificada e a mulher a quem ninguém deu nome
A cassete de vídeo chegou a Karachi em outubro de 2000. Um jornalista paquistanês viu-a e percebeu quase de imediato que estava perante algo extraordinário, ou perante algo extraordinariamente errado. A câmara percorria um caixão de madeira lavrada. Lá dentro jazia um corpo enrolado e ligado à maneira antiga, o rosto coberto por uma máscara dourada, uma coroa de ouro por cima e, sobre o peito, uma lâmina de ouro trabalhada com escrita cuneiforme.
A cassete vinha de Kharan, no Baluchistão, junto à fronteira afegã, da casa de um chefe tribal chamado Wali Mohammed Reeki. O preço pedido era de 600 milhões de rupias paquistanesas, cerca de onze milhões de dólares norte-americanos na altura. Reeki disse que a múmia lhe chegara por intermédio de um homem que a encontrara depois de um sismo perto de Quetta.
A polícia agiu antes de qualquer venda se concretizar. A 19 de outubro de 2000 o caixão foi apreendido e levado para o Museu Nacional do Paquistão, em Karachi, e em poucos dias a história correu o mundo.
A filha de Xerxes
A inscrição do peitoral de ouro era o cerne de tudo. Traduzida, lia-se como uma declaração na primeira pessoa: quem falava era filha do grande rei Xerxes, pedia proteção a uma divindade e dava o seu nome, Rodogune.
Xerxes I governou o império aqueménida entre 486 e 465 antes da nossa era. Nunca fora recuperada nenhuma múmia real persa. O rito funerário persa não era egípcio, e a ideia de uma princesa aqueménida embalsamada e dourada à maneira egípcia obrigaria a reescrever tudo o que se sabia sobre os costumes fúnebres da dinastia. O eminente arqueólogo paquistanês Ahmad Hasan Dani examinou o caixão e datou-o de cerca de 600 antes da nossa era. Numa conferência de imprensa a 26 de outubro a múmia foi apresentada ao mundo como princesa persa, e o Museu Nacional viu-se na posse do que se descrevia como uma das descobertas arqueológicas do século.
As consequências diplomáticas foram imediatas. O Irão declarou que a múmia fora com toda a certeza saqueada em solo iraniano, provavelmente na região de Hamadan, e exigiu a sua devolução. O Paquistão contestou. A administração talibã do Afeganistão afirmou então que o corpo vinha de território afegão e pertencia a Cabul. Três reivindicações, um cadáver e muitíssimo ruído.
A conservadora que continuou a perguntar
Asma Ibrahim, a arqueóloga e conservadora que dirigia os trabalhos de conservação do museu, ficou incomodada desde cedo. Era ela quem tinha de cuidar do objeto, e cuidar significava olhar de perto.
Reuniu uma equipa e percorreu as provas peça a peça durante cerca de um ano. O corpo foi radiografado e passado por um aparelho de tomografia. O caixão de madeira e o sarcófago de pedra foram sujeitos a análise técnica. Foram recolhidas amostras da esteira de juncos sobre a qual o corpo assentava. E o texto cuneiforme seguiu para uma revisão filológica a sério.
As imagens chegaram primeiro, e foram devastadoras. Os embalsamadores do antigo Egito retiravam os órgãos internos mas deixavam o coração no lugar, porque o coração era necessário no julgamento dos mortos. Este corpo fora esvaziado por completo, coração incluído. As técnicas não correspondiam a nenhuma tradição de mumificação conhecida, egípcia ou outra. A cavidade fora cheia com um pó que se revelou ser dessecante moderno, bicarbonato de sódio e sal comum. O corpo e o cabelo tinham sido branqueados.
Depois chegou a anatomia. Os restos eram de uma mulher com cerca de vinte e um a vinte e cinco anos. Não era de todo um corpo antigo. E apresentava danos que nada tinham a ver com o sepultamento: uma fratura no pescoço e lesões na coluna compatíveis com uma pancada forte de objeto contundente.
A datação fechou o caso. A análise de radiocarbono do material orgânico associado ao sepultamento apontou para uma morte por volta de 1996, quatro anos antes de a múmia aparecer no mercado.
A inscrição falhou por si própria. Rüdiger Schmitt, especialista alemão em persa antigo, examinou o cuneiforme e encontrou erros gramaticais em vários pontos. Pior ainda, o nome do peitoral era Rodogune, que é a forma grega. Uma inscrição aqueménida autêntica teria usado o nome em persa antigo, Wardegauna. Schmitt identificou ainda passagens copiadas da inscrição de Behistun, a grande proclamação real de Dario o Grande gravada numa falésia do oeste do Irão e disponível em qualquer biblioteca. O falsificador copiara de um manual, e copiara mal.
Em abril de 2001 o museu anunciou publicamente a conclusão. A princesa persa era uma invenção, e o caso passou da arqueologia para uma investigação de homicídio.
O que veio a seguir e o que não veio
A falsificação fora elaborada e cara. Alguém construiu um sarcófago de pedra e um caixão de madeira lavrada, cortou e inscreveu um peitoral de ouro, fez uma máscara e uma coroa, arranjou o linho e aplicou um processo de mumificação suficientemente convincente para enganar à primeira vista gente experiente. Não é obra de uma pessoa numa tarde. Implica uma oficina, dinheiro e um plano de venda no mercado internacional de antiguidades.
O lado criminal não deu em nada de útil. No Paquistão foram deduzidas acusações contra vários homens ao abrigo da legislação sobre antiguidades e normas conexas por causa da tentativa de venda, e importa dizê-lo com clareza: estar acusado não é estar condenado, e qualquer acusado presume-se inocente enquanto um tribunal não decidir o contrário. Ninguém foi alguma vez condenado por a matar. Nunca se demonstrou que alguém a conhecesse.
Também não foi identificada. Os investigadores não conseguiram ligar um nome, uma família, uma aldeia ou uma participação de desaparecimento a uma mulher jovem de pouco mais de vinte anos morta algures na região por volta de 1996. O corpo fora branqueado, esvaziado e envolto em pano, o que eliminou boa parte daquilo com que um exame forense normalmente trabalha. Nunca apareceu qualquer documentação sobre a sua vida.
Ficou anos no museu, uma peça que se tornara prova e depois um problema que ninguém queria. Em 2005 os tribunais mandaram entregar o corpo à Fundação Edhi, a instituição paquistanesa mais conhecida por sepultar os mortos não reclamados. Em 2008 a fundação deu-lhe um funeral e enterrou-a com todos os ritos, como mulher não identificada.
Conclusões e perguntas em aberto
Duas coisas estão fora de discussão. A múmia é uma falsificação moderna, demonstrada de forma independente por datação de radiocarbono, por tomografia, por análise química dos materiais de enchimento e por análise linguística da inscrição. E a mulher lá dentro morreu em meados dos anos noventa com o pescoço partido e lesões na coluna.
O que não está resolvido é como morreu, e esse vazio gerou duas leituras.
Uma sustenta que foi assassinada precisamente para ser transformada numa antiguidade vendável. A sua força está na frieza da operação e na presença de uma lesão contundente grave no pescoço. Quem constrói uma múmia para vender por onze milhões de dólares precisa mais de um corpo recente do que de um decomposto, e a falsificação exigia um cadáver em bom estado. A sua fraqueza é que nenhuma prova ligou alguma vez uma morte concreta a um falsificador concreto, e a tese assenta em inferência e não em algo provado em tribunal.
A outra sustenta que morreu por acidente ou por violência alheia à fraude, e que o corpo foi obtido depois, talvez roubado de uma sepultura ou comprado a alguém com acesso aos mortos, e então utilizado. A sua força é exigir menos pressupostos e encaixar no modo habitual de operar das redes de falsificação, que aproveitam o que está disponível em vez de fabricarem uma vítima. A sua fraqueza são as datas e o padrão de lesões, que ficam incomodamente próximos, e o facto de uma sepultura violada costumar deixar rasto algures.
Asma Ibrahim, que fez mais do que ninguém para expor a fraude, disse publicamente que considera este um caso de homicídio que nunca foi investigado como tal. A investigação policial paquistanesa sobre a morte, ao contrário da do contrabando, ficou de facto parada. As linhas óbvias, que falsificador, que oficina, quem forneceu o corpo, não foram levadas a uma conclusão tornada pública.
Ficam ainda várias perguntas práticas. Ninguém estabeleceu de onde vieram os componentes materiais: o sarcófago de pedra, a ourivesaria, o caixão lavrado. Ninguém estabeleceu quem escreveu o cuneiforme, uma pessoa com acesso a uma edição impressa da inscrição de Behistun e com formação suficiente para copiar sinais, mas não a bastante para evitar erros gramaticais básicos e uma forma errada de um nome real. E ninguém estabeleceu se outras peças da mesma oficina foram vendidas com êxito e estão hoje nalguma coleção privada, por examinar.
A maior pergunta em aberto é a mais simples. Morreu uma mulher jovem. Retiraram-lhe tudo o que a identificava, branquearam-na, encheram-na de bicarbonato, vestiram-na de princesa de um império caído há dois mil e quinhentos anos e puseram-na à venda. Foi estudada por cientistas de três continentes, disputada por três governos, fotografada pelos jornais do mundo, e oito anos depois sepultada sem nome nenhum. Algures existe uma família que deixou de ter notícias de uma filha por volta de 1996 e a quem nunca foi dito o que lhe aconteceu.