Quinhentos mortos a 5.020 metros: o lago de ossos do Himalaia
Nos ultimos dias do verao o gelo de Roopkund recua da margem, e os ossos aparecem.
Estao na agua rasa e no pedregulho em torno da bacia: cranios, costelas, membros inteiros ainda articulados, e entre eles hastes de madeira, pontas de lanca de ferro, restos de sandalias de couro e aneis. O lago e pequeno, cerca de quarenta metros de largura na maioria das descricoes e raso o bastante para se atravessar a pe, encaixado numa tigela de rocha cinzenta a 5.020 metros no Himalaia indiano, entre os picos Trishul e Nanda Ghunti. Nao ha aldeia a menos de dois dias de caminhada. Nao ha abrigo, nao ha lenha e nada cresce acima da altura do joelho. Onze meses por ano a lagoa esta congelada por completo e os mortos sao invisiveis. Depois vem o degelo, e quem subir a ultima crista pode ficar na beira da agua e olhar para baixo, para varias centenas de pessoas.
Os ossos foram redescobertos para o mundo exterior em 1942, quando um guarda florestal chamado Hari Kishan Madhwal, que patrulhava a reserva de Nanda Devi para a administracao colonial, chegou ao lago e relatou o que havia ali. O momento nao poderia ser pior. A guerra tinha alcancado a borda oriental da India, e a primeira reacao oficial foi militar: as autoridades consideraram se aqueles seriam restos de uma forca japonesa que tentara atravessar as montanhas. A ideia nao sobreviveu ao contato com os ossos. Os esqueletos eram claramente antigos, desgastados, e nao havia junto deles nenhum equipamento moderno. O que tivesse matado aquelas pessoas acontecera muito antes de alguem no vale ter ouvido falar de um aviao.
Os pastores da regiao conheciam o lago havia geracoes, e tinham um nome para ele e uma historia que o acompanhava. Roopkund fica na rota do Nanda Devi Raj Jat, uma peregrinacao ao santuario da deusa Nanda Devi realizada aproximadamente a cada doze anos, uma procissao a pe por um dos terrenos mais duros do Himalaia. A cancao entoada nesse caminho fala de um rei, Jasdhaval de Kanauj, que partiu em peregrinacao com a mulher gravida, a rani Balampa, e um sequito numeroso. Segundo o relato, a comitiva viajava de um modo que ofendeu a deusa, com dancarinas, musica e festa em terra sagrada, e ela respondeu enviando granizo duro como ferro. Ninguem voltou. A cancao nao e um documento e nao ha como data-la. Mas ela nomeia um mecanismo, e durante sessenta anos esse mecanismo fez quase todo o trabalho de explicacao.
Depois da independencia, instituicoes indianas comecaram a recolher material do local. Ossos desceram aos sacos, junto com os objetos que jaziam entre eles. A datacao por radiocarbono feita em Oxford pareceu resolver a questao. Devolveu uma data de cerca de 850 d.C., mais ou menos trinta anos, proxima o bastante da epoca da lenda para parecer confirmacao. O quadro que se formou era arrumado e facil de contar: um unico grupo condenado, uma unica tempestade catastrofica, um unico dia ha cerca de mil e duzentos anos.
Em 2003 uma expedicao da National Geographic subiu ao lago e trouxe cerca de trinta esqueletos para estudo, com o trabalho filmado para um documentario exibido no ano seguinte. O estado dos restos era impressionante. O frio e a secura tinham preservado nao apenas osso, mas cabelo, e em alguns pontos ainda havia tecido. A evidencia fisica que mais chamou atencao foi um padrao de lesoes. Varios cranios apresentavam fraturas por compressao curtas e profundas, e havia lesoes semelhantes nos ombros. As fraturas eram compativeis com golpes recebidos diretamente de cima por objetos arredondados, e incompativeis com armas, com queda de pedras por uma encosta ou com um tombo.
Dessa observacao nasceu a versao que circula desde entao. Um grupo surpreendido a ceu aberto a 5.000 metros, sem saliencia e sem abrigo, atingido por granizo do tamanho de uma bola de criquete. Granizo desse porte e raro mas esta registrado, e mata. Sem abrigo, uma tempestade de granizo acima do limite das arvores e um dos poucos eventos naturais capazes de matar um grupo grande em minutos e deixar exatamente essa assinatura nos cranios. Por um tempo o caso pareceu fechado.
Entao, em 2019, uma equipe de pesquisadores publicou um estudo genetico do sitio na revista Nature Communications, e toda a versao arrumada desmoronou de uma vez.
O trabalho apoiou-se em laboratorios da India, da Europa e dos Estados Unidos, incluindo o laboratorio de DNA antigo de David Reich na Escola de Medicina de Harvard e o Instituto Max Planck na Alemanha, com Eadaoin Harney, Nick Patterson e Ayushi Nayak entre os autores. Obtiveram dados genomicos de trinta e oito individuos e datacao direta dos ossos, em vez de se apoiarem no numero antigo do sitio como um todo.
Os mortos nao eram um grupo. Eram pelo menos tres.
Vinte e tres individuos tinham ascendencia que cai confortavelmente na faixa dos sul-asiaticos atuais. Seus ossos datam de cerca do ano 800, em linha com o resultado antigo. Mas a datacao nao apontava para um unico momento. As evidencias indicavam que essas pessoas chegaram ao lago em mais de um episodio, ao longo de um periodo, e nao numa tarde.
Catorze individuos eram algo inteiramente diferente. Sua ascendencia e tipica do Mediterraneo oriental e agrupa-se com populacoes da Grecia continental e de Creta. Seus ossos datam de cerca de 1800, mil anos completos depois do grupo ao lado do qual estavam deitados. Medicoes de isotopos estaveis mostraram uma dieta com muito pouco milheto, incompativel com ter crescido no sul da Asia e compativel com uma criacao mediterranea. Ao contrario do grupo antigo, parecem ter morrido juntos, num unico evento.
O trigesimo oitavo individuo era diferente outra vez: uma unica pessoa cuja ascendencia apontava para o Sudeste Asiatico e que tambem data de cerca de 1800.
A equipe procurou ainda nos ossos rastros geneticos de doenca bacteriana, ja que uma epidemia fora uma das propostas antigas, e informou nao ter encontrado nenhum.
Portanto o lago contem um grupo de sul-asiaticos que morreram por etapas por volta do seculo IX, um grupo de pessoas de ascendencia grega e cretense que morreram juntas por volta de 1800, e uma pessoa de ascendencia sudeste-asiatica que morreu mais ou menos na mesma epoca. E aqui o registro simplesmente para. A India por volta de 1800 era um dos lugares mais documentados do planeta: registros da Companhia das Indias Orientais, correspondencia missionaria, arquivos de estados principescos, relatos de viajantes, levantamentos fiscais. Um grupo de mais de uma duzia de pessoas do Mediterraneo oriental que sobe ao alto Himalaia e nao volta deveria ter deixado um rastro de papel em algum lugar. Nenhum registro desse tipo foi encontrado.
Conclusoes e perguntas em aberto
A tempestade de granizo continua sendo a explicacao mais forte para pelo menos parte das mortes, e sua forca e fisica: as fraturas por compressao em cranios e ombros sao reais, vieram de cima, e acima do limite das arvores nao ha onde se abrigar. Sua fraqueza e que agora ela precisa ser contada tres vezes. Uma tempestade que matou peregrinos no seculo IX nao pode tambem ter matado viajantes mediterraneos mil anos depois, e uma hipotese que precisa ser repetida para cada grupo do lago explica bem menos do que parece.
A teoria da peregrinacao cobre bem o grupo antigo. A rota do Raj Jat passa perto de Roopkund, entre os mortos antigos ha homens e mulheres de idades variadas, o que parece uma peregrinacao e nao um exercito, e os objetos combinam com viajantes e nao com soldados. Sua fraqueza e a constatacao de que essas pessoas nao foram depositadas num unico episodio. Isso afasta a ideia de uma procissao destruida e aproxima a de um lugar onde as pessoas continuaram morrendo, ao longo de anos ou geracoes, numa rota que as pessoas continuaram usando.
Dai vem uma teoria mais discreta que alguns pesquisadores hoje preferem: que Roopkund nao e a cena de um unico desastre, mas um acumulo. Um passo alto e exposto numa rota que as pessoas tinham motivo para percorrer, onde o tempo pode virar letal em uma hora, vai juntando seus mortos devagar, e um lago congelado os preserva e os mantem num so lugar ate que parecam um unico evento. A forca dessa leitura e que ela nao precisa de nenhuma catastrofe especial. Sua fraqueza e que nao da conta do grupo de 1800, que de fato parece ter morrido junto.
A identidade do grupo mediterraneo e a pergunta mais dificil e nao tem boa resposta. Uma velha sugestao popular fazia deles descendentes de soldados deixados por Alexandre, mas a genetica trabalha contra: eles se agrupam com gregos e cretenses atuais, e nao com uma populacao longamente misturada no sul da Asia, e datam de cerca de 1800, nao da antiguidade. Uma teoria sustenta que eram membros de uma comunidade grega estabelecida em algum ponto da regiao que subiu as montanhas por razoes hoje perdidas. Outra, que faziam parte de uma expedicao maior cujos documentos existem mas nunca foram ligados a este local. Ambas sao possiveis; nenhuma produziu um documento.
O que permanece inexplicado e facil de enunciar e dificil de trabalhar. Ninguem sabe quem eram os catorze, por que estavam a 5.020 metros, por que uma pessoa de ascendencia sudeste-asiatica morreu com eles, nem por que um evento desse tamanho por volta de 1800 nao deixou rastro nos arquivos de um pais fortemente administrado. Ninguem sabe quantas mortes separadas o grupo antigo representa, nem ao longo de quanto tempo. E como os ossos vem sendo movidos e retirados ha oitenta anos, parte das evidencias que poderiam ter respondido a essas perguntas ja nao esta no lugar onde teria significado alguma coisa.