Cinquenta linhas que ninguem conseguiu ler: a Pedra de Singapura
Os trabalhadores que abriam caminho no mato na foz do rio Singapura em junho de 1819 tinham sido contratados para limpar terreno, nao para fazer descobertas. Sir Stamford Raffles desembarcara poucos meses antes e a Companhia das Indias Orientais estava transformando uma ilha pouco povoada em um porto. Em algum ponto do promontorio que os britanicos chamariam de Rocky Point, a turma de limpeza chegou a uma laje de arenito erguida acima da agua, com cerca de tres metros de altura e quase outro tanto de largura, partida ao meio em duas metades inclinadas.
Uma de suas faces estava coberta de escrita.
O relato que chegou ate nos diz que os homens que a encontraram se assustaram com o que viram, recusaram-se a prosseguir e tiveram de ser substituidos por outros operarios contratados por salarios excepcionalmente altos. E um dos poucos detalhes humanos que sobrevivem daquela manha, e e o inicio do caso documental mais estranho da historia de Singapura: um texto que milhares de pessoas olharam, que varios estudiosos serios examinaram de perto e que ninguem jamais leu.
A inscricao cobria cerca de tres metros quadrados de rocha. Os contemporaneos contaram por volta de cinquenta linhas, embora ninguem concordasse com o numero exato, e as letras eram pequenas, com uns dois centimetros de largura, arredondadas e corroidas por mais de um seculo de ar salgado. John Crawfurd, que viria a ser residente de Singapura, examinou a pedra e descreveu o entalhe como tosco e muito gasto. Todos os que a viram concordaram em uma coisa: fosse o que fosse aquela escrita, nao era malaia, nem chinesa, nem arabe, nem nada que a populacao local ou os funcionarios coloniais pudessem nomear.
O mundo malaio ja tinha uma historia ligada ao lugar. O Sejarah Melayu, os Anais Malaios, falam de Badang, um homem forte da antiga Singapura que venceu uma prova de forca contra um campeao vindo da costa indiana ao arremessar um enorme rochedo ate a foz do rio Singapura. Quando Badang morreu, dizem os anais, um raja mandou erguer dois pilares de pedra sobre seu tumulo na ponta do estreito. Em 1834 o oficial Peter James Begbie ligou a laje inscrita a esse relato e a um governante que datou do seculo XIII. O encaixe era elegante e desde entao tinge toda discussao sobre a pedra. Tambem e uma lenda, posta por escrito seculos depois dos fatos que narra, e nada prova sobre a escrita da rocha.
As tentativas serias de ler a inscricao comecaram na decada de 1830 e foram notavelmente engenhosas. Em 1837 o doutor William Bland, cirurgiao naval do HMS Wolf, passou horas diante da pedra tentando arrancar legibilidade dos caracteres gastos. Prensava massa mole dentro dos sulcos para tirar impressoes e aprendeu a trabalhar no fim da tarde, porque, quando o sol descia a oeste, lancava uma sombra dentro de cada letra entalhada e tornava legiveis formas que a luz do dia achatava. Seus fac-similes foram para o boletim da Sociedade Asiatica de Bengala, onde os examinou o grande epigrafista James Prinsep, o homem que decifrara a escrita brahmi das colunas de Ashoka. Prinsep achou que os caracteres lembravam o pali e advertiu que nada de definitivo poderia ser concluido apenas de copias.
Fez bem em ser cauteloso, e seu tempo estava acabando. Por volta de janeiro de 1843 o engenheiro interino do assentamento, capitao D. H. Stevenson, mandou explodir a laje. O motivo foi o de sempre: era preciso alargar a passagem na foz do rio e abrir espaco para o forte Fullerton e os aposentos de seu comandante. O tenente-coronel James Low, oficial da Companhia das Indias Orientais com interesse erudito pelas antiguidades da regiao, pediu que a pedra fosse poupada. Foi ignorado. A carga foi colocada e o unico exemplar do texto virou entulho.
O que aconteceu com os pedacos e uma pequena tragedia a parte. Um grande bloco inscrito foi jogado em Government Hill e la ficou ate que presos o quebraram para virar cascalho de estrada. Outro fragmento parou no patio da Tesouraria, onde cipaios o usaram como banco, e a escrita quase se apagou antes que alguem percebesse sobre o que estavam sentados. Low salvou o que pode dos fragmentos mais legiveis. O coronel William John Butterworth encontrou um caido na varanda da Tesouraria e mandou guarda-lo em seguranca. Por volta de 1848 as pecas sobreviventes viajaram para o museu da Real Sociedade Asiatica em Calcuta.
La foram estudadas por J. W. Laidlay, que tentou um truque diferente do de Bland. Polvilhou as superficies com carvao animal finamente moido e o varreu das areas lisas com penas, de modo que o po preto ficasse apenas nos tracos incisos. O que apareceu, concluiu ele, nao tinha semelhanca alguma com o pali. Os caracteres pareceram-lhe kawi, a escrita de origem indiana usada em Java, Bali e Lombok, e essa identificacao resistiu melhor do que qualquer alternativa, sem jamais ter sido confirmada.
Em 1918 o Museu Raffles de Singapura, a instituicao que se tornaria o Museu Nacional de Singapura, pediu a Calcuta que devolvesse os fragmentos. Uma peca voltou. O restante nao, e o arqueologo John Miksic apontou a inferencia obvia de que presumivelmente ainda estao em Calcuta, se e que sobreviveram. Esse unico fragmento devolvido, um bloco cinzento e tosco com algumas linhas danificadas das cinquenta originais, e tudo o que resta do monumento inteiro. Em janeiro de 2006 o Museu Nacional o designou um dos onze tesouros nacionais de Singapura.
Conclusoes e perguntas em aberto
Os candidatos a identificacao da escrita estao na mesa ha quase dois seculos e nenhum se fechou. Bland e Prinsep preferiram o pali, a antiga lingua liturgica cingalesa, com base na forma das letras. A forca dessa posicao e que foram os ultimos a estudar a pedra intacta com os proprios olhos; a fraqueza e que o proprio Prinsep se recusou a se comprometer, e Laidlay, trabalhando uma decada depois diretamente sobre os fragmentos resgatados, rejeitou de vez a leitura pali. Begbie propos um dialeto tamil em desuso, raciocinando que um governante da costa indiana teria trazido seu proprio escultor. A forca desse argumento e a plausibilidade historica, ja que o contato comercial e militar tamil com a regiao e bem documentado; a fraqueza e que Begbie raciocinava de tras para frente a partir da lenda de Badang, e nenhuma leitura tamil dos caracteres jamais funcionou.
A identificacao kawi de Laidlay continua sendo a posicao dominante, e epigrafistas posteriores a refinaram em vez de substitui-la. O estudioso holandes Johan Hendrik Caspar Kern isolou palavras que julgou poder decifrar e propos uma data em torno de 1230. J. G. de Casparis argumentou pelas formas das letras a favor do seculo X ou XI. O epigrafista indonesio Boechari concluiu que a escrita nao era posterior ao seculo XII e, mais importante, que seu estilo apontava para Sumatra em vez de Java, possivelmente registrando um texto em sanscrito. Miksic adotou a mesma visao sobre a direcao cultural, sustentando que uma origem sumatrana se ajusta melhor a distribuicao das linguas da regiao do que uma javanesa, e deu ao mesmo tempo a avaliacao mais sombria de todo o empreendimento: que a escrita provavelmente nunca sera decifrada por completo. Mais recentemente o pesquisador Iain Sinclair identificou o que podem ser fragmentos de emprestimos do sanscrito e defendeu um contexto do seculo XI ligado a presenca chola no sudeste asiatico.
A razao de nada disso convergir e que a base de provas e uma ruina. Uma decifracao costuma exigir volume, repeticao e alguma lingua conhecida em algum ponto do quadro. Aqui o volume se foi, explodido em 1843; o que sobrevive e um fragmento mais fac-similes oitocentistas feitos por homens diferentes com metodos diferentes, cujos desenhos nao coincidem inteiramente entre si. A propria escrita nao aparece em nenhum outro lugar do mundo na forma que assume nessa rocha, e a lingua que ela deveria registrar e desconhecida. Duas incognitas multiplicadas uma pela outra ja nao sao um enigma, sao um muro.
O trabalho atual tenta atacar o muro pelo lado. Uma equipe liderada por Francesco Perono Cacciafoco na Universidade Xi'an Jiaotong-Liverpool, com I-Shiang Lee, vem construindo um sistema computacional apelidado de Read-y Grammarian, destinado a aprender os caracteres sobreviventes e gerar reconstrucoes do texto perdido sem importar as suposicoes de um pesquisador humano sobre o que ele deveria dizer. A comparacao que fizeram entre a Pedra de Singapura e a Pedra de Calcuta, um monumento inscrito da tradicao javanesa, encontrou semelhancas reais ao lado de uma diferenca perceptivel no uso de diacriticos, o que sustenta a ligacao ampla com a familia kawi e complica qualquer atribuicao precisa. Ninguem envolvido reivindica uma leitura. O objetivo declarado e recuperar texto plausivel suficiente para que a analise de padroes se torne sequer possivel.
Assim, as perguntas em aberto sao incomumente concretas. Que lingua foi entalhada naquela rocha. Se o monumento celebrava um rei, uma vitoria, um tratado, uma fundacao ou o tumulo de um homem forte que talvez nunca tenha existido. Se os demais fragmentos que Low enviou a Calcuta estao hoje num deposito de Calcuta sem que ninguem os reconheca. E por tras de tudo isso a pergunta mais incomoda do caso, que nao trata do mundo antigo: quanto custou de fato o alargamento de um porto no seculo XIX. A pedra da foz estava de pe havia cerca de oitocentos anos e ninguem na memoria viva a lera. Bastaram uma tarde e uma carga de polvora para garantir que ninguem jamais a lesse.