Documentado

As areias que cantam: dunas que ressoam uma nota por quilómetros

2026-07-03 · Natureza inexplicável · 10 min de leitura

Deslize pela íngreme face da Sand Mountain, no Nevada, numa tarde seca de verão e, por uns segundos desconcertantes, toda a encosta lhe responde. Não com o leve chiar que a areia seca de praia faz sob os pés, mas com uma nota funda, de órgão, que parece brotar do chão e ficar suspensa no ar, grave o bastante para vibrar nas costelas. Apoie a palma da mão na encosta e senti-la-á tanto quanto a ouve, uma pulsação lenta que sobe pelos grãos até à mão. Os caminhantes recorrem sempre às mesmas comparações: um zumbido, um gemido, um violoncelo distante, um avião de hélice a passar a baixa altura algalgures abaixo do horizonte. A duna não faz nada de sobrenatural. Está a cantar, e há pelo menos sete séculos que inquieta os viajantes.

Por volta de 1275, ao atravessar as dunas de Badain Jaran na orla do Gobi, Marco Polo descreveu um deserto que parecia habitado. O ar, escreveu, enchia-se com o som de instrumentos, tambores e o estrondo de exércitos invisíveis, e os viajantes do seu tempo culpavam os espíritos da areia, que chamavam os homens pelo nome para longe da caravana. Seis séculos depois, ao desembarcar no Chile durante a viagem do Beagle, Charles Darwin registou o mesmo espanto diante de uma colina rugidora a que os seus informantes chamavam El Bramador, a rugidora, que soava, diziam, quando se perturbava a areia. Nenhum dos dois inventava nada, e nenhum estava só. Escritores árabes medievais, cronistas chineses e nómadas do deserto de três continentes deixaram o mesmo testemunho. Parte da areia do mundo canta de verdade, e durante quase toda a história escrita ninguém fazia a menor ideia do porquê.

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