A Zona do Silêncio: como um míssil americano perdido construiu a lenda mais estranha do México
Onde se encontram os estados de Durango, Chihuahua e Coahuila, o Deserto de Chihuahua achata-se numa bacia fechada chamada Bolsón de Mapimí. Nenhum rio sai dela. A chuva que aqui cai fica aqui até evaporar. O solo foi outrora o fundo de um braço do antigo mar de Tétis, e guarda ainda fósseis marinhos e depósitos de sal que se exploram até hoje. A localidade de alguma dimensão mais próxima é Ceballos, em Durango, a cerca de quarenta quilómetros através do matagal de creosoto. Na maioria dos mapas a área não tem nome nenhum. No imaginário popular tem um muito preciso: la Zona del Silencio, a Zona do Silêncio.
O nome não é antigo. Parece datar de 1966, quando um engenheiro chamado Harry de la Peña, a trabalhar num levantamento para a petrolífera estatal Pemex, relatou que as comunicações por rádio se extinguiam sobre um troço da bacia. Chamou-lhe zona do silêncio, a expressão chegou à imprensa e fixou-se. Circulam também alegações mais antigas, normalmente sobre pilotos dos anos trinta que teriam perdido contacto ao atravessar a região. Essas histórias não têm documentação da época por trás e pertencem ao folclore, não ao registo.
Depois, na madrugada de 8 de fevereiro de 1969, o deserto produziu algo inteiramente real. Uma bola de fogo cruzou o céu e fragmentou-se sobre o norte do México, e o estrondo acordou a população de Ceballos. As pedras que caíram perto do Pueblito de Allende, em Chihuahua, tornaram-se o meteorito Allende. Acabaram por ser recolhidas mais de duas toneladas, o que faz dele o maior condrito carbonáceo alguma vez recuperado na Terra. As suas inclusões claras, ricas em cálcio e alumínio, revelaram conter parte do material sólido mais antigo do sistema solar, datado em cerca de 4,567 mil milhões de anos. A coincidência temporal foi extraordinária por outra razão: laboratórios de todo o mundo preparavam-se para receber as primeiras amostras lunares do programa Apolo, e Allende chegou como um ensaio gratuito. Os cientistas vieram a este deserto em número, e os locais viram-nos chegar.
Dezassete meses mais tarde o deserto recebeu um segundo visitante vindo do céu, e este trazia remetente.
Às 2:40 da madrugada de 11 de julho de 1970, a Força Aérea dos Estados Unidos lançou um foguetão de investigação Athena RTV, veículo número 122, do complexo de lançamento de Green River, no Utah. O voo era rotineiro: de Green River até ao campo de mísseis de White Sands, no Novo México, um corredor usado durante anos. Neste voo o motor do quarto andar acendeu antes da manobra de guiamento a meio curso. Essa única falha acrescentou cerca de quatrocentas milhas náuticas de alcance. Em vez de cair no Novo México, o veículo seguiu para sul e desceu bem dentro do México, no canto nordeste de Durango, no Bolsón de Mapimí.
A carga útil foi a razão pela qual o incidente não podia ser discretamente esquecido. O veículo transportava dois pequenos recipientes selados de cobalto-57, um isótopo radioativo usado como marcador para que o veículo e os seus destroços pudessem ser localizados após o impacto. Os responsáveis americanos declararam que as cápsulas seladas não representavam perigo. Também as queriam de volta.
O México autorizou a busca. As equipas partiram para a fronteira a 16 de julho e instalaram-se em Torreón. A busca foi dirigida pelo tenente-coronel Lowell Knight, conhecido por Buzz, com o engenheiro de projeto Carlos Bustamante, falante fluente de espanhol, a tratar do contacto com as autoridades mexicanas e com os rancheiros cujas terras estavam envolvidas. As equipas terrestres nada encontraram durante semanas num território que engole objetos inteiros. O cone de nariz foi finalmente localizado a 2 de agosto, do ar, por uma aeronave da Comissão de Energia Atómica que operava o Sistema Aéreo de Medição Radiológica, com os detetores afinados para a assinatura específica do cobalto-57.
A recuperação em si foi uma operação separada, e grande. A operação Sand Patch decorreu de 23 de setembro a 7 de outubro de 1970 sob o comando do coronel Thomas Kearns. Um comboio saiu de Orogrande a 23 de setembro e chegou ao terminal ferroviário mexicano de Carrillo no dia seguinte. Os engenheiros abriram uma estrada através do deserto até ao ponto de impacto. As equipas rasparam o solo contaminado e meteram-no em bidões: a 1 de outubro estavam cheios sessenta bidões de terra, já a caminho de White Sands. As leituras iniciais no local rondavam os seis décimos de milirem por hora, um nível comparável ao que se mede hoje no local Trinity. O governo mexicano pediu que fosse reduzido para meio milirem ou menos. Toda a operação custou cerca de 104.000 dólares. Não era o primeiro embaraço do género: um míssil Pershing disparado de Blanding, no Utah, desviara-se em 1967 e caíra perto de Van Horn, no Texas.
Durante algumas semanas de 1970, portanto, um canto de deserto que quase não via forasteiros teve soldados americanos, um terminal ferroviário, uma estrada nova, camiões, aviões por cima e homens de fato de proteção a encher barris de terra. Contratou-se gente local para tarefas de apoio, incluindo pelo menos um homem encarregado de vigiar os destroços. Em vários relatos é precisamente desse círculo que as histórias começaram a viajar para fora: que os americanos tinham vindo por algo que não queriam nomear, que ali os rádios não funcionavam, que as bússolas rodopiavam, que as plantas e os animais estavam a mudar. A queda do Athena é a única parte da lenda documentada até à contagem dos bidões. Quase tudo o que se lhe colou depois não está.
Pouco depois o deserto recebeu um tipo de visitante muito diferente. Em 1977 a Unesco reconheceu a Reserva da Biosfera de Mapimí no âmbito do programa O Homem e a Biosfera, uma das primeiras do México e da América Latina. A 5 de junho de 1978 foi inaugurada no seu interior uma estação de investigação permanente, o Laboratorio del Desierto. A reserva fora criada sobretudo por causa de um animal: Gopherus flavomarginatus, a tartaruga do bolsón, o maior réptil terrestre da América do Norte e endémico desta bacia. Gustavo Aguirre chegou no final de 1977 para começar a estudá-la. Hoje a reserva é administrada pela comissão nacional mexicana de áreas protegidas, a Conanp.
Essa estação importa à história, porque significa que a Zona do Silêncio está continuamente ocupada por cientistas há quase cinquenta anos. Usam rádios. Usam bússolas. Um investigador que fez trabalho de campo de doutoramento na reserva resumiu a posição sem rodeios: nem ele nem ninguém com quem falou, tirando os zoneros, teve qualquer problema com rádios ou bússolas enquanto ali trabalhou. Zoneros é a palavra local para os guias e entusiastas que vivem do mistério.
As duas versões do lugar funcionam hoje lado a lado. Um complexo de ecoturismo assenta na estrada entre Jiménez e Gómez Palacio, perto do quilómetro 154, entre Ceballos em Durango e Escalón em Chihuahua. Há um centro de visitantes no minúsculo ejido de La Flor, num edifício erguido ao estilo da época revolucionária, a cerca de cem metros do punhado de casas que formam o povoado, e um pequeno museu sobre a flora e a fauna da bacia a par das curiosidades pelas quais a zona é célebre. Os guias mostram aos visitantes fósseis, fragmentos de meteorito e o cato roxo que aqui cresce. Alguns dizem-lhe também para ligar o rádio e ouvir coisa nenhuma.
Conclusões e perguntas em aberto
A Zona do Silêncio é uma das poucas lendas modernas cuja certidão de nascimento sobreviveu. O míssil caiu a 11 de julho de 1970. A recuperação prolongou-se até 7 de outubro. Os custos, a contagem de bidões e as leituras de radiação estão arquivados. O que não está arquivado é qualquer medição que mostre que as ondas de rádio se comportam de forma anómala no Bolsón de Mapimí.
A posição maioritária, defendida pelo pessoal da reserva e pela maioria dos cientistas que ali trabalharam, é que o silêncio é folclore: um deserto vulgar a que uns meses invulgares de 1970 deram uma reputação extraordinária, mantida depois porque a reputação dá dinheiro. A sua fraqueza é cronológica. De la Peña relatou problemas de rádio em 1966, quatro anos antes do voo do Athena e muito antes de existir qualquer turismo, e esse relato é a semente de tudo.
Uma teoria enfrenta isso diretamente: leva a sério o relato de 1966 e explica-o em termos vulgares. As comunicações em onda curta e em VHF falham em terreno remoto por razões inteiramente prosaicas: distância ao repetidor mais próximo, sombra do relevo das serras em redor, condições ionosféricas que mudam de hora a hora, equipamento de campo fraco ou mal sintonizado. Uma equipa de levantamento com um único rádio, longe de tudo, numa bacia rodeada de terreno mais alto, não é uma anomalia. A fraqueza desta explicação é que ninguém anotou a frequência, o equipamento ou as condições, pelo que não pode ser verificada. É plausível, não provada.
Outra teoria olha para o chão. Alguns investigadores propuseram que solos com magnetite, ferro enterrado ou os leitos de sal do antigo fundo marinho geram anomalias magnéticas locais. A fraqueza aqui é de escala. Nenhum levantamento publicado encontrou anomalias sequer perto de fortes o suficiente para absorver ou bloquear uma transmissão de rádio, e uma anomalia magnética dessa dimensão seria uma das feições geofísicas mais notórias da América do Norte, e não um boato.
A alegação de que a zona atrai meteoritos é uma alegação folclórica construída sobre um facto real. Allende caiu de facto nesta região em 1969, e encontram-se de facto meteoritos na bacia. Mas os desertos, em qualquer parte, são os melhores lugares da Terra para os encontrar: o solo é seco, claro e sem vegetação, as pedras do céu mantêm-se reconhecíveis durante milénios, e as pessoas vão procurar ali porque sabem disso. Nunca foi proposto um mecanismo de atração que resista ao exame. A mesma alegação, com as mesmas palavras, é feita a respeito do Sara e dos campos de gelo da Antártida.
Alguns defendem leituras mais estranhas, e devem ser rotuladas como teorias em aberto e não como resultados. Uma sustenta que a zona se situa numa faixa de latitude partilhada com o Triângulo das Bermudas e com certos monumentos antigos, e que isso é significativo; a sua fraqueza é que uma latitude partilhada é uma coincidência e não um mecanismo, e que o argumento escolhe os exemplos a posteriori. Outra sustenta que a recuperação americana foi cobertura para outra coisa, ou que cobalto-57 residual explica as esquisitices relatadas em plantas e animais locais. Essa tem um problema concreto e fatal: o cobalto-57 tem uma meia-vida de cerca de 271 dias. Tudo o que não foi raspado para aqueles sessenta bidões decaiu até nada poucos anos depois de 1970.
O que fica genuinamente por explicar é menor do que a lenda, mas não é nada. Ninguém sabe o que a equipa de De la Peña experimentou realmente em 1966, e não parece que alguém tenha voltado com equipamento moderno para testar o mesmo terreno nas mesmas frequências. Ninguém publicou um estudo sistemático de propagação de rádio na bacia, que resolveria a alegação central numa semana. E ninguém mediu se as esquisitices vegetais que se mostram aos visitantes, o cato roxo entre elas, são algo diferente da pigmentação normal por seca e frio de espécies do Deserto de Chihuahua.
As perguntas em aberto são práticas. Alguém fará esse levantamento de propagação e publicá-lo-á? Restam vestígios do impacto de 1970 fora da área raspada, e o local foi reexaminado desde então? E quanto sobraria da Zona do Silêncio se a estrada que o exército dos Estados Unidos abriu em setembro de 1970 nunca tivesse sido cortada através do deserto?