UM CASO REAL
Contestado

Três homens, uma jangada de gabardinas e uma baía fria: a noite em que Alcatraz perdeu

2026-09-25 · · Desaparecidos sem rasto · 7 min de leitura

A última vez que alguém com autoridade viu Frank Morris, John Anglin e Clarence Anglin, os três estavam deitados nos beliches do bloco B enquanto as luzes se apagavam. Era a noite de segunda-feira, 11 de junho de 1962. O que o guarda que percorria o corredor viu de facto, a certa altura das horas seguintes, foram três cabeças em três almofadas. Eram feitas de sabão, pasta de dentes, pó de cimento e papel higiénico, pintadas com tinta das caixas de desenho da prisão e acabadas com cabelo verdadeiro varrido do chão da barbearia.

Os homens já estavam num corredor de serviço às escuras por trás da parede, a subir.

Alcatraz erguia-se a dois quilómetros e meio da costa, na baía de São Francisco, e a sua reputação assentava na água e não nos muros. A prisão federal guardava os homens que o sistema dera por perdidos, incluindo os que tinham tentado fugir de outro lado. Frank Lee Morris era um deles, órfão criado em famílias de acolhimento, ladrão e assaltante de bancos de carreira, com historial de fugas e, segundo a avaliação da própria prisão, com uma inteligência fora do comum. Chegou à ilha em janeiro de 1960. John e Clarence Anglin eram irmãos de uma família numerosa de agricultores da Florida, ambos a cumprir longas penas federais depois de assaltarem um banco no Alabama em janeiro de 1958, e ambos já tinham tentado sair de outras instituições. Os três conheciam-se de prisões do continente. Um quarto homem, Allen West, estava no plano.

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O trabalho levou cerca de seis meses e foi feito com os materiais da própria cadeia. Ao fundo de cada cela havia uma abertura de ventilação de cerca de vinte e três por quinze centímetros, em betão que décadas de ar salgado tinham amolecido. Os homens alargaram as aberturas raspando, com colheres afiadas do refeitório, lâminas de serra descartadas encontradas no recinto e um berbequim improvisado com o motor de um aspirador. Trabalhavam durante a hora de música, quando os acordeões e o barulho do bloco tapavam o som. Todas as noites o buraco ficava escondido atrás de uma grelha falsa de cartão pintado.

As aberturas davam para um corredor de serviço sem vigilância, cheio de tubagens, que percorria toda a altura do bloco. Por cima, no topo do edifício, havia um espaço onde ninguém ia. Ali montaram uma oficina, tapada com cobertores pendurados, e construíram o equipamento para uma travessia marítima. A jangada media cerca de dois metros por quatro, feita com mais de cinquenta gabardinas, umas roubadas e outras dadas por outros reclusos, com as costuras cosidas à mão e seladas contra os tubos quentes de vapor. Pelo mesmo método fizeram coletes salva-vidas e um remo, e tiraram uma concertina do programa de música para insuflar a jangada. Estudaram tabelas de marés em material da biblioteca da prisão e em revistas antigas que falavam da baía.

Na noite de 11 de junho os três saíram pelas suas aberturas, subiram pela tubagem do corredor e chegaram ao telhado do bloco por um ventilador que já tinham desapertado. Allen West não saiu com eles. Tinha tapado com cimento o betão esfarelado à volta da sua abertura para o segurar enquanto trabalhava, e o cimento tinha presa. Quando finalmente conseguiu passar, os três companheiros já não estavam.

Atravessaram o telhado, desceram cerca de quinze metros pela conduta de ventilação da cozinha, na esquina do edifício, venceram duas vedações de arame farpado com quase quatro metros e chegaram à linha de água do lado nordeste da ilha. Por volta das dez da noite, segundo a reconstituição que o FBI montou depois, insuflaram a jangada e empurraram-se para a escuridão.

A fuga foi descoberta na contagem da manhã de 12 de junho, quando um guarda meteu a mão por entre as grades para sacudir um homem que não se levantava e uma cabeça rolou da almofada para o chão. Seguiu-se uma das maiores caças ao homem da época, com o FBI, a Guarda Costeira, lanchas da prisão, aviões e unidades militares a vasculhar a baía e a costa.

A busca recuperou objetos e mais nada. A 14 de junho encontrou-se um remo a boiar a cerca de duzentos metros da margem sul da ilha Angel. Recuperou-se um saco de plástico selado com nomes, moradas e fotografias de amigos e parentes dos Anglin, o género de embrulho que se leva quando se tenciona chegar a algum lado. A 21 de junho um colete salva-vidas deu à costa na praia de Cronkite, fora do Golden Gate. Um segundo colete apareceu na baía. A jangada nunca apareceu. Nunca apareceu um corpo.

Em junho a baía tem entre dez e doze graus, fria o bastante para esgotar um nadador numa hora, e as correntes do Golden Gate são fortes o suficiente para arrastar uma embarcação pequena para o mar alto. É esse o argumento do afogamento, e é a conclusão a que o FBI chegou quando encerrou o processo a 31 de dezembro de 1979, ao fim de dezassete anos de trabalho.

O caso, na verdade, nunca foi encerrado. O Serviço de Marshals dos Estados Unidos manteve os mandados em vigor e continuou a divulgar retratos envelhecidos dos três homens. O serviço afirmou que o processo se mantém aberto até os fugitivos terem completado cem anos, o que para Frank Morris, nascido em setembro de 1926, é este mês.

Ao longo das décadas surgiram fragmentos, nenhum deles verificado. Em 2018 o FBI confirmou que em 2013 a polícia de São Francisco recebera uma carta de alguém que dizia ser John Anglin, afirmando estar vivo, que Frank Morris morrera em 2008 e Clarence Anglin em 2011, e oferecendo-se para se entregar em troca de assistência médica e de uma pena curta. A agência examinou-a à procura de impressões digitais e ADN e mandou analisar a letra. Os resultados foram inconclusivos, ou seja, a carta não foi confirmada nem desmentida.

Em 2015 familiares dos irmãos Anglin apresentaram uma fotografia que, segundo disseram, fora tirada no Brasil em 1975 por um amigo da família, com dois homens que identificaram como John e Clarence. Dois peritos contratados para um documentário televisivo disseram que os homens da imagem eram muito provavelmente os irmãos. O Serviço de Marshals não ficou convencido e notou que a origem da imagem assentava no relato de uma única pessoa. Familiares falaram também de postais de Natal e de duas mulheres altas desconhecidas no funeral da mãe. Nada disso foi confirmado de forma independente.

A prova nova mais útil veio da física e não de testemunhos. Em 2014 investigadores da Universidade Técnica de Delft, nos Países Baixos, passaram as correntes de maré da baía por um modelo hidráulico e testaram a deriva provável da jangada. O resultado foi específico. Se os homens entraram na água por volta das onze e meia da noite, a vazante podia tê-los levado a terra a norte do Golden Gate. Se partiram bastante antes ou bastante depois, a mesma água tê-los-ia levado para o oceano.

Conclusões e perguntas em aberto

A explicação do afogamento é a oficial e não é fraca. Três homens numa jangada de gabardinas cosida à mão entraram em água fria às escuras e, em sessenta e quatro anos, nenhum foi confirmado vivo, nenhum foi detido e nenhum crime lhes foi credivelmente atribuído. Da água saíram dois coletes e um remo, e a jangada não. Contra isso está o facto de nunca ter aparecido um corpo, numa baía que já devolveu corpos, e de os objetos recuperados serem igualmente compatíveis com homens que chegaram a uma margem e abandonaram o equipamento.

A tese da sobrevivência apoia-se no cálculo de Delft, que mostra uma janela real em que a travessia funciona, e no saco selado com moradas, que sugere homens a planear uma chegada e não uma aposta cega. A sua fraqueza é tudo o que não aconteceu depois. Dois dos três tinham uma família numerosa na Florida, vigiada durante anos, e nunca houve um contacto verificado.

A fotografia do Brasil e a carta de 2013 são as duas provas mais citadas e ambas sofrem do mesmo defeito. A fotografia é apoiada por dois peritos que compararam rostos, mas a sua história depende inteiramente da palavra do homem que a apresentou, e o Serviço de Marshals rejeitou-a. A carta tem pormenores, mas o laboratório não conseguiu ligá-la a nenhum dos três, e receber uma carta falsa sobre a mais famosa fuga prisional da história americana não seria surpresa nenhuma.

Allen West é o último elemento por resolver. Foi a única pessoa que podia descrever o plano por dentro, e fê-lo com detalhe, contando aos investigadores que os fugitivos tencionavam desembarcar na ilha Angel, roubar roupa e um carro e separar-se. Tudo o que se sabe sobre o percurso e sobre a oficina vem em parte dele. Mas era também um homem deixado para trás pelos próprios cúmplices, interrogado pelas autoridades de que tentara fugir, e a sua versão nunca foi confrontada com o que os outros dissessem, porque os outros nunca foram encontrados.

O que resta é uma pergunta estreita com duas respostas limpas e sem maneira de escolher entre elas. Ou a maré os levou pelo Golden Gate fora na hora seguinte ao lançamento, ou três homens saíram da água algures na margem norte antes do amanhecer de 12 de junho de 1962 e viveram o resto da vida como outras pessoas. A prova física para na linha de água.

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