UM CASO REAL
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Lizzie Borden e os assassinatos de Fall River: dois corpos, uma manhã e nenhuma resposta

2026-10-13 · · Crimes por resolver · 13 min de leitura

Na manhã de quinta-feira, 4 de agosto de 1892, Abby Borden subiu ao andar de cima para arrumar uma cama.

Tinha 64 anos. Estava casada com Andrew Borden havia 27 anos. A cama ficava no quarto de hóspedes, porque um parente tinha dormido lá na noite anterior.

Abby nunca mais desceu.

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Cerca de uma hora e meia depois, o marido, Andrew, voltou do seu passeio matinal ao banco e aos correios. Tinha 69 anos. Deitou-se no sofá da sala para descansar.

Às 11:10 daquela manhã, os dois estavam mortos.

A casa ficava no número 92 da Second Street, em Fall River, uma cidade de fábricas têxteis no estado de Massachusetts, no nordeste dos Estados Unidos, a cerca de 80 km ao sul de Boston. Era uma casa de madeira estreita, de 2 andares, colada à rua e colada aos vizinhos.

Este é o caso Lizzie Borden. Numa frase: 2 pessoas foram mortas a machadadas numa casa pequena em plena luz do dia, com outras pessoas dentro ou muito perto; a filha da família foi acusada e absolvida; e mais ninguém foi acusado. Mais de 130 anos depois, ainda não se sabe com certeza quem os matou.

Quem vivia na casa

Andrew Borden era um dos homens mais ricos de Fall River. Tinha imóveis, fazia parte das direções de bancos e fábricas, e a sua fortuna rondava os 300.000 dólares, uma quantia enorme para a época.

Também tinha fama de avarento. No andar de cima não havia água encanada, embora ele pudesse facilmente comprar uma casa elegante na colina, onde viviam as famílias ricas da cidade.

Tinha 2 filhas do primeiro casamento. A mãe delas morreu em 1863. Emma, a mais velha, tinha 41 anos em 1892. Lizzie, a mais nova, tinha 32. Nenhuma era casada. As 2 ainda viviam em casa.

Abby era a madrasta delas. Andrew casou com ela em 1865, quando Lizzie era pequena.

Na casa vivia também uma criada, uma jovem de 25 anos vinda da Irlanda. Dormia num quartinho no terceiro andar, debaixo do telhado.

No julgamento, a criada contou que as 2 irmãs quase nunca comiam com o pai e a madrasta. Dentro da casa, algumas portas entre os quartos ficavam sempre trancadas.

Também tinha havido uma briga por dinheiro. Alguns anos antes, Andrew comprara uma casa para a irmã de Abby. As filhas ficaram furiosas. Para compensar, ele deu-lhes também uma casa. A partir daí, Lizzie deixou de chamar Abby de "mãe" e passou a chamá-la de "senhora Borden".

A semana anterior

O fim de julho e o início de agosto de 1892 foram muito quentes.

Emma estava em visita a amigos, numa cidade a cerca de 25 km. Lizzie também tinha viajado por um tempo e voltado.

Nos primeiros dias de agosto, Andrew, Abby e a criada adoeceram, com vómitos violentos. Lizzie disse mais tarde que também se sentira mal. Abby assustou-se. Atravessou a rua até o médico da família e disse-lhe que achava que tinham sido envenenados. O médico pensou que era comida estragada, provavelmente carne que ficara tempo demais no calor.

Segundo um farmacêutico da cidade, na véspera dos assassinatos entrou na sua loja uma mulher que ele identificou como Lizzie. Ela queria comprar ácido prússico, um veneno mortal. Disse que era para limpar uma capa de pele. Ele recusou-se a vender sem receita. Lizzie negou que tivesse sido ela.

No mesmo dia chegou de visita o tio de Emma e Lizzie, irmão da falecida mãe delas. Dormiu no quarto de hóspedes.

Quinta-feira, 4 de agosto

Esse dia pode ser reconstruído quase minuto a minuto, a partir dos depoimentos dados mais tarde no tribunal.

A família tomou o café da manhã cedo. O tio saiu de casa por volta das 8:45 para visitar parentes do outro lado da cidade. Disse que voltaria para o almoço.

Pouco depois das 9:00, Andrew saiu para o centro.

Abby subiu para arrumar a cama do quarto de hóspedes. A criada foi mandada para fora lavar as janelas.

Lizzie desceu à cozinha a certa altura daquela manhã. Mais tarde disse que não tinha comido nada.

Por volta das 10:30, Andrew voltou para casa. A porta da frente estava trancada por dentro com 3 fechaduras. A criada foi abrir. Teve dificuldade com a fechadura e soltou um pequeno palavrão.

Então ouviu uma risada no alto da escada. Segundo ela, era Lizzie, de pé no patamar do andar de cima.

Esse detalhe tornou-se um dos mais importantes de todo o caso. Do patamar via-se o interior do quarto de hóspedes. O corpo de Abby estava no chão desse quarto. Se Abby já estivesse morta naquele momento, argumentaria depois a acusação, então Lizzie estava a poucos metros dela.

Lizzie desceu. Disse ao pai que Abby tinha saído. Contou que chegara um bilhete pedindo que ela fosse visitar uma amiga doente.

Andrew sentou-se no sofá da sala. A criada terminou as janelas da sala de jantar. Por volta das 10:55, ainda fraca da doença dos dias anteriores, subiu ao seu quarto no terceiro andar para se deitar um pouco.

Por volta das 11:10, ouviu Lizzie a chamá-la lá de baixo, da escada dos fundos:

"Desce depressa! O pai está morto! Alguém entrou e matou-o!"

O que a polícia encontrou

Andrew Borden estava deitado no sofá, vestido, com os pés no chão. Tinha levado cerca de 10 ou 11 golpes na cabeça e no rosto, com uma lâmina pesada e afiada. Um olho estava partido ao meio. O sangue ainda estava fresco. Parecia estar a dormir quando o primeiro golpe o atingiu.

Lizzie mandou a criada chamar o médico da frente. Uma vizinha apareceu. Alguém perguntou onde estava Abby.

Lizzie disse que lhe parecia tê-la ouvido entrar.

A criada e a vizinha subiram. A meio da escada, à altura do chão do quarto de hóspedes, a vizinha viu Abby deitada de bruços entre a cama e a cómoda.

Abby levara 18 ou 19 golpes na nuca. O primeiro parece tê-la atingido quando ela estava de frente para quem a matou.

Os médicos repararam numa coisa de imediato. O sangue de Andrew ainda escorria. O de Abby estava escuro e coagulado. O corpo dela estava mais frio.

Abby tinha morrido primeiro. Pelo menos uma hora antes do marido, talvez mais.

Esse facto está no centro do mistério. Durante uma hora ou mais, o assassino esteve dentro da casa, ou entrou e saiu 2 vezes, enquanto Lizzie, a criada e depois Andrew estavam lá.

Onde estava Lizzie?

Os primeiros polícias começaram a fazer perguntas em poucos minutos.

Lizzie contou-lhes que, enquanto o pai descansava no sofá, tinha ido ao celeiro atrás da casa. Disse que subira ao sótão do celeiro para procurar pedaços de metal para fazer chumbadas de pesca. Disse que ficara lá uns 20 minutos, talvez meia hora. E que, ao voltar para casa, encontrara o pai morto.

Nessa mesma tarde, um polícia subiu ao sótão do celeiro. Mais tarde declarou que o chão estava coberto por uma camada grossa de pó intacto. Não viu pegadas. Para testar, apertou a própria mão contra o pó, e a marca ficou nítida. Na opinião dele, ninguém tinha subido ali naquela manhã.

Mais tarde a defesa apresentou testemunhas que disseram que vários rapazes do bairro tinham subido ao sótão pouco depois dos assassinatos, antes de o polícia chegar. Isso lançou dúvidas sobre o que ele vira.

Os relatos da própria Lizzie não se mantiveram iguais. A pessoas diferentes, naquele dia, disse que ouvira um gemido, que não ouvira nada, que estava no celeiro, que estava no quintal, que estava a comer peras debaixo de uma árvore.

Várias pessoas que a viram na primeira hora notaram outra coisa. Estava calma. Não chorava. E não lhe viram sangue: nem no cabelo, nem no rosto, nem nas mãos, nem no vestido.

Matar 2 pessoas com tantos golpes teria, quase com certeza, sujado de sangue o assassino.

A busca na casa

No porão, a polícia encontrou 4 ferramentas com lâmina: 2 machados, uma machadinha com pé-de-cabra e a cabeça de uma machadinha pequena cujo cabo de madeira tinha sido partido.

Essa cabeça partida foi o que mais interessou aos investigadores. A quebra da madeira parecia recente. A lâmina estava coberta por uma camada de cinza, como se tivesse sido esfregada de propósito, e o pó nela era diferente do das outras ferramentas.

Na autópsia, os estômagos das 2 vítimas foram retirados e enviados a um professor de química da Universidade de Harvard, para procurar veneno. Ele não encontrou nenhum. Também analisou os machados. Não encontrou sangue neles.

O bilhete que, segundo Lizzie, chamara Abby para fora de casa nunca foi encontrado. Ninguém disse tê-lo escrito. A amiga doente nunca foi identificada, embora os jornais pedissem ao autor do bilhete que se apresentasse.

A polícia encontrou também no porão um balde com panos encharcados de sangue. Lizzie disse que era da menstruação. A polícia não analisou o balde.

Um médico que morava perto contou que, naquela manhã, ao passar pela rua, vira um homem estranho perto da casa. Os jornais deram muito destaque a isso. Esse homem nunca foi encontrado.

O tio que dormira no quarto de hóspedes foi interrogado a fundo. Descreveu a sua manhã com pormenor e precisão. Uma multidão na rua vaiou-o. Mas o seu álibi foi confirmado. Na hora dos crimes estava do outro lado da cidade, com parentes.

A criada também foi interrogada. Não tinha motivo, não tinha sangue, e a maior parte da sua manhã era explicada pelo trabalho que fazia lá fora.

O vestido queimado

No domingo de manhã, 3 dias depois dos assassinatos, uma amiga íntima de Lizzie estava hospedada na casa.

A amiga entrou na cozinha. Viu Lizzie junto ao fogão, segurando um vestido azul-claro. Lizzie disse que ia queimá-lo porque estava velho e sujo de tinta. Rasgou-o e pô-lo no fogo.

A amiga disse-lhe: "No teu lugar, eu não deixaria ninguém ver-me a fazer isso, Lizzie."

No dia seguinte, a amiga contou à polícia.

Era o vestido que Lizzie usara na manhã dos crimes? Isso nunca foi provado. O vestido que Lizzie entregou à polícia como o que usara naquela manhã não tinha sangue. Algumas pessoas que a viram naquela manhã disseram que ela usava um vestido azul-claro. Outras descreveram-no de outra forma.

O inquérito fechado e a prisão

Poucos dias depois realizou-se uma audiência fechada. Lizzie foi interrogada durante 3 dias, sem o seu próprio advogado. O médico estava a dar-lhe um calmante para conseguir dormir.

As respostas dela foram confusas. Deu versões diferentes sobre onde estava quando o pai chegou a casa: a ler na cozinha, a passar roupa na sala de jantar, a descer a escada.

Em 11 de agosto de 1892, uma semana depois dos crimes, Lizzie Borden foi presa e acusada do assassinato do pai. Ficou na cadeia.

Algumas semanas depois, noutra audiência, o juiz disse que a considerava "provavelmente culpada". Em 2 de dezembro de 1892, um grande júri acusou-a formalmente dos 2 assassinatos.

Desde o primeiro dia, o caso dividiu o país. Muita gente simplesmente não conseguia acreditar que uma mulher respeitável, de boa família e que ia à igreja, fosse capaz de algo assim.

O julgamento

O julgamento começou em 5 de junho de 1893 em New Bedford, uma cidade portuária a cerca de 25 km a leste de Fall River. Durou cerca de 2 semanas. Vieram jornalistas de todos os Estados Unidos.

A defesa dela incluía um ex-governador de Massachusetts.

Antes de começar, a defesa ganhou 2 batalhas importantes. Os juízes decidiram que não se podia usar o que Lizzie dissera na audiência fechada, porque não fora devidamente advertida nem lhe tinham permitido um advogado. E decidiram que a história do farmacêutico sobre o veneno não podia ser ouvida, por estar demasiado longe da forma como as vítimas realmente morreram.

A acusação apoiou-se em 3 pontos. Primeiro: Lizzie tinha motivos para os querer mortos, uma herança e o ódio à madrasta. Segundo: teve a oportunidade, porque estava em casa. Terceiro: depois queimou um vestido.

Mas a acusação não tinha nenhuma testemunha dos crimes. Não havia sangue em Lizzie. Não havia prova de que a machadinha partida fosse a arma. Nem os polícias se entendiam. Um disse que o cabo partido fora encontrado ao lado da cabeça. Outro disse que não.

Os crânios de Andrew e Abby foram levados ao tribunal para mostrar como as feridas correspondiam à lâmina. Quando foram mostrados, Lizzie desmaiou.

A criada depôs durante horas. O seu relato da risada na escada não mudou.

Depois depôs pela defesa um vendedor ambulante de sorvetes. Disse que, mais ou menos à hora do assassinato de Andrew, passara de carroça em frente à casa e vira uma mulher a caminhar do celeiro para a casa. Isso apoiava a história de Lizzie sobre o celeiro.

Poucos dias antes do início do julgamento, outro crime abalou Fall River. Uma jovem foi morta a machadadas numa quinta da cidade. Os jornais compararam-no logo ao caso Borden. Mais tarde, um trabalhador rural foi condenado por esse crime. Ficou provado que ele não estava na região em agosto de 1892, portanto não podia ter matado os Borden.

O veredicto

No fim do julgamento, o juiz deu as suas instruções ao júri. Falou longamente sobre a fraqueza das provas circunstanciais. Lembrou-lhes que o comportamento calmo dela não era prova de culpa. Muitos observadores acharam que as palavras dele pendiam abertamente para a defesa.

Os 12 jurados, todos homens, retiraram-se para deliberar em 20 de junho de 1893. Os jornais da época disseram que chegaram a acordo logo na primeira votação, em cerca de 40 minutos. Relatos posteriores falam de uma hora e meia.

Inocente.

Lizzie Borden saiu do tribunal como uma mulher livre. A lei disse que ela era inocente, e a lei nunca disse outra coisa.

Onde o caso está hoje

Mais ninguém foi acusado da morte de Andrew e Abby Borden. O caso nunca foi reaberto.

**Aqui acaba o que está documentado: 2 assassinatos, 1 pessoa julgada e absolvida, e nenhuma prova contra mais ninguém.**

Várias coisas que talvez dessem a resposta nunca foram encontradas ou nunca foram analisadas. A arma verdadeira nunca foi provada. Os panos do balde não foram analisados. A polícia nunca viu o vestido queimado. O bilhete para Abby nunca apareceu, nem quem o escreveu. Métodos modernos, como a análise de vestígios de sangue ou de ADN, não existiam em 1892.

Depois do julgamento, Lizzie e Emma herdaram a fortuna do pai. Compraram uma casa grande na colina, a parte de Fall River onde viviam as famílias ricas. Lizzie passou a chamar-se Lizbeth.

A cidade nunca a aceitou. Muita gente mudava de passeio ao vê-la. Em 1905, depois de uma discussão, Emma saiu de casa, e as 2 irmãs nunca mais se viram.

Lizzie Borden morreu em 1 de junho de 1927, aos 66 anos. Emma morreu 9 dias depois. As 2 foram enterradas no jazigo da família, ao lado do pai e da madrasta.

A casa do número 92 da Second Street continua de pé. Hoje é museu e pousada.

As teorias

Todas as pessoas alguma vez mencionadas neste caso morreram há muitas décadas. Estas são teorias de escritores e investigadores, não conclusões de nenhum tribunal.

**Foi Lizzie, como disse a acusação.** A favor: esteve em casa o tempo todo, as versões dela mudaram, e ela queimou um vestido. O problema: nunca lhe encontraram sangue, e um júri absolveu-a.

**Lizzie fê-lo numa espécie de apagão mental, sem ter consciência.** Uma escritora que cresceu em Fall River propôs isto num livro de 1967. O problema: não há nenhum registo médico que o sustente.

**A criada esteve envolvida ou ajudou a esconder provas.** Um autor de romances policiais propôs isto nos anos 80 e 90. O problema: ela não tinha motivo, e a história de uma confissão tardia nunca foi confirmada.

**Um estranho entrou e escondeu-se na casa.** O problema: teria de esperar pelo menos uma hora entre os 2 crimes, dentro de uma casa pequena, sem que ninguém o visse ou ouvisse.

A casa tem agora mais 130 anos. A pergunta continua a ser a mesma que o júri teve à frente: se não foi Lizzie Borden, quem foi?

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