UM CASO REAL
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O assassinato de Charles Walton: um idoso preso a uma colina pela própria forquilha e o caso que a Scotland Yard nunca fechou

2026-11-07 · · Crimes por resolver · 6 min de leitura

Na manhã de quarta-feira, 14 de fevereiro de 1945, um homem idoso saiu da sua casinha numa pequena aldeia inglesa e subiu o caminho em direção à colina.

Chamava-se Charles Walton. Tinha 74 anos.

Ao ombro levava 2 ferramentas: uma forquilha e uma podoa, uma lâmina pesada e curva com cabo de madeira, usada para aparar sebes. Levava também a bengala. O reumatismo endurecia-lhe as articulações e sem ela não ia longe.

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Alguém o viu atravessar o cemitério da igreja entre as 9:00 e as 9:30 da manhã. Segundo os registos, foi a última vez que alguém da aldeia o viu com vida.

A aldeia chama-se Lower Quinton. Fica em Inglaterra, no condado de Warwickshire, perto de Stratford-upon-Avon, a cidade onde Shakespeare nasceu. Acima da aldeia ergue-se uma colina solitária, Meon Hill. Walton viveu ali a vida inteira.

Ao fim do dia encontraram-no morto na encosta, preso ao chão pela sua própria forquilha.

O assassinato de Charles Walton nunca foi resolvido. É o homicídio por resolver mais antigo nos arquivos da polícia de Warwickshire.

Quem ele era

Charles Walton nasceu a 12 de maio de 1870. Trabalhou a terra toda a vida e, em novo, domou cavalos.

A mulher morreu em dezembro de 1927. Não tiveram filhos. Mas cerca de 30 anos antes da sua morte, uma sobrinha pequena chamada Edith perdeu a mãe, e Walton levou para casa a menina de 3 anos. Edith cresceu com ele como filha.

Em 1945 Edith tinha 33 anos. Vivia com o tio numa casinha alugada e trabalhava na tipografia de uma organização de Londres que, durante a guerra, mudara o trabalho para a aldeia para fugir aos bombardeamentos.

Walton era um homem calado e reservado. Vivia de uma pensão de velhice de 10 xelins por semana e de trabalhos ocasionais. Nos últimos 9 meses trabalhava numa quinta chamada "Os Abetos", na encosta de Meon Hill, a aparar sebes à hora.

A 14 de fevereiro subiu a um campo dessa quinta. Disse a Edith que voltaria por volta das 4 da tarde.

A noite

Edith chegou do trabalho por volta das 6 da tarde. A casa estava às escuras. O tio não estava.

Não era costume dele. Edith chamou um vizinho e os 2 foram à quinta perguntar ao administrador, o homem para quem Walton trabalhava. Este disse que o vira nesse dia junto à sebe. Os 3 subiram a colina às escuras, com uma lanterna.

Encontraram-no junto à sebe que estava a aparar. Edith gritou. O vizinho segurou-a para que não visse mais. O administrador mandou um homem que passava chamar a polícia.

O que a cena mostrava

O polícia da aldeia chegou às 7:05 da tarde. Um professor de medicina legal chegou à colina às 11:30 da noite. O corpo só foi retirado à 1:30 da madrugada.

Walton fora atingido na cabeça com a própria bengala, encontrada a cerca de 3 metros do corpo, com sangue e cabelos. A garganta fora cortada com a sua própria podoa, cuja lâmina ficou espetada no pescoço. Os 2 dentes da forquilha estavam cravados no chão dos dois lados do pescoço, e o cabo preso sob uma travessa da sebe.

A autópsia revelou costelas partidas, nódoas negras no peito, cortes na mão esquerda e hematomas na mão e no antebraço direitos. Ele tentara defender-se. O professor situou a morte entre a 1 e as 2 da tarde e concluiu que foram usadas 2 armas: uma que perfurava e outra que cortava.

Faltava o relógio de bolso.

Muitos livros posteriores dizem que lhe gravaram uma cruz no peito. O relatório do professor não menciona nenhuma cruz.

Chega a Scotland Yard

A 15 de fevereiro a polícia de Warwickshire pediu ajuda à Scotland Yard. A mensagem apontava 2 hipóteses: um louco ou um dos prisioneiros de guerra italianos de um campo próximo. Os prisioneiros andavam com bastante liberdade pela zona, e ninguém registava as suas saídas.

A 16 de fevereiro chegou o detetive mais conhecido da Scotland Yard, o inspetor-chefe Robert Fabian, com um sargento. No mesmo dia chegou um agente fluente em italiano para interrogar os prisioneiros.

Verificou-se que nessa tarde uns prisioneiros estavam numa peça de teatro em Stratford e outros no cinema. Segundo o processo policial, nenhum foi alguma vez considerado suspeito sério.

Um muro de silêncio

Segundo um relato posterior do caso, a polícia ouviu mais de 500 pessoas, algumas delas crianças de 11 anos. Soldados com detetores de minas varreram a encosta à procura do relógio. Nada encontraram.

Fabian escreveu mais tarde que esbarrou num muro de silêncio. Não apareceu nenhum inimigo. Walton não tinha dinheiro que valesse um roubo; nesse dia deixara até a bolsa em casa. A polícia não encontrou um motivo claro.

O administrador da quinta

Aos poucos, a atenção de Fabian fixou-se no administrador da quinta, um homem de 40 anos. Nunca foi acusado de nada e, perante a lei, é inocente. O que se segue é apenas o que consta dos documentos da polícia.

Na noite do crime parecia muito perturbado, tremia e preparava-se para sair antes de chegarem os detetives. Disse que até ao meio-dia esteve no pub da aldeia com outro agricultor, que o confirmou. Depois, segundo ele, viu Walton ao longe em mangas de camisa. A hora mudou de depoimento para depoimento: 12:10, 12:15, 12:20. Mas o corpo vestia um casaco por cima da camisa.

Primeiro disse que, depois do almoço, foi ver uma novilha afogada numa vala. Mas a novilha morrera na véspera, a 13 de fevereiro, e a carcaça fora retirada às 3:30 da tarde do dia 14. A 23 de fevereiro mudou a versão. Fabian escreveu que o administrador estava "sem dúvida a mentir".

A 20 de fevereiro disse que tocara nas armas por sugestão do vizinho; o vizinho negou. Não se encontraram impressões digitais úteis. Nas calças do administrador o professor viu 2 manchas que julgou serem sangue, mas estavam tão lavadas que não puderam ser analisadas.

**Aqui acabam as provas. Fabian julgava saber quem o fez, mas não tinha nada que o provasse em tribunal.**

O próprio Fabian escreveu que não havia "nenhuma prova real que o ligue ao assassinato, nem qualquer motivo razoável". Nunca houve acusação. O administrador morreu há muitos anos.

Como nasceu o "crime de bruxaria"

A cerca de 24 km, em 1875, uma idosa fora morta à forquilha; o assassino disse que ela era bruxa. Um livro de folclore local de 1929 falava de um jovem lavrador chamado Charles Walton que em 1885 viu um cão negro fantasma em Meon Hill. Ninguém provou que fosse o mesmo homem.

Os jornais falaram de "mau-olhado" e de sapos. Os relatórios de Fabian de 1945 não dizem uma palavra sobre bruxaria. Só anos depois, nos seus livros populares, ele próprio falou de um "rito pagão".

Segundo um relato publicado em 1995, o relógio de Walton apareceu em 1960 num barracão da sua antiga casa.

Onde está o caso

Por resolver. As 3 armas eram da própria vítima, não havia impressões digitais e a única possível prova de sangue perdeu-se na lavagem.

As teorias

**O administrador da quinta.** Era a convicção de Fabian. O problema: o próprio Fabian admitiu que não havia provas nem motivo. Nunca foi acusado e presume-se inocente.

**Um forasteiro ou um louco.** A primeira ideia da polícia local. O problema: nenhum estranho foi visto ou encontrado.

**Um prisioneiro italiano.** O problema: os prisioneiros tinham álibi e nenhum foi suspeito sério.

**Um crime ritual de bruxaria.** A teoria mais famosa. O problema: não aparece na investigação de 1945; nasceu de livros e jornais posteriores.

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