UM CASO REAL
Resolvido

12 anos, 52 vítimas e um exame de sangue que mentiu: como Andrei Chikatilo foi pego

2026-10-30 · · Os crimes mais graves, resolvidos · 11 min de leitura

Na região de Rostov, no sul da Rússia, no início dos anos 80, as pessoas começaram a falar das faixas florestais.

Eram fileiras estreitas de árvores, plantadas entre os campos para quebrar o vento. Estendiam-se por quilômetros ao lado das linhas de trem e das estradas. Quem ia a pé de uma pequena estação até uma aldeia muitas vezes tinha de atravessar uma delas.

Entre 1978 e 1990, corpos apareceram repetidas vezes nessas faixas e nos parques, pomares e campos próximos. Meninos e meninas. Mulheres jovens. Muitos viajavam sozinhos. Muitos foram vistos pela última vez num ponto de ônibus ou numa estação de trem.

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Todos foram mortos a faca, com uma violência que chocou até detetives experientes.

Esta é a história de Andrei Chikatilo, o homem mais tarde chamado de "Estripador de Rostov", e da caçada de 12 anos que finalmente o pegou. Em 1992 ele foi condenado por 52 assassinatos.

No caminho, a investigação mandou um inocente para o pelotão de fuzilamento, empurrou homens vulneráveis para confissões falsas e manteve o verdadeiro assassino numa cela por 3 meses - e depois o soltou.

Um homem quieto com uma pasta

Andrei Chikatilo nasceu em 16 de outubro de 1936, numa aldeia da Ucrânia, que na época fazia parte da União Soviética. Serviu o exército de 1957 a 1960. Em 1961 começou a trabalhar como engenheiro de comunicações perto de Rostov do Don, a principal cidade da região.

Em 1963 se casou. Ele e a mulher tiveram 2 filhos. Em 1970 formou-se em literatura russa num curso a distância, e a partir de 1971 trabalhou como professor.

A carreira de professor terminou mal. Saiu de uma escola depois de queixas de alunos. Em março de 1981 deixou o ensino de vez, após novas denúncias de que tinha molestado crianças.

Passou a ser encarregado de suprimentos numa fábrica. O trabalho o fazia viajar por toda a região e além dela, de trem e de ônibus.

Para um homem como ele, era o disfarce perfeito. Um funcionário de meia-idade com uma pasta, esperando numa plataforma, era a cena mais comum da União Soviética.

O primeiro assassinato e o homem errado

O primeiro crime que mais tarde seria provado contra ele aconteceu em 22 de dezembro de 1978, em Shakhty, uma cidade mineira da região de Rostov.

Yelena Zakotnova tinha 9 anos. Voltava para casa de uma pista de patinação no gelo quando um homem falou com ela.

O corpo dela foi encontrado 2 dias depois, em 24 de dezembro, debaixo de uma ponte sobre o rio Grushevka.

A polícia encontrou um suspeito depressa. Aleksandr Kravchenko era um operário que já tinha uma condenação anterior. Foi preso e interrogado. Confessou - sob pressão, como disse depois - e em seguida voltou atrás.

Mesmo assim foi condenado à morte. Em dezembro de 1980 o Supremo Tribunal reduziu a pena para 15 anos de prisão.

Mas os parentes da menina continuaram pressionando. Kravchenko foi julgado de novo e condenado de novo. Em julho de 1983 foi fuzilado.

Ele não tinha matado Yelena Zakotnova. Quem a matou foi Andrei Chikatilo. Só em 1992 um tribunal disse isso.

Surge um padrão

Em setembro de 1981, Larisa Tkachenko, de 17 anos, desapareceu enquanto esperava o ônibus de volta para o internato. Foi encontrada morta.

Em 12 de junho de 1982, Lyubov Biryuk, de 13 anos, foi levada quando voltava das compras na aldeia de Donskoi. A morte dela foi a primeira da série que a polícia ligou a uma única caçada.

Ao longo de 1982 apareceram mais corpos. O método era sempre o mesmo.

O assassino abordava a vítima num lugar público: uma estação, um ponto de ônibus, um trem. Oferecia ou prometia alguma coisa. Depois levava a vítima a pé para o bosque ou para um campo aberto, longe de qualquer testemunha. E ali usava a faca.

Em janeiro de 1983, 4 assassinatos foram ligados provisoriamente a um único autor. Moscou mandou para Rostov uma equipe de investigadores. No começo eram cerca de 10 pessoas.

Em março de 1983, um analista forense chamado Viktor Burakov foi nomeado para comandar a caçada. Em 6 de setembro de 1983 a promotoria soviética ligou oficialmente 6 assassinatos a um só homem.

Os suspeitos errados

O que veio depois é a parte mais sombria da investigação.

Não havia testemunha nem nome. Então a polícia foi procurar entre as pessoas que lhe pareciam prováveis.

A partir de setembro de 1983, vários jovens com deficiência intelectual foram levados e interrogados durante horas. Alguns confessaram. As confissões não batiam com os fatos. E enquanto eles estavam presos, os assassinatos continuavam.

A polícia também perseguiu homens homossexuais e criminosos sexuais conhecidos. A pressão foi tão pesada que 3 homens homossexuais e 1 criminoso sexual condenado tiraram a própria vida.

Viktor Burakov já não acreditava em confissões. Tinha visto confissões demais, arrancadas em interrogatórios longos, que desmoronavam assim que eram conferidas.

Como efeito colateral, a enorme varredura resolveu mais de 1.000 crimes sem relação com o caso. O crime para o qual tinha começado, ela não resolveu.

Setembro de 1984: o assassino numa cela

Então, em 13 de setembro de 1984, a investigação ficou a um passo da resposta.

2 detetives à paisana observavam a multidão em Rostov. Repararam num homem de meia-idade que se aproximava várias vezes de mulheres jovens e tentava puxar conversa. Seguiram-no até o mercado central e ali o prenderam.

Era Andrei Chikatilo.

Na pasta dele encontraram uma faca, um pedaço de corda e um pote de vaselina.

Ele ficou detido enquanto verificavam se tinha ligação com os assassinatos. O teste principal era o sangue.

Nos locais de 6 assassinatos de 1984, o assassino tinha deixado sêmen. O laboratório o classificou como grupo sanguíneo AB. O sangue de Andrei Chikatilo era do grupo A.

O resultado não batia. Os investigadores, na prática, o descartaram como suspeito.

Ele não foi solto de imediato. Ficou preso por outra acusação, um furto sem relação com os crimes. Foi condenado, expulso do Partido Comunista e sentenciado a 1 ano. Em 12 de dezembro de 1984, depois de 3 meses detido, saiu livre.

Pouco antes, em 8 de outubro de 1984, a promotoria tinha reunido oficialmente 23 assassinatos num único caso e retirado as acusações contra os homens que haviam confessado antes.

**No dia em que ele saiu, ninguém na investigação sabia que o próprio assassino acabava de ser solto.**

A caçada cresce

Em novembro de 1985, um promotor especial foi designado para comandar o caso inteiro. Nessa altura a equipe já tinha 15 promotores e 29 detetives.

No mesmo ano, Viktor Burakov procurou um psiquiatra, Aleksandr Bukhanovsky. Pediu que ele descrevesse o homem que estavam procurando.

Bukhanovsky escreveu um perfil de 65 páginas. Algumas fontes o descrevem como o primeiro perfil psicológico usado numa investigação criminal soviética.

Ele descrevia um homem entre 45 e 50 anos. Solitário. Impotente. Sádico. De inteligência comum. E com um emprego que o fazia viajar seguindo um horário.

Cada ponto se encaixava em Andrei Chikatilo. Mas ninguém ligou o perfil ao funcionário preso no mercado.

O trabalho o levava para longe de casa, e os assassinatos iam com ele. Os registros do caso incluem vítimas que ele atraiu para fora de trens longe da região: uma em Tashkent, na Ásia Central, e outra em Leningrado, a cidade que hoje se chama São Petersburgo.

Em 1988 chegou aos investigadores uma circular oficial. Dizia que, em casos raros, o grupo sanguíneo de um homem podia ser diferente do grupo encontrado no sêmen e na saliva dele. Nem então alguém voltou ao funcionário de 1984.

Outubro de 1990: a armadilha nas estações

Em 1990 os investigadores tinham certeza de pelo menos uma coisa. O assassino se deslocava de trem, e muitas vítimas tinham sido levadas de pequenas estações nas mesmas linhas.

Em 27 de outubro de 1990 a polícia lançou uma nova operação. Colocou 360 homens nas estações de trem da região de Rostov.

Nas estações grandes, policiais fardados ficavam à vista nas plataformas. Nas 3 menores estações da linha principal, onde parecia não haver motivo para pôr ninguém, colocaram agentes à paisana.

A ideia era simples. Um assassino que visse policiais nas estações grandes iria para as pequenas. E lá alguém estaria olhando.

6 de novembro de 1990: a última vítima

Em 6 de novembro de 1990, Svetlana Korostik, de 22 anos, foi morta no bosque perto de uma pequena estação chamada Donleskhoz.

No mesmo dia, um agente à paisana da estação parou um homem. Vários detalhes nele pareceram estranhos ao agente. Mas não havia corpo nem queixa de crime, então ele não tinha motivo para prendê-lo.

Fez o que a operação exigia. Conferiu os documentos do homem e anotou o nome dele.

O nome era Andrei Chikatilo.

Em 13 de novembro de 1990 o corpo de Svetlana Korostik foi encontrado perto da estação. Era a 38ª morte ligada à caçada.

Os investigadores examinaram os nomes anotados naquela estação. Um deles era de um homem que já tinha sido preso em 1984, com uma faca e uma corda na pasta.

A prisão

A partir de 14 de novembro de 1990 ele foi mantido sob vigilância.

Em 20 de novembro de 1990 foi preso em Novocherkassk, uma cidade da região. Tinha um ferimento num dedo. Os médicos legistas concluíram que era uma mordida humana.

Em 21 de novembro o sangue dele foi testado de novo. Grupo A, exatamente como em 1984. Desta vez também colheram uma amostra de sêmen. O resultado: grupo AB. O mesmo das amostras dos locais dos crimes.

Durante dias ele negou tudo. A lei permitia mantê-lo preso por 10 dias. Depois disso era preciso acusá-lo ou soltá-lo.

A confissão

Em 29 de novembro de 1990, com o prazo quase no fim, Viktor Burakov tomou uma decisão incomum. Deixou o psiquiatra Aleksandr Bukhanovsky falar com o preso.

Bukhanovsky sentou-se com ele e leu trechos do perfil que tinha escrito 5 anos antes.

Andrei Chikatilo começou a chorar. E então começou a confessar.

A acusação foi apresentada no mesmo dia, antes que os 10 dias acabassem. Em 30 de novembro de 1990 ele foi formalmente acusado de 36 assassinatos.

Admitiu 36 dos 38 casos que a polícia tinha ligado a ele e negou os outros 2. Nos dias seguintes confessou cerca de 20 a mais, que a polícia nunca tinha ligado ao caso.

Em dezembro de 1990 levou os investigadores ao campo. Mostrou a eles o corpo de Aleksei Khobotov e os restos de outras vítimas.

No fim, confessou 56 assassinatos.

O julgamento

Em 20 de agosto de 1991 ele foi enviado ao Instituto Serbsky, em Moscou, o principal centro psiquiátrico do país, para uma avaliação de 60 dias. Em 18 de outubro de 1991 os psiquiatras concluíram que ele tinha um transtorno de personalidade com traços sádicos e que estava apto a ser julgado.

O julgamento começou em 14 de abril de 1992, no tribunal regional de Rostov. Ele era acusado de 53 assassinatos e 5 agressões sexuais.

Ficava sentado dentro de uma jaula de ferro. Ela tinha sido construída para protegê-lo das famílias das vítimas, que estavam na sala.

O comportamento dele no tribunal era descontrolado. Gritava por cima do juiz. Chamava o tribunal de farsa. Cantava hinos socialistas. Às vezes se despia. O juiz o repreendeu várias vezes, e em alguns momentos a sessão continuou sem ele.

Em 21 de abril parou de responder perguntas. Em 13 de maio retirou as confissões de 6 dos assassinatos. Também afirmou ter matado mais 4 pessoas que não estavam na acusação.

Em julho, peritos psiquiátricos do Instituto Serbsky disseram ao tribunal que o comportamento dele era calculado: uma tentativa de ser declarado louco.

Em 14 de outubro de 1992 o tribunal o considerou culpado de 52 dos 53 assassinatos e das 5 agressões sexuais. Em 15 de outubro de 1992 ele foi condenado à morte.

No verão de 1993 o Supremo Tribunal analisou o recurso dele. Decidiu que 9 dos 52 assassinatos não estavam suficientemente provados. Confirmou os outros 43 e confirmou a pena de morte.

Em 4 de janeiro de 1994 o presidente da Rússia recusou o pedido de clemência.

Em 14 de fevereiro de 1994, na prisão de Novocherkassk, Andrei Chikatilo foi executado com um único tiro. Tinha 57 anos. Foi enterrado numa cova sem nome no cemitério da prisão.

O que ficou em aberto

O caso foi resolvido. Mas 2 coisas nunca foram totalmente esclarecidas.

A primeira é o exame de sangue de 1984. No julgamento, uma especialista em sorologia declarou que Chikatilo era um caso raro do que ela chamou de "secreção paradoxal": um homem cujo sêmen mostrava um grupo diferente do sangue. Outros especialistas em sorologia e DNA rejeitaram isso. Um deles disse que a causa mais provável eram reagentes de laboratório soviéticos defeituosos, que deram uma leitura falsa. As fontes não concordam, e a questão nunca foi resolvida.

A segunda é Aleksandr Kravchenko. Ele foi fuzilado em 1983 pelo assassinato de Yelena Zakotnova, o crime que abriu a série. A Anistia Internacional registrou que um homem foi julgado e executado por engano pelo primeiro assassinato de Chikatilo.

Os homens que confessaram sob pressão e os 4 que tiraram a própria vida também foram vítimas da caçada. Kravchenko foi o único que o Estado executou.

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