Jack, o Despidor: 6 mulheres, um ano à beira do Tâmisa e um assassino que a Scotland Yard nunca acusou
No inverno de 1964, as mulheres que trabalhavam à noite nas ruas do oeste de Londres tinham medo do rio.
O rio é o Tâmisa. Onde ele faz curvas pelos bairros de Hammersmith e Chiswick, a cerca de 7 km a oeste do centro de Londres, as margens eram cheias de pequenos estaleiros, pubs, oficinas e longas faixas de lama. A maré cobre e descobre essa lama duas vezes por dia.
Entre fevereiro de 1964 e fevereiro de 1965, os corpos de 6 mulheres foram encontrados nessa parte de Londres. Alguns estavam na lama da margem. Outros, em becos, num estacionamento, numa rua residencial tranquila. Todas estavam nuas.
As 6 eram jovens. As 6 viviam da prostituição. A maioria tinha sido estrangulada ou asfixiada.
Os jornais deram ao assassino desconhecido um nome tirado dos crimes sem solução mais famosos da história britânica. Chamaram-no de Jack, o Despidor.
Eis o mistério numa frase: a Scotland Yard montou uma das maiores caçadas humanas da época, interrogou milhares de homens, chegou ao pátio de uma fábrica onde o assassino tinha escondido pelo menos um corpo - e mesmo assim nunca acusou ninguém.
Os assassinatos pararam em 1965. O nome do assassino nunca foi dito num tribunal. Mais de 60 anos depois, ninguém sabe com certeza quem ele era.
Esta é a história desses 12 meses, da investigação que veio depois e do motivo pelo qual ela fracassou.
Antes de a série começar
Alguns investigadores acreditam que o assassino começou antes de 1964. Duas mortes mais antigas costumam ser acrescentadas à lista, embora a polícia da época não as tenha ligado com certeza.
Em 17 de junho de 1959, às 5h10 da manhã, o corpo de uma mulher de 21 anos foi encontrado num parque à beira do rio, em Chiswick. Chamava-se Elizabeth Figg. O vestido estava rasgado na cintura. As marcas no pescoço mostravam que tinha sido estrangulada com as mãos.
A roupa íntima, os sapatos e a bolsa tinham desaparecido. Nunca foram encontrados. Mais tarde, os detetives se perguntaram se ela tinha sido despida dentro de um carro, e se essas coisas simplesmente ficaram no carro quando o corpo foi abandonado.
4 anos depois, em 8 de novembro de 1963, operários limpavam um depósito de lixo junto ao rio, no bairro de Mortlake. Uma pá atingiu um corpo enterrado e, por acidente, decepou a cabeça.
A morta era Gwynneth Rees, de 22 anos, nascida no País de Gales. Tinha desaparecido 6 semanas antes, em 29 de setembro de 1963. Estava nua, exceto por uma meia na perna direita.
As fontes discordam sobre como ela morreu. Segundo uma, não foi possível determinar a causa. Segundo outra, foi estrangulada com uma corda ou uma tira, e faltavam-lhe vários dentes. Esse detalhe - dentes faltando - voltaria a aparecer.
Nenhum dos dois casos foi resolvido. Na época, eram 2 mortes tristes entre muitas numa cidade grande. Em 1964, isso mudou.
O primeiro corpo na margem
Em 2 de fevereiro de 1964, o corpo de uma mulher foi encontrado na margem do Tâmisa, na faixa de lama que aparece na maré baixa, perto da ponte de Hammersmith.
Era Hannah Tailford, de 30 anos, nascida no norte da Inglaterra. Tinha desaparecido em janeiro.
Estava nua. Faltavam-lhe vários dentes. A roupa íntima tinha sido enfiada na sua boca.
Também aqui os registros não batem. Segundo algumas fontes, ela foi estrangulada. Segundo outras, a causa da morte registrada foi afogamento. O que é certo: alguém a despiu e a deixou junto ao rio.
2 meses depois, em 8 de abril de 1964, um segundo corpo foi encontrado na margem, em Chiswick, não longe de onde Hannah Tailford tinha sido achada.
Era Irene Lockwood, de 25 anos. Tinha sido vista pela última vez em 7 de abril, na noite anterior. Estava grávida. A causa da morte registrada foi afogamento.
2 mulheres nuas, as duas trabalhavam na rua, encontradas no mesmo trecho do rio em 9 semanas. A polícia passou a falar abertamente de uma ligação. Também voltou a olhar para o caso de Elizabeth Figg, de 1959.
Uma confissão que desmoronou
No fim de abril de 1964, parecia que a investigação tinha acabado antes de começar de verdade.
Um homem de 57 anos, que trabalhava como zelador num clube de tênis em Londres, entrou numa delegacia. Em 27 de abril, confessou ter matado Irene Lockwood.
Foi acusado e levado a julgamento. Mas no tribunal voltou atrás na confissão. O seu relato tinha detalhes que não batiam com os fatos, e não havia nenhuma outra prova contra ele.
Em 23 de junho de 1964, um júri o declarou inocente. Foi absolvido e, perante a lei, é inocente desse crime. Qualquer relato deste caso tem de dizer isso com clareza.
Àquela altura, isso já não importava para a investigação. Porque, enquanto ele estava detido, o assassino tinha atacado de novo.
A tinta nos corpos
Em 24 de abril de 1964, quando o zelador ainda estava sendo interrogado, o corpo de uma mulher foi encontrado num beco atrás de uma casa em Brentford, um pouco a oeste de Chiswick.
Era Helen Barthelemy, de 22 anos. Tinha desaparecido 2 dias antes, em 22 de abril. Tinha sido estrangulada.
Desta vez, os cientistas do laboratório da polícia encontraram algo novo. Na pele dela havia minúsculas partículas de tinta.
Não era uma tinta que vai parar por acaso na roupa de uma mulher. Os detetives começaram a suspeitar que o assassino trabalhava num lugar onde se pintava com pistola, ou tinha acesso a um, e que o corpo tinha ficado ali antes de ser abandonado.
Em 14 de julho de 1964, um quarto corpo foi encontrado à vista de todos, diante de uma casa numa rua residencial tranquila de Chiswick.
Era Mary Fleming, de 30 anos. Estava desaparecida desde 11 de julho. Moradores contaram à polícia que, pouco antes de o corpo ser achado, ouviram um carro dando marcha à ré na rua.
Também ela tinha sido estrangulada. E no seu corpo, mais uma vez, havia manchas de tinta.
Agora havia um padrão. Cada mulher desaparecia à noite. Cada uma era encontrada dias depois, nua, largada como se tivesse saído de um veículo. E a tinta ligava pelo menos 2 delas ao mesmo lugar desconhecido.
Um carro cinza em Kensington
Na noite de 23 de outubro de 1964, uma mulher de 21 anos chamada Frances Brown entrou no carro de um cliente. Uma amiga que trabalhava com ela viu a cena.
Mais tarde, a amiga descreveu à polícia o homem e o carro. Achava que era um Ford Zephyr ou Zodiac, de cor cinza - carros familiares grandes e comuns na época.
Frances Brown não voltou. Em 25 de novembro de 1964, mais de um mês depois, o seu corpo foi encontrado num estacionamento em Kensington, um pouco a leste de Hammersmith. Tinha sido estrangulada.
Ela tinha um passado público. Em 1963, depôs como testemunha de defesa num famoso julgamento em Londres ligado ao caso Profumo, um escândalo político e sexual que abalou o governo britânico. Um escritor observou que Hannah Tailford também tinha uma ligação distante com os mesmos círculos. Nunca se demonstrou que essa ligação significasse alguma coisa.
Para os investigadores, o carro foi a primeira descrição real que tiveram. Mas Londres estava cheia de Fords cinzentos. Sem placa, não levou a lugar nenhum.
O detetive da Scotland Yard
No fim de 1964, o caso estava nas mãos de um dos detetives mais conhecidos da Scotland Yard, o superintendente-chefe John Du Rose.
Ele assumiu uma equipe que já trabalhava havia meses e deixou clara a dimensão da caçada.
Segundo a fonte mais citada, quase 7.000 homens foram interrogados durante a investigação. Outras fontes dão um número menor, cerca de 1.700 possíveis suspeitos. As fontes discordam, e os dois números aparecem nos registros.
Os investigadores tinham 3 tipos de pistas. Os próprios corpos, despidos e largados. A descrição de um carro cinza. E a tinta.
A tinta era a pista mais forte. Eles acreditavam que, se encontrassem o lugar de onde ela vinha, encontrariam o homem.
A última vítima
Em 16 de fevereiro de 1965, o corpo de uma mulher foi encontrado junto a um galpão de armazenagem atrás do parque industrial Heron, em Acton, um bairro vizinho no oeste de Londres.
Era Bridget O'Hara, de 27 anos, que todos chamavam de Bridie. Estava desaparecida havia 5 semanas, desde 11 de janeiro de 1965.
Morreu asfixiada. E no seu corpo, de novo, havia partículas de tinta industrial.
Mas o legista notou mais uma coisa. O corpo mostrava sinais de ter sido guardado por algum tempo num lugar quente depois da morte, antes de ser deixado ao ar livre.
Isso queria dizer que o assassino tinha onde esconder um corpo durante semanas. Um prédio onde ninguém entrava. Um lugar quente.
O transformador
Os cientistas compararam a tinta do corpo de Bridie O'Hara com a tinta encontrada nas vítimas anteriores. Era a mesma.
A busca passou então a se concentrar no próprio parque industrial Heron. Os policiais percorreram-no prédio por prédio.
Na primavera de 1965, encontraram o que procuravam. Atrás de um dos prédios havia um transformador elétrico, escondido da vista. Embaixo dele havia tinta do mesmo tipo encontrado nos corpos. Em frente havia uma oficina onde se pintava com pistola.
Um transformador libera calor. O espaço em volta fica quente o inverno inteiro. Os detetives acreditaram que era ali que o assassino tinha guardado o corpo de Bridie O'Hara.
Foi o ponto em que a investigação chegou mais perto do próprio assassino. Ele tinha estado ali. Conhecia aquele pátio. Tinha acesso a ele à noite.
O blefe
Então John Du Rose fez algo pouco comum. Foi à imprensa.
Em várias entrevistas coletivas, anunciou que a polícia tinha reduzido a lista de suspeitos a 20 homens. Depois a 10. Depois a 3.
Segundo relatos posteriores, não era verdade. Era um blefe. O objetivo era assustar o assassino - fazê-lo acreditar que a polícia estava prestes a bater à sua porta, e impedi-lo de matar outra vez.
Por causa do blefe ou não, nenhum outro corpo foi encontrado. Bridie O'Hara foi a última.
**Aqui termina a investigação documentada. A polícia nunca prendeu o homem que procurava, e nenhum tribunal julgou o caso.**
O vigia
Os detetives tinham um homem em mente.
Era um vigia escocês que trabalhava no parque industrial Heron. O emprego lhe dava acesso ao pátio do transformador, nas horas em que o lugar estava vazio.
Ele se tornou suspeito depois do assassinato de Bridie O'Hara. Pouco depois de a polícia ligar a tinta ao seu local de trabalho, ele se matou na garagem com os gases do escapamento de um carro.
Deixou um bilhete. Dizia que não aguentava mais, e que o encontrariam na garagem - para poupar a polícia do trabalho de procurá-lo.
Nunca confessou. Nunca foi acusado. Morreu sem que nenhum tribunal avaliasse as provas.
Em 1970, numa entrevista à televisão da BBC, John Du Rose disse que o seu principal suspeito tinha se matado antes que pudessem interrogá-lo. Não disse o nome. Chamou-o apenas de "Big John". Pesquisadores posteriores identificaram "Big John" como o vigia.
Uma revisão do caso feita pela Scotland Yard em 2006 e 2007 descreveu as provas circunstanciais contra ele como "muito fortes".
E, no entanto, há um problema sério. Pesquisas posteriores encontraram indícios de que, na noite em que Bridie O'Hara desapareceu, o vigia estava na Escócia, a centenas de quilômetros. A Scotland Yard sugeriu que os seus registros de trabalho podem ter sido falsificados - mas isso também nunca foi provado.
Onde o caso está hoje
O caso nunca foi resolvido. Ninguém jamais foi acusado dos assassinatos das 6 mulheres de 1964 e 1965. As 2 mortes anteriores nunca foram ligadas oficialmente a eles.
As provas físicas reunidas na época - as amostras de tinta, as roupas, o material dos corpos - provavelmente foram destruídas ou perdidas. Isso significa que os testes modernos de DNA, que resolveram outros assassinatos antigos na Grã-Bretanha, não podem ser usados aqui.
Todos os principais suspeitos citados ao longo dos anos estão mortos. Sem as provas, e sem uma pessoa viva que possa ser interrogada, é muito improvável que o caso seja encerrado algum dia.
Os suspeitos e as teorias
Cada nome desta lista foi proposto por alguém de forma documentada. Nenhum foi condenado por estes assassinatos. Cada um é uma teoria, não um fato.
**O vigia escocês.** Proposto pelo próprio John Du Rose e apoiado pela revisão posterior da Scotland Yard. As provas: o acesso dele ao parque industrial, o momento do suicídio, o bilhete. O problema: segundo a pesquisa, ele estava na Escócia na noite em que Bridie O'Hara desapareceu.
**Um boxeador famoso.** Um ex-campeão britânico de boxe na categoria meio-pesado foi apontado como o assassino por um escritor em 1972, e de novo em 2001 pelo filho de um gângster londrino. Em julho de 1965, poucos meses depois do último assassinato, foi encontrado morto a tiro no próprio carro, aparentemente pelas próprias mãos. As provas: o momento da morte dele e histórias contadas de segunda mão. O problema: não há nenhuma prova sólida, e a polícia afirmou que ele nunca foi suspeito.
**Um detetive de alta patente.** Num livro publicado em 2002, 2 autores acusaram um conhecido superintendente da "Flying Squad" da polícia de Londres. Ele morreu em 1970. O problema: a acusação não se apoia em nenhuma prova publicada.
**Um assassino de crianças do País de Gales.** Em 1921, ainda adolescente, um rapaz da cidade de Abertillery, no País de Gales, assassinou 2 meninas. Era jovem demais para ser enforcado. Foi libertado em 1941 e, em 1947, já morava em Fulham, ao lado de Hammersmith. Morreu em Hammersmith em 1971. Um livro de 2011 e um documentário da BBC, "Dark Son" (O filho sombrio), exibido em janeiro de 2019, apontaram-no como o assassino. As provas: era um assassino comprovado e morava na área certa na época certa. O problema: nada o liga diretamente a nenhuma das mulheres.
6 mulheres - Hannah Tailford, Irene Lockwood, Helen Barthelemy, Mary Fleming, Frances Brown e Bridie O'Hara - e talvez mais 2 antes delas. O assassino esteve no pátio de uma fábrica em Acton, ao lado de um transformador quente, no inverno de 1965. A polícia chegou a poucos metros de onde ele tinha estado.
Mais perto, nunca chegou.