O caso Lesley Molseed: 31 anos, o homem errado e uma tira de fita adesiva
No domingo, 5 de outubro de 1975, por volta do meio-dia, uma mãe de um bairro operário do norte da Inglaterra mandou a filha à mercearia da esquina.
A menina tinha 11 anos. Chamava-se Lesley Molseed.
Era pequena para a idade. Tinha nascido com um problema no coração e aos 3 anos passara por uma cirurgia de coração aberto. Era frágil, e a família cuidava muito dela.
A tarefa era simples. Um pão e um aromatizador de ambiente. A loja ficava a poucos minutos a pé. Ela vestia uma capa de chuva azul e levava 1 libra em moedas.
Foi vista num caminho estreito entre as casas, perto de casa.
Foi a última vez que alguém que a conhecia a viu com vida.
Como ela não voltava, os pais saíram à procura. Por volta das 3 da tarde já tinham chamado a polícia.
O bairro chama-se Turf Hill. Fica nos arredores de Rochdale, uma cidade da Inglaterra a cerca de 16 km ao norte de Manchester.
Três dias na charneca
Durante 3 dias, policiais e vizinhos vasculharam as ruas, os terrenos baldios e os campos em volta do bairro.
Na manhã de quarta-feira, 8 de outubro, por volta das 8 horas, um motorista parou num recuo de uma estrada que atravessa a charneca a leste da cidade.
Viu algo na encosta acima da estrada. Era Lesley.
Estava de bruços na encosta, a cerca de 9 metros acima da pista. O lugar chama-se Rishworth Moor. Fica do outro lado da divisa do condado, em West Yorkshire, a pouca distância de carro da casa dela.
Ela tinha sido esfaqueada 12 vezes. Um dos golpes atingiu o coração. Não havia ferimentos nas mãos nem nos braços, os que aparecem quando alguém tenta se defender. A libra tinha desaparecido.
Houve mais uma descoberta. Na roupa dela, os peritos encontraram vestígios de sêmen. O assassino também a tinha atacado sexualmente.
Este é o caso numa frase: uma menina foi assassinada numa encosta, a polícia condenou um homem que não podia tê-lo feito, e foram precisos 31 anos para encontrar quem de fato o fez.
Como o corpo foi achado em West Yorkshire, o crime ficou com a polícia de West Yorkshire. Um detetive experiente assumiu o comando.
As equipes forenses recolheram tudo o que puderam da encosta e da roupa. A lista chegou a 379 pequenos objetos. Entre eles havia fibras estranhas e restos de cola de papel de parede seca.
O mais importante era o sêmen. Em 1975 não existiam exames de DNA. Mas um cientista podia olhar as manchas ao microscópio e ver se continham espermatozoides.
Ele olhou. E anotou no seu caderno que cabeças de espermatozoides estavam claramente presentes.
Essa anotação é o centro de toda esta história. Vale a pena lembrar dela.
Um suspeito bem perto
Nas semanas seguintes, a polícia ouviu centenas de moradores do bairro.
Entre eles estavam 4 meninas e jovens da região. Disseram que, na véspera do desaparecimento de Lesley, um homem tinha se exibido para elas no bairro.
Deram o nome de um homem da vizinhança. Chamava-se Stefan Kiszko.
Tinha 23 anos. Trabalhava como escriturário numa repartição de impostos. Morava com a mãe, não longe da casa de Lesley. O pai, que viera da Europa Oriental para a Inglaterra, tinha morrido alguns anos antes.
Era um homem grande e desajeitado, lento para falar e para entender. Mais tarde, médicos e psicólogos o descreveram como alguém com a mente de uma criança. As fontes não concordam sobre a idade exata que lhe atribuíram.
Ele tinha uma doença. O corpo dele produzia pouco hormônio masculino, e ele recebia injeções de hormônio.
Também tinha um passatempo estranho. Anotava as placas de carros que, na opinião dele, o tinham incomodado. Para os detetives, um homem que anotava placas e tinha carro parecia alguém capaz de levar uma menina até a charneca.
No carro dele encontraram um saco de balas e algumas revistas para adultos.
Em 21 de dezembro de 1975, 11 semanas depois do crime, a polícia o prendeu.
Ele foi interrogado durante 3 dias. Não havia advogado. A mãe não pôde ficar ao lado dele.
No fim, confessou.
Anos depois explicou por quê. Achava que, se dissesse o que queriam ouvir, o deixariam voltar para casa, para a mãe, no Natal. Depois, pensava, tudo se esclareceria.
Nada se esclareceu. Em 24 de dezembro de 1975, véspera de Natal, ele foi acusado de homicídio.
O que a polícia sabia e não disse
Depois da prisão, a polícia colheu uma amostra dele para comparar com as manchas na roupa de Lesley.
E aqui a investigação esbarrou num problema.
A amostra do suspeito não tinha nenhum espermatozoide. Por causa da doença, o corpo dele não os produzia.
As manchas na roupa de Lesley estavam cheias deles.
Em palavras simples: a prova científica dizia claramente que o sêmen na menina não podia ser do homem que tinha confessado.
Havia um segundo fato. Segundo os registros médicos, o suspeito tinha quebrado o tornozelo alguns meses antes do crime. E o assassino tinha carregado ou conduzido uma menina por uma encosta íngreme.
Nenhum dos dois fatos foi entregue à defesa. O júri não ouviu falar de nenhum deles.
O julgamento
O julgamento começou em 7 de julho de 1976, no tribunal de Leeds.
A acusação se apoiou na confissão e nas 4 testemunhas que diziam que ele tinha se exibido.
A própria defesa dele fez uma escolha que o prejudicou muito. Além de afirmar que ele era inocente, argumentou que, se ele o tivesse feito, não seria plenamente responsável por causa do seu estado mental. Ele nunca concordou com isso. Para o júri, soou como se até o lado dele achasse que ele podia ser culpado.
Em 21 de julho de 1976, depois de 5 horas e 35 minutos, o júri o condenou por maioria de 10 a 2. Ele recebeu prisão perpétua.
Mais ou menos na mesma época, a poucos quilômetros dali, aconteceu algo que ninguém ligou ao caso.
Em 3 de julho de 1976, 4 dias antes do início do julgamento, um jovem da mesma região sequestrou uma menina de 9 anos e abusou dela. Ele se declarou culpado e pagou uma multa de 25 libras. 2 anos depois foi multado de novo, desta vez por abusar de um menino de 7 anos.
Ninguém o investigou em relação a Lesley. Ele tinha histórico de ataques a crianças e vinha do bairro dela. Mas o caso já estava encerrado. A polícia já tinha o seu homem.
Na prisão, o homem condenado por matar uma criança era um alvo.
Outros presos o atacaram várias vezes. Depois de uma agressão, em 1977, ele precisou de 17 pontos. Foi isolado para sua própria proteção.
Em 1978 ele recorreu. O Tribunal de Recurso não encontrou nenhum motivo para duvidar do veredito.
Por volta de 1979, a mente dele começou a se desfazer. Ele desenvolveu esquizofrenia. Passou a acreditar em coisas estranhas sobre o mundo e sobre si mesmo.
Sempre disse que não tinha matado Lesley.
Uma mãe que não desistiu
Do lado de fora, uma pessoa nunca aceitou o veredito. A mãe dele.
Ela não tinha dinheiro nem contatos. Em 1984 escreveu a uma entidade beneficente de apoio jurídico. Por volta de 1987 foi posta em contato com um advogado que aceitou olhar o processo.
O advogado leu tudo e encontrou coisas que não batiam. Juntos, prepararam uma petição ao ministro do Interior, responsável pela polícia e pelas prisões.
Deu certo. Em 1991 o caso foi reaberto.
A segunda investigação
A polícia de West Yorkshire entregou a revisão a um detetive graduado que não tinha participado da investigação original.
A ordem era rever tudo de novo, desde o começo, sem supor nada.
Ele voltou aos registros do laboratório de 1975.
Ali, no caderno do próprio cientista, estava a linha sobre as cabeças de espermatozoides. Estivera lá o tempo todo.
A nova equipe pediu a outro perito que examinasse de novo as lâminas originais do microscópio. Tinham sido guardadas. E ele confirmou: cabeças de espermatozoides, claramente visíveis.
Depois, médicos examinaram o preso. A doença foi confirmada. Ele não produzia esperma, e nunca tinha produzido.
Os investigadores também voltaram às 4 testemunhas. Já adultas, admitiram que a história do homem que se exibia era inventada. Segundo os registros, disseram que tinham feito aquilo "por brincadeira".
Inocentado
Em 17 de fevereiro de 1992 o caso chegou ao Tribunal de Recurso em Londres.
O juiz mais graduado da Inglaterra o julgou com outros 2 juízes. Ele disse que estava provado que aquele homem não podia produzir esperma e, portanto, não podia ter sido o assassino.
A condenação foi anulada. Depois de 16 anos na prisão, Stefan Kiszko estava livre.
Nunca foi livre de verdade. Foi mandado para tratamento num hospital psiquiátrico e saiu em março de 1992. Viveu com a mãe e quase não saía de casa.
Morreu de ataque cardíaco em dezembro de 1993, menos de 2 anos depois de ser inocentado. Tinha 41 anos. A maioria das fontes indica dezembro de 1993; uma indica outubro.
A mãe dele morreu em maio de 1994.
Em 1994, o detetive graduado da investigação original e o cientista forense foram acusados de obstrução da justiça. A acusação era de terem retido as provas que o teriam inocentado.
Em 1995 um magistrado interrompeu o processo. Decidiu que tinha passado tanto tempo que um julgamento justo já não era possível.
Assim, nenhum tribunal decidiu se os 2 homens eram culpados. Perante a lei, são inocentes dessa acusação. O detetive morreu em 2007.
De volta ao começo
Depois de 1992, a polícia estava numa situação terrível. Sabia quem não tinha matado Lesley. Não sabia quem tinha.
Já tinham se passado 17 anos desde o crime.
Aqui a história quase terminou para sempre. Em outubro de 1985, 10 anos depois do crime, a roupa de Lesley tinha sido destruída. Na época, era o procedimento normal num caso resolvido.
Mas uma coisa tinha sobrevivido.
Em 1975, os peritos tinham pressionado tiras de fita adesiva contra a roupa dela para recolher fibras e manchas. Essas tiras foram arquivadas no laboratório. Ninguém as jogou fora.
Na fita ainda havia algumas cabeças de espermatozoides.
Em 1999, com as novas técnicas de DNA, os cientistas conseguiram montar, a partir desses vestígios minúsculos, um perfil genético completo do assassino de Lesley.
Passaram o perfil pelo banco nacional de DNA.
Nenhuma correspondência.
O assassino estava por aí, e desde que o banco existia não tinha tido problemas com a polícia. O perfil ficou no sistema, esperando.
Esperou 6 anos.
Em 1 de outubro de 2005, um homem foi detido na região de Rochdale por uma denúncia de agressão sexual. Não foi acusado. Mas, como em toda detenção daqueles anos, colheram material da parte interna da bochecha, e o DNA dele entrou no banco.
O resultado foi uma correspondência direta com o perfil da roupa íntima de Lesley.
O homem tinha 53 anos. Era taxista e também vendia revistas em quadrinhos. Tinha crescido no bairro de Turf Hill, o mesmo de Lesley, e ainda morava a poucos quilômetros dali.
Era aquele jovem multado em 1976 e 1978 por atacar crianças.
Em 5 de novembro de 2006, a polícia o prendeu pelo assassinato de Lesley Molseed.
O segundo julgamento
O julgamento dele começou em 22 de outubro de 2007, no tribunal de Bradford.
Ele negou tudo.
A defesa argumentou que a amostra de DNA podia estar contaminada. A fita tinha ficado guardada por décadas. No mesmo laboratório, amostras de casos diferentes tinham sido manuseadas.
Uma perita forense disse ao júri que a probabilidade de o sêmen pertencer a outra pessoa que não o acusado era de cerca de 1 em 1 bilhão.
Em 12 de novembro de 2007, 32 anos depois da morte de Lesley, o júri o considerou culpado. Desta vez por unanimidade.
Ele foi condenado à prisão perpétua, com um mínimo de 30 anos antes que a libertação possa sequer ser analisada. Terá pelo menos 83 anos antes de qualquer audiência.
Em julho de 2008 ele tentou recorrer. O Tribunal de Recurso recusou. Um dos juízes chamou os argumentos do recurso de "inteiramente especulativos".
**Aqui termina o que está documentado: um homem foi condenado, o recurso dele foi recusado, e ele nunca admitiu o crime nem contou o que aconteceu na charneca naquele domingo.**
O que os registros não têm é a versão dele. Como encontrou Lesley no caminho, por que ela foi com ele, o que aconteceu no carro e por que escolheu aquela encosta. Só ele sabe, e nunca disse.
Conclusões e questões em aberto
Nos tribunais, o caso está resolvido. Mas deixa mais perguntas do que a maioria dos casos resolvidos.
**Como as provas puderam ficar escondidas por 16 anos?**
A evidência: o caderno do próprio cientista registrou os espermatozoides em 1975. A amostra do suspeito não tinha nenhum. Os dois fatos estavam no processo antes do julgamento.
O problema: os 2 homens acusados de reter as provas nunca foram julgados, então não há decisão sobre o que sabiam, quando e por quê. Uma visão, defendida por quem lutou pela absolvição, é que os investigadores decidiram que tinham o culpado e ignoraram tudo o que apontava para outro lado. Outra visão é que, na época, não se entendeu a importância daquela diferença. Nenhum tribunal examinou nenhuma das duas.
**Por que ninguém olhou para o homem multado em 1976?**
A evidência: 4 dias antes do início do julgamento do homicídio, um homem do mesmo bairro sequestrou e atacou uma menina de 9 anos e, em poucos dias, se declarou culpado. 2 anos depois foi condenado de novo.
O problema: em 1975 e 1976 não havia um sistema nacional de computadores que ligasse crimes, e cada polícia guardava seus próprios arquivos em papel. Lesley foi levada na Grande Manchester e encontrada em West Yorkshire. Os crimes anteriores foram tratados localmente. E depois que um homem confessou e foi condenado, ninguém procurava mais. Se registros melhores o teriam apanhado em 1976, ninguém pode provar.
**Por que a confissão "funcionou"?**
A evidência: um homem assustado e com compreensão limitada, 3 dias de interrogatório, sem advogado, e o desejo de voltar para casa no Natal.
O problema: em 1975 as regras para interrogar suspeitos na Inglaterra eram muito mais fracas. Em 1984 entraram em vigor regras novas, em parte por causa de casos como este. Elas exigem que se ofereça um advogado e que se tenha cuidado especial com pessoas vulneráveis. O caso ainda é ensinado a policiais como exemplo de confissão falsa.
**O assassino atacou mais alguém?**
A evidência: antes de 1979 ele foi condenado por ataques a 2 crianças, e em 2005 foi detido por outra suposta agressão sexual que não resultou em acusação.
O problema: a polícia nunca o ligou publicamente a nenhum outro homicídio. Qualquer ideia de que ele fez mais é suposição, e os registros não a sustentam.
**O que teria acontecido sem a fita?**
Talvez seja a pergunta mais estranha de todas. A roupa foi destruída em 1985. Se um funcionário do laboratório tivesse arrumado o arquivo e jogado fora umas tiras velhas de fita, não haveria DNA em 1999, nem correspondência em 2006, e o assassino de Lesley continuaria sem nome.
A primeira investigação tinha a resposta num caderno e não a usou. A segunda não tinha nada além de alguns pontinhos numa tira de fita, e os usou para encerrar o caso.