UM CASO REAL
Contestado

Dois bilhetes de cinema: trinta e quatro anos depois de um primeiro-ministro ser baleado em plena rua

2026-09-08 · · Crimes por resolver · 10 min de leitura

Olof Palme telefonou ao filho na noite de 28 de fevereiro de 1986 e perguntou se ainda havia bilhetes para o filme.

Tinha cinquenta e nove anos e era primeiro-ministro da Suecia. A sua seguranca fora informada nesse mesmo dia de que nao seria necessaria naquela noite - uma decisao que tomava regularmente e que os seus agentes tinham deixado de contestar, porque ele considerava importante que um primeiro-ministro sueco pudesse andar pela propria capital sem escolta. Era um pais pequeno, e achava que assim devia continuar.

Ele e a mulher, Lisbet, apanharam o metro para o centro da cidade. Encontraram-se com o filho e a namorada dele no cinema Grand, na Sveavagen, uma das principais ruas de Estocolmo, e viram uma comedia sueca chamada Os Irmaos Mozart. Terminou por volta das onze e um quarto. Ficaram la fora a conversar alguns minutos, despediram-se e comecaram a caminhar para sul, em direcao ao metro, de braco dado.

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Na esquina da Sveavagen com a Tunnelgatan, um homem aproximou-se por tras.

Disparou duas vezes. A primeira bala atravessou as costas de Palme e saiu-lhe pelo peito. A segunda roçou Lisbet. O homem correu depois para leste, subiu a Tunnelgatan e um lance de escadas que leva as ruas de cima, e desapareceu.

Eram cerca de meia-noite menos um quarto de uma sexta-feira a noite, numa rua central movimentada. Havia gente no passeio. Um taxista que passava pediu ajuda pelo radio. Duas jovens que estavam perto aproximaram-se de Palme e tentaram socorre-lo. Uma ambulancia levou-o ao hospital, onde foi declarado morto pouco depois da meia-noite. Lisbet sobreviveu.

O primeiro-ministro da Suecia tinha sido morto a tiro em publico, a curta distancia, diante de testemunhas, e o homem que o fez subiu umas escadas e desapareceu na cidade.

Porque e que um primeiro-ministro sueco tinha inimigos

Para perceber a dimensao da investigacao que se seguiu, ajuda perceber em quem se disparou.

Palme nao era uma figura consensual. Liderava os sociais-democratas e cumpriu dois mandatos separados como primeiro-ministro, e passara a vida politica a dizer em voz alta coisas que os chefes de pequenos Estados neutrais geralmente nao dizem. Condenou nos termos mais duros os bombardeamentos americanos no Vietname e marchou por Estocolmo ao lado do embaixador norte-vietnamita, o que provocou uma rutura diplomatica com Washington. Comparou factos daquela guerra a atrocidades historicas, numa linguagem amplamente noticiada e amplamente ressentida. Foi um opositor declarado do apartheid na Africa do Sul e apoiante de movimentos de libertacao noutros lugares. Criticou tambem a Uniao Sovietica, embora isso se tenha recordado menos.

No plano interno era igualmente divisivo. Foi o arquiteto de uma expansao do Estado social sueco e de propostas para transferir propriedade na economia para fundos de trabalhadores, que parte do patronato sueco via como algo proximo da expropriacao. Dentro dos servicos de seguranca suecos e do corpo de oficiais havia quem o considerasse, na melhor das hipoteses, ingenuo quanto a ameaca sovietica, e existiam suspeitas antigas - nunca provadas - sobre o que certos elementos desses servicos pensavam dele.

A consequencia pratica para a investigacao foi que a lista de pessoas e organizacoes com motivo nao era curta. Incluia servicos secretos estrangeiros, interesses da industria de armamento, extremistas politicos internos de mais do que um tipo, e individuos com queixas privadas. Cada uma dessas linhas foi seguida a certa altura ao longo de trinta e quatro anos. Nenhuma produziu uma acusacao.

As primeiras horas, e o que nelas se perdeu

O que aconteceu a seguir e a razao pela qual este caso e estudado nas academias de policia.

Nao existia coordenacao nacional para algo assim, porque nada assim tinha acontecido. Um primeiro-ministro sueco nao fora assassinado na epoca moderna. A resposta inicial foi conduzida localmente, e o responsavel escolheu cedo uma teoria: que era obra de uma organizacao militante curda com presenca na Suecia.

Essa decisao moldou tudo. Os recursos foram para ali. As linhas alternativas foram trabalhadas com menos intensidade, mais tarde, ou nao foram trabalhadas. A teoria acabou por ruir, mas nessa altura os primeiros dias tinham passado, e os primeiros dias sao onde um caso destes se ganha.

Coisas basicas nao foram feitas, ou foram feitas tarde. A arma do crime nunca foi recuperada - um revolver de um tipo especifico e identificavel. As duas balas foram encontradas, mas nao de imediato: uma foi apanhada por um particular e entregue, e a outra foi encontrada na rua na manha seguinte. A zona nao foi eficazmente isolada. Nem todas as testemunhas foram ouvidas com rapidez, e algumas foram ouvidas de formas que depois tornaram o seu depoimento contestavel.

Ha um pormenor do percurso de fuga que nunca deixou de incomodar os investigadores. As escadas que o atirador subiu - uma escadaria publica longa e ingreme que liga a rua de baixo ao bairro de cima - nao sao algo que um estranho a Estocolmo se lembrasse de usar. Nao se veem do local do disparo. Alguem a fugir ao acaso, no escuro, correria muito mais provavelmente ao longo da rua. Quem subiu aquelas escadas ou conhecia bem a cidade ou ja tinha feito aquele percurso antes.

Essa observacao aponta numa direcao incomoda, e foi feita cedo. Sugere alguem local. Nao sugere, por si so, quem.

Nas decadas seguintes a investigacao cresceu ate algo sem precedentes na Suecia: mais de vinte e dois mil pontos de interesse distintos, dezenas de milhares de paginas, um arquivo medido em metros de prateleira. Cerca de cento e trinta pessoas confessaram o homicidio. Nenhuma confissao se aguentou.

O processo acumulou ainda outra coisa, mais dificil de medir e que causou dano real: o caso tornou-se uma obsessao nacional. Investigadores privados, agentes reformados, jornalistas e amadores construiram teorias rivais e defenderam-nas publicamente durante decadas. Escreveram-se livros. Algumas dessas teorias eram trabalho serio. Outras nao, e o ruido tornou progressivamente mais dificil que alguem dentro da investigacao fosse ouvido ao dizer algo prudente.

O homem que foi condenado, e depois nao

Em 1988, dois anos apos o crime, a policia deteve um homem chamado Christer Pettersson.

Era um residente local com cadastro de violencia e dependencia. O caso contra ele assentava sobretudo num reconhecimento: Lisbet Palme apontou-o e identificou-o como o homem que matara o marido a tiro. O filho tambem depos. Em 1989 Pettersson foi condenado pelo homicidio.

Nao ficou condenado. Em recurso, o tribunal considerou o reconhecimento pouco seguro. O modo como a identificacao fora conduzida foi criticado - Pettersson era, no entender do tribunal de recurso, distinguivel dos outros homens de uma forma que minava o exercicio, e Lisbet Palme ja vira entretanto o rosto dele na imprensa. Nao havia arma a liga-lo ao crime nem prova forense. A condenacao foi anulada e ele foi libertado. Um pedido posterior do Ministerio Publico para novo julgamento foi recusado pelo Supremo Tribunal.

Pettersson morreu em 2004. Em varios momentos negou o crime e tambem fez declaracoes que podiam ler-se como admissoes, um padrao comum em pessoas que gostam da atencao e que vale muito pouco como prova em qualquer sentido.

Isso deixou o caso onde estava em 1986, exceto que um homem cumprira pena por ele e fora libertado, e que a viuva do primeiro-ministro fora publicamente desacreditada por um tribunal. Nenhuma dessas duas coisas facilitou os trinta anos seguintes.

O homem da Skandia

A 10 de junho de 2020, trinta e quatro anos e tres meses apos os disparos, o procurador-chefe Krister Petersson - sem parentesco com o condenado em 1989, e a coincidencia de apelidos confundiu este caso durante decadas - deu uma conferencia de imprensa e anunciou que a investigacao tinha terminado.

Nomeou Stig Engstrom.

Engstrom fora designer grafico na seguradora Skandia, cujos escritorios ficavam a curta distancia do local onde Palme foi baleado. Naquela noite estava a trabalhar, a fazer horas extraordinarias. Saiu para a rua imediatamente apos os disparos. Falou com a policia, deu entrevistas a jornais e descreveu o que vira - e ao longo dos anos descreveu-o muitas vezes, em versoes que foram mudando.

Durante a maior parte da investigacao foi uma testemunha. Foi, alias, uma das mais visiveis, porque nao parava de falar com jornalistas. Nos arquivos era conhecido como o homem da Skandia.

O caso que o procurador expos em 2020 era circunstancial, e ele disse-o. Engstrom estivera exatamente no sitio certo no momento exato. O seu relato dos proprios movimentos nao batia certo com o que outras testemunhas descreveram, e as discrepancias eram de um tipo que tornava mais dificil coloca-lo na cena como transeunte do que como outra coisa. Fizera servico militar com instrucao de armas e tinha acesso, atraves de uma ligacao a um clube de tiro, ao tipo de revolver tido como arma do crime. Movia-se em circulos politicamente hostis a Palme. A sua roupa, segundo as descricoes da epoca, assemelhava-se ao que algumas testemunhas disseram que o atirador vestia.

E Engstrom morrera a 26 de junho de 2000, pela propria mao, vinte anos antes de o procurador dizer o seu nome.

Foi por isso que o caso foi encerrado em vez de acusado. A lei sueca nao permite acusar um morto. A posicao do procurador era que chegara ao ponto em que acreditava saber; que nenhuma acusacao era possivel; e que continuar a gastar recursos publicos no processo nao podia justificar-se.

O que foi dito e o que nao foi

E importante ser preciso sobre o que o anuncio de 2020 foi e nao foi.

Nao foi um veredicto. Nenhum tribunal examinou alguma vez as provas contra Engstrom. Nunca foi acusado, nunca foi julgado, e nunca teve oportunidade de responder - e o caso contra ele foi montado sobretudo apos a sua morte, a partir de material que estava no arquivo havia anos.

Nao ha prova forense que o ligue ao crime. O revolver nunca apareceu. Nenhuma testemunha o identificou como o atirador. O procurador apresentou uma leitura do processo que considerou a mais provavel, e foi explicito quanto a isso.

Familiares de Engstrom rejeitaram a conclusao. O mesmo fizeram varios investigadores e jornalistas que trabalharam o caso durante decadas, alguns dos quais consideram que apontar um morto que nao se pode defender e a forma mais fraca possivel de encerrar a maior investigacao da historia do pais. Um pedido posterior de reabertura foi recusado.

Conclusoes e perguntas em aberto

O caso Palme costuma ser discutido como um misterio. Com mais rigor, e um estudo sobre como uma investigacao pode perder-se na primeira semana e nunca mais recuperar.

**A decisao inicial custou o caso.** Escolher uma unica teoria nos primeiros dias e organizar a resposta em torno dela e a falha de que tudo o resto decorre. As provas materiais nao foram asseguradas. O perimetro nao foi mantido. As testemunhas nao foram processadas sistematicamente enquanto a memoria estava fresca. Quando a teoria inicial foi abandonada, o material de que um investigador posterior precisaria ja nao existia em forma utilizavel. E razoavel inferir que uma primeira semana conduzida de outro modo teria dado outro resultado - embora deva dizer-se que um assassinato por um atirador solitario, sem cumplice e sem confissao, esta entre os crimes mais dificeis que existem, e uma primeira semana limpa nao garante uma detencao.

**Foi Engstrom o homem?** Honestamente: nao provado e, agora, indemonstravel. O caso circunstancial tem conteudo real - o local, o momento, os relatos inconsistentes, o historico com armas, a politica. Tem tambem uma fragilidade estrutural que nao pode ser reparada. Foi construido ao contrario, de uma conclusao para as provas, a partir de um arquivo em que quase qualquer das vinte e duas mil linhas pode parecer sugestiva se examinada com um nome ja na cabeca. Isto nao e uma acusacao de ma-fe ao procurador. E a descricao do que acontece quando se procura uma forma especifica num processo daquela dimensao.

**Porque falhou o reconhecimento?** Lisbet Palme estava ao lado do marido quando ele foi baleado e foi ela propria atingida. Nomeou um homem. Um tribunal de recurso concluiu que o processo pelo qual o nomeou nao era suficientemente fiavel para condenar. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, e o caso nunca recuperou do facto de o serem. O tratamento dado ao seu depoimento continua a ser um dos aspetos mais contestados de todo o assunto na Suecia.

**E a pergunta que nao vai fechar:** um chefe de governo foi morto a ceu aberto, num pais que assumia que tal nao podia acontecer ali, e o Estado foi incapaz de estabelecer quem o fez a um nivel que qualquer tribunal aceitasse. A Suecia construiu a sua resposta a isso - os dispositivos de seguranca, as estruturas de coordenacao - a partir do que correu mal naquela noite. O processo esta encerrado. A pergunta sobre o que aconteceu na Sveavagen a meia-noite menos um quarto nao esta, e agora ja nao pode estar.

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