Documentado

Ela pediu para ser deixada ir: o desaparecimento de Connie Converse

2026-08-06 · Desaparecidos sem rasto · 7 min de leitura

Elizabeth Eaton Converse nasceu em 3 de agosto de 1924 em Laconia, New Hampshire, e cresceu em Concord numa casa batista rigorosa. O pai era pastor. A música do tipo que ela viria a escrever não era estimulada ali. Seu irmão mais novo, Philip, tornou-se um dos cientistas políticos mais respeitados dos Estados Unidos, e foi ele quem acabou guardando os papéis dela, suas fitas e seu silêncio.

Foi uma aluna excepcional. Formou-se como oradora da turma no colégio de Concord, acumulou oito prêmios acadêmicos e ganhou uma bolsa para o Mount Holyoke College, em Massachusetts. Ficou dois anos e saiu. Em 1944, sem concluir o curso, mudou-se para Nova York. Para uma jovem daquela origem naquela década, abrir mão de uma bolsa era quase impensável.

Em Nova York trabalhou em escritórios, entre eles por um bom tempo numa gráfica chamada Academy Photo Offset, no bairro do Flatiron, e morou em épocas diferentes no Greenwich Village, em Hell's Kitchen e no Harlem. Aprendeu violão sozinha e começou a compor. Também passou a se chamar Connie. As canções não se pareciam com nada ao redor: em primeira pessoa, secas, adultas, às vezes engraçadas, muitas vezes sobre solidão, cantadas com voz simples e sem ornamentos sobre um violão econômico. Ela escrevia material confessional de cantora e compositora no início dos anos cinquenta, anos antes do renascimento folk do Greenwich Village que tornaria essa forma famosa.

Quase tudo que sobreviveu de sua música existe graças a um único homem. Gene Deitch, artista gráfico e animador que promovia saraus em casa, pôs um gravador na mesa da cozinha e a registrou tocando em 1954. Não houve estúdio, produtor nem gravadora. As fitas foram feitas entre amigos, e Deitch as guardou pelos cinquenta anos seguintes.

Foi Deitch também quem arranjou a única apresentação pública dela de que há registro. Em 1954 ela apareceu brevemente na televisão da CBS, no novo programa matinal apresentado por um jovem Walter Cronkite. Foi o único momento em que sua música alcançou um público nacional enquanto ela viveu. Nada resultou disso.

Em 1956 gravou para o irmão um conjunto de canções com o título Musicks, em dois volumes. Continuou compondo e continuou sem chegar a lugar nenhum. O problema não era a qualidade do trabalho, e sim o formato: literário demais para o pop, pessoal demais para o folk, estranho demais para que a indústria fonográfica dos anos cinquenta soubesse em que prateleira colocá-lo. Não tinha empresário, nem agente, nem o menor talento para se promover. Em 1961 concluiu que a música não iria acontecer.

Naquele ano deixou Nova York e mudou-se para Ann Arbor, no Michigan, onde Philip lecionava na Universidade de Michigan. A coincidência de datas é um dos acidentes cruéis da história dela. A cena do Greenwich Village que teria lugar para suas canções estava se formando exatamente quando ela saía da cidade.

Seus anos no Michigan foram produtivos e, na superfície, bem-sucedidos. Trabalhou como secretária e, a partir de 1963, como editora executiva do Journal of Conflict Resolution, uma revista acadêmica sobre as causas da guerra. Era boa nisso. Também se tornou politicamente ativa, colaborou com o movimento Women Strike for Peace e ajudou a organizar a primeira jornada de aulas de protesto contra a guerra do Vietnã nos Estados Unidos, realizada na Universidade de Michigan. Por cerca de uma década teve uma segunda vida, respeitada por quem a cercava, com o violão em geral guardado.

Essa vida se desfez no fim de 1972, quando a revista se mudou para Yale e ela não foi junto. O que veio depois foi uma queda longa: esgotamento, problemas de saúde, bebida em excesso e depressão. Na própria correspondência descreveu ter passado por algo próximo de um colapso nervoso. Em 1973 a família e os amigos juntaram dinheiro para mandá-la à Inglaterra descansar. Ela voltou, e a situação não melhorou.

Completou cinquenta anos em 3 de agosto de 1974. Nos dias em torno daquele aniversário sentou-se e escreveu à mão uma série de cartas para a família e para os amigos mais próximos. Eram calmas, cuidadosamente compostas e sem acusações. Escreveu que queria tentar recomeçar em outro lugar, agradeceu a quem havia sido bom com ela, disse que gostaria de ter dado mais do que deu e pediu, com as palavras mais simples possíveis, que a deixassem ir.

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Em 10 de agosto de 1974 carregou seu Volkswagen Fusca com o violão e alguns pertences. O sobrinho a viu pousar a bolsa no banco do carona, dar partida e acenar ao sair de Ann Arbor. Esse é o último avistamento confirmado de Connie Converse. Nem ela nem o carro jamais foram encontrados.

A família não chamou a polícia naquela semana. As cartas eram explícitas, e decidiram honrá-las. Cerca de uma década depois Philip Converse procurou um investigador profissional de pessoas desaparecidas e ouviu o que provavelmente já suspeitava: um adulto nos Estados Unidos tem o direito legal de desaparecer, e mesmo uma busca bem-sucedida poderia não render nada com que se pudesse agir. Ele deixou o assunto. O processo dela nunca passou disso.

A música voltou sem ela. Em janeiro de 2004 Gene Deitch participou do programa de rádio Spinning on Air, da emissora WNYC, apresentado por David Garland, e tocou as fitas da cozinha no ar. Dois ouvintes, Dan Dzula e David Herman, saíram atrás do resto. Encontraram mais gravações no acervo de Deitch, já em Praga, e num arquivo de aço em Ann Arbor. Em março de 2009 dezessete das canções saíram no álbum How Sad, How Lovely, pelo selo Lau Derette, seguido de uma reedição em vinil em 2015. Músicos começaram a regravá-la. Em 2023 o escritor Howard Fishman publicou uma biografia completa, To Anyone Who Ever Asks. A cantora clássica Julia Bullock gravou a canção One by One num álbum vencedor do Grammy em 2024. Cinquenta anos depois de ir embora, Connie Converse tem o público que nunca teve enquanto esteve aqui.

Conclusões e perguntas em aberto

O registro documental é excepcionalmente claro até a partida e completamente vazio depois dela. Sabemos quando saiu, o que dirigia, o que levou e o que escreveu. Sabemos que tinha cinquenta anos, saúde ruim, bebia e estava fora do trabalho que a sustentara por uma década. Depois da manhã de 10 de agosto de 1974 não há nada: nenhum avistamento confirmado, nenhuma transação, nenhum veículo, nenhum vestígio.

A leitura sustentada por boa parte da família e pela maioria de quem leu as cartas é que ela pretendia pôr fim à própria vida e que as cartas eram uma despedida. Apoia-se em seu estado de espírito, no caráter definitivo das palavras e na ausência de qualquer contato posterior com as pessoas que amava. A fragilidade é física. Em cinquenta anos não apareceram nem corpo nem carro, e um Volkswagen Fusca é um objeto difícil de fazer sumir.

A leitura concorrente, aquela que ela mesma pôs no papel, é que quis dizer exatamente o que disse: um recomeço sob outro nome, num lugar onde não fosse conhecida. Não é impossível. Em 1974 um adulto determinado ainda conseguia sair da trilha de papel. A fragilidade é que ela tinha cinquenta anos, saúde frágil, muito pouco dinheiro e nenhum destino evidente, e que em meio século nenhum traço dessa segunda vida veio à tona em lugar algum.

Uma terceira possibilidade, menos discutida, é que algo comum e alheio ao plano tenha acontecido na estrada: um acidente, uma pane em local isolado, um crime contra uma mulher viajando sozinha. Isso explicaria o carro sumido melhor do que as outras duas. A fragilidade é que nenhuma batida, nenhum corpo não identificado e nenhum veículo abandonado jamais foram associados a ela, num país que mantém esses registros.

O carro é o nó da questão. Uma pessoa pode desaparecer; um veículo em geral reaparece, num lago, num ferro-velho, num registro de propriedade ou numa consulta de placa. O fato de nada ter voltado sobre o dela é o argumento mais forte de que a resposta está em algum lugar não procurado, e não em algum lugar despercebido.

O que permanece em aberto é factual e humano ao mesmo tempo. Para onde ela dirigiu e até onde chegou. Se as cartas foram uma despedida de uma vida ou uma despedida da vida é algo que as próprias palavras dela não resolvem, e a família tomou a decisão deliberada de não forçar uma resposta. Por que uma obra tão original não encontrou casa nos anos cinquenta, e por que foi preciso um programa de rádio em 2004 para resgatá-la, é um fracasso à parte, com lições próprias. A única coisa fora de disputa é que ela pediu para ser deixada em paz, e que o mundo passou as duas últimas décadas fazendo o contrário, por admiração, e tarde demais para que ela soubesse.


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