UM CASO REAL
Contestado

Síndrome de Havana: a doença invisível que dividiu a inteligência americana

2026-06-20 · · Sinais e sons · 8 min de leitura

Veio, contou um oficial, como um feixe de som apontado diretamente para a sua cabeça.

Em dezembro de 2016, um oficial da CIA que trabalhava sob cobertura diplomática em Havana estava em seu apartamento quando um ruído agudo e penetrante pareceu perfurar de uma única direção. Em poucos dias vieram a tontura, as dores de cabeça opressivas e a perda de audição. Foi o primeiro caso documentado do que o mundo chamaria de síndrome de Havana, embora o governo dos Estados Unidos, pesando cada palavra, insistisse no rótulo mais neutro e prudente de incidentes anômalos de saúde.

Os relatos não ficaram em Cuba. Em 2018, funcionários americanos em Cantão, na China, descreveram experiências semelhantes; entre eles um funcionário do Departamento de Comércio chamado Robyn Garfield, que relatou estranhos sons noturnos seguidos de problemas de memória e equilíbrio que se espalharam por toda a sua família. Seguiram-se casos em Viena, em Washington mesmo e em postos diplomáticos por todo o mundo. Alguns oficiais foram evacuados por razões médicas e alguns dizem até hoje que nunca se recuperaram por completo. No início de 2023 já haviam sido apresentados cerca de 1.500 relatos por funcionários americanos e seus familiares, um número que transformou uma curiosidade diplomática naquilo que as autoridades tratavam como uma emergência de segurança nacional.

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O que os afetados descreviam guardava uma semelhança de família. O início era tipicamente súbito e, nos relatos mais antigos, parecia chegar de uma única direção. Muitas vezes seguiam-se tontura, pressão ou dor na cabeça, zumbido nos ouvidos ou perda de audição e, nas semanas e meses seguintes, dificuldades de equilíbrio, memória e concentração, junto com um cansaço que não passava. O padrão viajava com o poder americano, aparecendo onde iam os diplomatas e os oficiais de inteligência do país.

Por trás das estatísticas havia casos individuais. Marc Polymeropoulos, oficial sênior da CIA, foi atingido em um quarto de hotel em Moscou em dezembro de 2017 por uma vertigem tão violenta que não conseguia ficar de pé; aposentou-se dois anos depois, ainda atormentado por dores de cabeça, e tornou-se um dos rostos mais públicos do caso. Diplomatas canadenses lotados em Havana também foram afetados e mais tarde recorreram aos tribunais contra o próprio governo pelo modo como este conduziu o seu atendimento.

O som em si nunca foi um só som. Alguns ouviram um zumbido agudo, outros um ranger ou um zunido mecânico, e alguns sentiram apenas pressão ou calor sem ruído algum.

O primeiro veredicto oficial de peso chegou em dezembro de 2020. Um comitê das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina, convocado a pedido do Departamento de Estado, concluiu que a energia de radiofrequência dirigida e pulsada, uma categoria que inclui as micro-ondas, era o mecanismo mais plausível para os casos centrais e mais antigos. O comitê recusou-se deliberadamente a nomear um culpado ou um país. Em 2021, com raro apoio rápido dos dois partidos, o Congresso aprovou a Lei HAVANA para indenizar os prejudicados. Nessa altura o caso já havia arrastado o Departamento de Estado, a CIA, o FBI, o Pentágono e, por fim, os Institutos Nacionais de Saúde, e painéis científicos externos tinham sido convocados mais de uma vez.

Outras conclusões vinham se acumulando desde o início. Já em 2018 a Unidade de Análise Comportamental do FBI visitou Havana e julgou os episódios um caso de doença psicogênica em massa, uma propagação real e involuntária de sintomas em uma comunidade assustada e muito unida. Em janeiro de 2019 os biólogos Alexander Stubbs, de Berkeley, e Fernando Montealegre-Z, de Lincoln, analisaram uma gravação da Associated Press do som de Havana e relataram que ela coincidia, pulso por pulso, com o canto de chamada do grilo de cauda curta das Índias, Anurogryllus celerinictus.

O quadro médico se moveu mais de uma vez. Em 2018 uma equipe da Universidade da Pensilvânia liderada por Douglas Smith relatou na JAMA que um grupo dos pacientes de Havana apresentava alterações nas redes conectivas do cérebro, um achado apresentado como prova de lesão real e depois muito criticado por motivos metodológicos. Em janeiro de 2022 uma avaliação provisória da CIA concluiu que a maioria dos casos relatados podia ser plausivelmente explicada por doença, fatores ambientais ou estresse, admitindo ao mesmo tempo que cerca de duas dúzias não podia.

O golpe oficial mais forte contra a teoria da arma veio em março de 2023. A comunidade de inteligência dos Estados Unidos, somando o julgamento de sete agências, informou que cinco delas consideravam muito improvável que um adversário estrangeiro fosse responsável e que nenhuma havia encontrado provas confiáveis de que qualquer adversário sequer possuísse tal arma. Os incidentes, sugeria a avaliação, explicavam-se de maneira mais plausível por condições preexistentes, doenças comuns, fatores ambientais, estresse e dinâmicas sociais.

A medicina pareceu fechar a porta ainda mais. Em março de 2024 os Institutos Nacionais de Saúde publicaram dois estudos na JAMA, fruto de quase cinco anos de trabalho. Em um deles, exames sofisticados de ressonância magnética compararam os cérebros de 81 funcionários afetados com os de 48 pessoas em cargos semelhantes que não haviam relatado incidentes; um estudo acompanhante examinou um grupo maior. Os pesquisadores não encontraram lesão cerebral detectável por ressonância nem diferença significativa em relação ao grupo de comparação na maioria das medidas. Foram cuidadosos, e humanos, ao dizê-lo: o sofrimento era real, às vezes profundo e incapacitante, com problemas mensuráveis de equilíbrio, fadiga, estresse pós-traumático e depressão. Mas a sua assinatura, em todos os instrumentos que puderam aplicar, não era a de uma ferida infligida por uma arma.

E naquela mesma primavera o caso se reabriu por outro flanco. Uma investigação conjunta do programa 60 Minutes da CBS, do veículo The Insider e da revista alemã Der Spiegel relatou indícios, contestados e firmemente rejeitados pela comunidade de inteligência, de que integrantes de uma unidade de inteligência militar russa conhecida como GRU 29155 haviam estado perto dos locais dos incidentes, em pelo menos vários casos nos momentos pertinentes, e de que um agente teria sido recompensado por trabalhos em armas acústicas não letais. Os jornalistas, entre eles o investigador Christo Grozev, depuseram mais tarde no Congresso. O diretor da CIA, William Burns, reafirmou publicamente o ceticismo de sua agência. O Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes, por outro lado, levou a reportagem a sério o bastante para questionar a própria avaliação de 2023, sugerindo que ela havia sido montada por vias irregulares.

Quase uma década depois do primeiro relato, é assim que está o registro documentado: cerca de 1.500 processos, uma sequência de conclusões oficiais que se contradizem, nenhum dispositivo recuperado e um grupo de pacientes cujos sintomas são mensuráveis e cuja causa não é.

Conclusões e perguntas em aberto

Nove anos de investigação produziram quatro explicações sérias, e cada uma carrega a sua própria ferida.

A hipótese da energia dirigida é a leitura que o comitê das Academias Nacionais endossou em 2020, e continua a ser a posição de muitos dos oficiais afetados. A sua força é encaixar no início súbito e unidirecional que os primeiros pacientes descreveram. A sua fraqueza é que nunca se demonstrou que exista tal arma não letal, que em quase uma década nenhum dispositivo ou projeto foi recuperado e que muitos físicos duvidam de que ela pudesse ser construída e apontada com a precisão que os relatos exigem.

A explicação psicogênica, proposta pela Unidade de Análise Comportamental do FBI em 2018 e repetida na avaliação de inteligência de 2023, dá conta de como os sintomas podem se espalhar em comunidades estreitas e muito tensionadas assim que o medo se instala. A sua fraqueza é que ela se atrita com os primeiríssimos casos, relatados antes de haver qualquer síndrome para se contagiar, e que os pacientes a vivem como uma forma polida de descartar uma lesão real.

O achado do grilo, de Stubbs e Montealegre-Z, é uma pequena obra-prima de refutação, e de fato dissolve o objeto mais sinistro do processo, a própria gravação. A sua fraqueza é o alcance. Explica uma gravação, e um grilo não pode causar uma concussão nem um ano de vertigem.

A reportagem sobre a unidade russa feita por 60 Minutes, The Insider e Der Spiegel fornece motivo, oportunidade e um culpado plausível. A sua fraqueza é que não fornece mecanismo, nem arma recuperada, nem prova que resistisse em um tribunal ou em um laboratório, e que a comunidade de inteligência a rejeita por completo.

O que fica sem explicação é a própria ambiguidade. Quase cada peça de prova é compatível com mais de uma história. Um som direcional pode ser uma arma ou um grilo ouvido por uma janela aberta. Um exame que nada encontra pode significar que não houve lesão, ou uma lesão sutil demais para ser vista. Cada instituição tendeu a ver aquilo que os seus próprios métodos foram construídos para ver, de modo que os mesmos fatos produziram uma arma em um prédio e um delírio em outro.

As perguntas em aberto são afiadas. Se grilos e estresse explicam Havana, por que oficiais treinados em postos hostis confundiram um inseto ou os próprios nervos com uma arma apontada para o seu crânio? Por que os sóbrios cientistas das Academias Nacionais recorreriam à energia dirigida se as provas eram tão escassas como as agências depois insinuaram? Se existe uma arma, por que nunca aflorou nenhum dispositivo, nenhum projeto, nenhum relato de desertor sobre ela? Por que cinco agências, com todo incentivo para expor uma mão estrangeira, concluíram que não havia nenhuma a expor? E a objeção do comitê da Câmara, de que a avaliação de 2023 foi montada de forma irregular, nunca foi resolvida em público.

Alguns argumentam que a caça a uma única resposta unificadora é ela mesma o erro. Uma teoria sustenta que a síndrome de Havana nunca foi um só fenômeno: que um pequeno número de casos iniciais genuinamente inexplicados deu origem a um rótulo amplo e assustador o bastante para recolher, nos anos seguintes, centenas de males comuns, ruídos ambíguos e leituras ansiosas e equivocadas do próprio corpo. Nessa visão haveria um mistério real no núcleo e uma ampla penumbra humana de coincidências ao seu redor, impossível de separar depois do fato. É oferecida aqui como especulação e nada mais.

O que é certo é menor e mais estranho do que qualquer das teorias. Algo aconteceu em Havana no inverno de 2016. Pessoas reais foram feridas e continuam feridas. E os serviços de inteligência mais poderosos e as instituições médicas mais avançadas da Terra voltaram os seus melhores instrumentos para o seu próprio pessoal, gastaram anos e fortunas, e não conseguiram concordar entre si, nem consigo mesmos de um ano para o outro.

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