A mulher que apagou a si mesma: o enigma norueguês de Isdalen
Num domingo cinzento, 29 de novembro de 1970, um professor universitário entrou em Isdalen com as suas duas filhas pequenas. Isdalen é um vale escarpado, de paredes de rocha, ao pé da face norte do Ulriken, nos arredores de Bergen, na costa ocidental da Noruega, e arrastava uma alcunha antiga e sombria muito antes daquele dia: o Vale da Morte, pelos viajantes medievais e depois pelos desesperados que ali morreram entre os penhascos. Encaixado entre pedras chamuscadas, a família deparou-se com o corpo parcialmente queimado de uma mulher. A sua parte da frente estava carbonizada quase por completo e o rosto ficara destruído para além de qualquer esperança de reconhecimento.
A polícia registou o que estava espalhado junto dela: comprimidos para dormir, uma refeição embalada, um quarto de garrafa vazio de licor St. Hallvard, um guarda-chuva quebrado, botas de borracha, um gorro de pele que exalava um leve odor a gasolina e garrafas de plástico derretidas que tinham contido, ao que parecia, algum líquido inflamável. E depois veio o detalhe que separou o caso de uma morte comum na montanha. Todas as etiquetas tinham sido cortadas da sua roupa, e as marcas identificativas raspadas ou apagadas dos seus pertences. Não era a desordem de um acidente. Era um trabalho paciente e deliberado.
Em poucos dias a investigação, registada em Bergen como o caso 134/70, abriu-se para fora. Os detetives localizaram duas malas que ela tinha depositado no depósito de bagagens da estação ferroviária de Bergen. Dentro estava o guarda-roupa de uma mulher que viajava para não ser recordada: perucas, um par de óculos com lentes simples sem graduação, uma bisnaga de creme para o eczema, notas em moeda alemã, norueguesa, belga e suíça, cosméticos com os nomes do fabricante limados, e um pequeno bloco cheio de colunas de letras e números enigmáticos. Os criptógrafos acabaram por decifrá-lo. O código era um diário de viagem comprimido: datas e lugares, uma taquigrafia privada de um percurso que serpenteava de um lado para o outro da Europa.
Os registos hoteleiros completaram o resto. Ela tinha circulado pela Noruega e para além dela sob pelo menos oito nomes diferentes, entre eles Geneviève Lancier, Claudia Tielt, Claudia Nielsen, Alexia Zarna-Merchez, Vera Jarle, Fenella Lorck e Elisabeth Leenhouwer, a maioria alegando nacionalidade belga. Esse rasto de papel teria exigido vários passaportes falsificados e o sangue-frio para os usar. Nos seus últimos dias tinha ficado no Hotel Hordaheimen, em Bergen, no quarto 407, e saiu a 23 de novembro, seis dias antes de ser encontrada. O pessoal que se lembrava dela descrevia uma mulher elegante e culta na casa dos trinta, que falava francês, alemão, inglês e flamengo, que às vezes mudava de quarto sem motivo aparente e que deixava uma impressão de cautela sob o encanto.
A autópsia acrescentou peso em vez de clareza. No corpo os patologistas encontraram o resíduo de uma grande quantidade de comprimidos para dormir, calculados depois entre cinquenta e setenta comprimidos de Fenemal, um barbitúrico, e mais uma dúzia apareceu junto ao corpo. Mas havia também fuligem nas suas vias respiratórias e monóxido de carbono no seu sangue, o que estabeleceu um facto indiscutível: fizessem o que fizessem os comprimidos, ela ainda respirava quando o fogo pegou. O seu pescoço apresentava uma contusão, que os patologistas anotaram como compatível com um golpe, com os comprimidos terem sido forçados, ou com nada de sinistro.
Em poucas semanas a polícia de Bergen arquivou oficialmente o caso como provável suicídio. Vários dos detetives originais nunca aceitaram esse veredicto no seu foro íntimo. A 5 de fevereiro de 1971 foi sepultada num ofício católico no cemitério de Møllendal, em Bergen, num caixão de zinco selado, escolhido por uma razão acima de todas: para que os seus restos pudessem um dia ser exumados e examinados de novo por uma ciência ainda não inventada. A polícia fotografou o funeral, caso alguém que a tivesse conhecido viesse pôr-se junto à sepultura. Ninguém que pudessem identificar o fez.
Dois outros fios entraram no processo. Nesses mesmos anos a Noruega conduzia ensaios secretos do seu novo míssil antinavio Penguin ao largo daquele trecho de costa, e os investigadores que mais tarde cruzaram os seus movimentos documentados com o calendário desclassificado dos ensaios descobriram que as suas viagens coincidiam de perto com os testes. Em separado, anos depois, um homem apresentou-se para dizer que, sendo um jovem caminhante em 1970, tinha passado por uma mulher num caminho da encosta do Fløyen sobre Bergen cinco dias antes da descoberta, vestida para uma rua de cidade e não para uma encosta de montanha, e seguida a distância, pensava ele, por dois homens de sobretudo. Quando tentou contá-lo à polícia na altura, aconselharam-no a deixar o assunto. Nenhum dos dois fios foi jamais demonstrado como ligação a qualquer serviço de informações, e nunca se provou que ela transportasse segredos para alguém.
Em 2016 o processo voltou à vida. Impulsionada em parte pela redescoberta dos pertences da mulher a acumular pó num arquivo policial, a emissora pública norueguesa NRK juntou forças com a unidade nacional de crime Kripos e com a Universidade de Bergen e reabriu a investigação com ferramentas com que os detetives de 1970 apenas poderiam ter sonhado. A sua mandíbula tinha sido conservada todos aqueles anos precisamente porque o seu trabalho dentário era tão invulgar: coroas de ouro de um estilo raramente visto na Noruega, e catorze dentes com tratamentos de canal muito mais extensos do que era comum, aquela odontologia caríssima e minuciosa que falava de dinheiro e de uma vida vivida em algum lugar do continente. O ADN extraído dos dentes situou a sua linha materna no haplogrupo mitocondrial H24, uma linhagem que não levou a parte alguma nas bases de dados e não coincidiu com nenhum parente que se tenha apresentado.
Depois veio a descoberta que pareceu uma porta a abrir-se. A análise isotópica do esmalte dos seus dentes, que fixa uma assinatura química da água e da comida da infância, indicou que provavelmente tinha nascido por volta de 1930, com uma margem de quatro anos, e que passara os primeiros anos em ou perto de Nuremberga, no sul da Alemanha, antes de se mudar, ainda menina, para a região fronteiriça franco-alemã. Os peritos em escrita que estudaram as suas notas cifradas concluíram que provavelmente aprendera a escrever em França. As conjeturas de toda uma geração ganharam de repente uma forma: uma menina centro-europeia, nascida entre as guerras, levada para oeste através de uma fronteira nos anos em que essa fronteira significava tudo.
E ali a investigação parou. Nenhum parente reconheceu a reconstituição da sua vida. Nenhum nome chegou. Mais de meio século depois de uma família a encontrar entre as pedras chamuscadas, e após tudo o que a ciência forense moderna foi capaz de fazer, ninguém conseguiu dizer com certeza quem ela era. Jaz numa sepultura assinalada em Bergen sem nome algum.
Conclusões e perguntas em aberto
Cada teoria construída para conter este caso tem uma fuga em algum ponto.
A leitura do suicídio simples é a mais ordenada e a menos dramática, e foi o veredicto da polícia de Bergen em 1970. A fuligem nos seus pulmões é muitas vezes tomada como apoio: tomou os comprimidos, acendeu o fogo, e a morte chegou antes de as chamas terem concluído a sua obra. A sua fraqueza é tudo o que rodeia o corpo. As etiquetas removidas com precisão cirúrgica, o muro de nomes falsos e as viagens falsificadas não são coisas que um particular em luto tenha motivo para montar.
A leitura da espionagem responde aos nomes falsos e ao apagamento de um só traço, e alguns argumentam que a coincidência com os ensaios do míssil Penguin é demasiado próxima para ser casual. A sua fraqueza é que, depois de décadas de arquivos abertos, nunca produziu um único fio verificável que a ligue a qualquer serviço de informações, e essa ausência pesa mais, e não menos, com o tempo. O relato do caminhante sobre dois homens que a seguiam foi dado muito depois dos factos e nunca foi corroborado.
Uma terceira leitura divide a diferença. Uma teoria sustenta que ela era de facto uma viajante clandestina de algum tipo, uma contrabandista talvez, ou uma mulher enredada na economia cinzenta dos documentos falsos e não em assuntos de Estado, e que pôs fim à própria vida quando a vida em fuga se tornou insuportável: o ofício real, a espionagem imaginada. Pede-nos que inventemos o mínimo, e essa é a sua força. A sua fraqueza é que a explica tornando-a menor do que sugere a prova da sua competência.
Alguns argumentam que o mapa isotópico é o fio que mais convém puxar, com o fundamento de que uma mulher nascida por volta de 1930 perto de Nuremberga e levada em criança para a fronteira francesa teve exactamente a criação que produzia pessoas fluentes em várias línguas e à vontade a atravessar fronteiras, e que algumas dessas pessoas estavam disponíveis para os serviços que travaram a longa guerra silenciosa que se seguiu. Isso não a torna uma espia. Torna-a o tipo de pessoa de onde aquele mundo recrutava, e não lança a ponte que nenhuma teoria lança: o nome que falta.
O que permanece inexplicado não é a escolha entre teorias, mas um punhado de factos duros que nenhuma teoria absorve por completo. Alguém retirou todas as etiquetas da sua roupa e todas as marcas dos seus frascos de creme, e nunca se estabeleceu se aquela mão era a dela. Tinha engolido dezenas de comprimidos barbitúricos e estava ainda viva quando o fogo começou, ao ar livre, num vale remoto, numa noite gelada de novembro. Tinha o pescoço contundido, e a contusão nunca foi esclarecida num sentido nem noutro. A sua linha mitocondrial não tem qualquer correspondência viva em nenhuma base de dados, e uma mulher com odontologia continental caríssima e quatro línguas não deixou atrás de si ninguém que denunciasse o seu desaparecimento.
As perguntas em aberto continuam a ser as primeiras. Quem era ela? Por que razão foi arrancado todo o vestígio de identidade de uma única vida humana? Morreu pela própria mão, ou o fogo destinava-se a garantir que nunca falaria? Em algum lugar da Europa, se os isótopos estiverem certos, uma família talvez guarde ainda o contorno de uma filha ou de uma irmã que saiu num certo ano e nunca voltou, sem nunca saber que ela jaz em Bergen, cuidada por estranhos, e ainda sem nome.