A escrita que sabemos pronunciar mas nao conseguimos entender: o linear A
Na primavera de 1900, um ingles miope de bengala estava numa encosta ao sul de Heraklion e via os seus operarios retirarem a terra de um edificio que jazia enterrado havia tres mil e quinhentos anos. Arthur Evans comprara parte do terreno com o proprio dinheiro. Viera a Creta a procura de uma coisa acima de todas as outras: escrita. Estava convencido de que o mundo egeu sabia escrever muito antes da Grecia classica e, poucos dias depois de abrir o solo, as suas equipas comecaram a entregar-lhe exatamente o que queria. Pequenas tabuas de barro seco ao sol, riscadas em linhas, cobertas de fileiras arrumadas de sinais.
Nao eram letras gregas. Nao eram hieroglifos egipcios. Eram algo que nenhuma pessoa viva jamais tinha visto.
Evans chamou Cnossos ao palacio, chamou minoica a civilizacao em honra do lendario rei Minos e arrumou a escrita em tres sistemas. Ao mais antigo e mais pictorico chamou hieroglifico cretense. Aos dois posteriores, feitos de tracos mais simples, chamou linear A e linear B. Depois sentou-se a le-los. Trabalhou nisso o resto da vida, publicou as tabuas com lentidao e ciume e morreu em 1941 sem ter lido uma unica frase.
O linear A foi a escrita dos palacios minoicos, em uso desde cerca de 1800 a.C. ate cerca de 1450 a.C., quando esses palacios arderam. Era uma escrita de trabalho, nao monumental. Os escribas imprimiam-na com estilete no barro humido, riscavam-na na borda de mesas de libacao de pedra, pintavam-na dentro de tacas e gravavam-na em alfinetes de ouro e prata. Sobrevivem cerca de 1.400 inscricoes legiveis, com uns 7.400 sinais individuais. Cerca de metade de tudo o que temos saiu de um unico sitio: Hagia Triada, no sul de Creta, que produziu mais de 1.200 objetos com linear A. Zakros deu quase 600 e Chania pouco mais de 300. Pecas isoladas apareceram bem longe da ilha, em Micenas e Argos na Grecia continental e em Mileto, na costa da Anatolia, o que mostra que a escrita viajava com o comercio minoico.
O sistema usa mais de 300 sinais distintos. Cerca de noventa deles ocorrem com frequencia suficiente, em sitios suficientes e ao longo de seculos suficientes, para formar um nucleo estavel. Essa forma, um conjunto manejavel de sinais frequentes mais uma longa cauda de sinais raros, e a assinatura de uma escrita logossilabica: sinais silabicos que soletram palavras, misturados com sinais de palavra que representam uma mercadoria inteira, alem dos numerais.
Entao, por volta de 1450 a.C., os palacios cretenses cairam e os gregos micenicos tomaram a ilha. Nao inventaram escrita propria. Pegaram na que ja la estava, ajustaram-na e usaram-na para escrever a sua propria lingua. Essa versao adaptada e o linear B.
O linear B e precisamente a razao pela qual o linear A e um misterio tao peculiar.
Durante meio seculo o linear B resistiu a todos, incluindo Evans, que insistiu ate ao fim que aquilo nao podia ser grego. Caiu em 1952 diante de Michael Ventris, um arquiteto de Londres obcecado pelo problema desde que ouvira uma conferencia de Evans ainda estudante. Ventris nao adivinhou significados. Construiu grelhas, ordenando os sinais conforme quais alternavam com quais na mesma posicao dentro de palavras flexionadas, ate que a grelha comecou a comportar-se como um silabario com linhas de consoantes e colunas de vogais. Quando finalmente lhe impos valores foneticos, as palavras que sairam eram gregas: ko-wo para rapazes, ko-wa para raparigas, pa-te para pai. Evans enganara-se. Ventris, com o filologo John Chadwick, publicou a decifracao e morreu num acidente de viacao quatro anos depois, aos trinta e quatro.
Como o linear B nasceu diretamente do linear A, as duas escritas partilham a maior parte dos sinais. O passo obvio, dado quase de imediato, foi aplicar de volta os valores foneticos de Ventris a escrita mais antiga e ver o que saia.
Funciona. Funciona de forma perturbadora.
Lido assim, o linear A deixa de estar calado. Os numerais resolvem-se num sistema decimal limpo: tracos verticais para as unidades, horizontais para as dezenas, circulos para as centenas, circulos com raios para os milhares, mais um conjunto de sinais de fracao cujos valores exatos ainda se discutem. Os documentos resolvem-se naquilo que evidentemente sao: contabilidade. Listas de mercadorias, quantidades, pessoas, lugares. No pe de muitas tabuas aparece a palavra ku-ro, seguida de um numero que se revela a soma dos numeros escritos acima. Outra palavra, ki-ro, marca algo parecido com um defice, um valor ainda em divida. Dezenas de nomes de lugares dessas tabuas reaparecem, escritos quase da mesma maneira, em documentos em linear B redigidos seculos mais tarde por gregos que tinham herdado a mesma paisagem.
Ha ate uma formula. Cerca de quarenta e uma inscricoes de vinte e sete sitios cretenses diferentes, a maioria talhadas em mesas de libacao de pedra vindas de santuarios de montanha e de gruta, trazem uma frase religiosa repetida a que os investigadores chamam simplesmente formula de libacao. A mesma sequencia inicial, depois um espaco variavel que e provavelmente o nome de um lugar ou de uma divindade, depois mais palavras fixas. E claramente um texto liturgico. Conseguimos pronunciar cada silaba dele.
E e esse todo o problema. Conseguimos pronunciar o linear A. Nao entendemos uma palavra.
Ninguem conseguiu jamais ligar a lingua que esta por baixo a qualquer lingua registada em qualquer outro ponto do planeta. Nem ao grego. Nem ao hitita ou ao luvita. Nem ao fenicio ou a qualquer outra lingua semitica. Nem ao egipcio, nem ao etrusco, nem a nada da familia uralica. Os minoicos faziam as suas contas numa lingua que, com a evidencia atual, nao parece aparentada com coisa alguma.
Conclusoes e questoes em aberto
Os obstaculos sao invulgarmente faceis de enumerar, e isso e parte do que torna o caso tao frustrante.
O corpus e pequeno. Cerca de 1.400 inscricoes contra quase 6.000 do linear B, ao passo que o cuneiforme soma centenas de milhares de tabuas. Pior ainda, a maioria dos textos em linear A e curta, partida e administrativa. Nao ha literatura, nem uma carta, nem um tratado, nem uma narrativa, nada com gramatica corrida suficiente para expor como a lingua flexiona.
E nao ha bilingue. Os hieroglifos egipcios cairam porque a Pedra de Roseta trazia o mesmo decreto em grego. Nada de semelhante saiu alguma vez do solo cretense e, ao fim de 126 anos de escavacao, as probabilidades nao estao a melhorar.
As teorias dividem-se grosso modo em tres campos, e cada um e forte num ponto diferente.
Um sustenta que o minoico e semitico. Foi defendido com mais forca, a partir dos anos cinquenta, por Cyrus Gordon, um formidavel orientalista que aplicou os novos valores do linear B ao linear A e leu palavras semiticas nos resultados, notando entre outras coisas que ku-ro se aproxima de uma raiz semitica com o sentido de "todo". A sua forca e o contexto: Creta comerciava sem parar com o Levante, e emprestimos semiticos no Egeu nao teriam nada de estranho. A sua fraqueza e nunca se ter generalizado. Os criticos, incluindo estudiosos que admiravam a amplitude de Gordon, concluiram que as leituras so funcionavam em palavras escolhidas e que o mesmo metodo aplicado a um trecho mais longo nao produzia nada coerente. Gordon manteve-se convicto ate ao fim. Convenceu muito poucos colegas.
Um segundo campo sustenta que o minoico e indo-europeu. Gareth Owens, que trabalha em Creta, defende que o minoico e um primo distante do grego e do armenio, separado do proto-indo-europeu depois do ramo hitita mas antes dos restantes, e propos com essa base leituras para partes da formula de libacao. A forca do argumento e que algumas das palavras resultantes parecem razoaveis. A sua fraqueza e aritmetica: com apenas alguns milhares de sinais e uma hipotese flexivel o bastante para permitir mudancas foneticas pesadas, um punhado de correspondencias plausiveis e mais ou menos aquilo que o puro acaso produziria. A egeologia dominante nao o aceitou.
Uma terceira posicao, hoje a opcao por defeito, e que o minoico e uma lingua isolada, uma orfa autentica como o basco, sem parentes sobreviventes com que a comparar. A sua forca e explicar o fracasso de todas as comparacoes tentadas ate agora. A sua fraqueza e que, na verdade, nao e uma teoria. Nao preve nada e nunca pode ser inteiramente provada.
Entretanto, parte do trabalho mais serio dos ultimos anos abandonou deliberadamente a tentativa de ler a escrita. O projeto SigLA de Ester Salgarella copiou a mao cerca de 300 formas de sinal de umas 400 inscricoes para construir uma base de dados paleografica, com o argumento de que, antes de alguem decifrar o linear A, os investigadores tem primeiro de concordar sobre que formas riscadas sao o mesmo sinal e quais nao sao. Ataques computacionais e de aprendizagem automatica surgem de poucos em poucos anos, o mais recente em 2026, e esbarram sempre na mesma objecao: um metodo estatistico alimentado com 7.400 ocorrencias apontara sempre uma familia linguistica mais compativel, e o melhor ajuste nao e uma decifracao.
Por baixo de tudo isto ha duas perguntas que raramente se fazem em voz alta. A primeira e se os valores foneticos emprestados sao sequer corretos. Assentam no pressuposto de que um sinal no linear B manteve o valor que tinha no linear A. E um pressuposto razoavel, ja que os gregos adaptaram a escrita em vez de a inventarem, mas nenhuma evidencia independente alguma vez o confirmou. Se estiver errado, ainda que em parte, toda a leitura construida sobre ele esta errada com ele. A segunda e se o linear A regista sequer uma unica lingua. A escrita esteve em uso durante tres seculos e meio numa ilha com centros palacianos separados, e nada garante que os escribas de Hagia Triada e os de Zakros escrevessem a mesma lingua.
O que resta, portanto, e um silencio estranho e muito especifico. Sabemos o que os minoicos contavam, quanto disso tinham e aproximadamente onde o guardavam. Podemos estar num museu e dizer em voz alta as silabas de uma oracao gravada numa taca de pedra no cume de uma montanha cretense ha trinta e cinco seculos. Simplesmente nao fazemos ideia do que estamos a dizer.