A Planície dos Jarros: milhares de vasos de pedra e um campo minado sobre a resposta
Nas pastagens onduladas do planalto de Xiangkhoang, no norte do Laos, há vasos de pedra às centenas ao ar livre. São talhados em rocha maciça, estreitam ligeiramente para o bordo, medem na maioria entre um e três metros de altura e quase outro tanto de largura, e os maiores pesam na ordem das 14 toneladas. Uns mantêm-se de pé em grupos cerrados nas encostas, outros jazem tombados e meio afundados na relva. As prospeções identificaram bastante mais de noventa sítios com jarros na província, num total de mais de 120 registados, e cada sítio vai de um único vaso a cerca de 400. O nome que ficou, em lao e em qualquer outra língua, é simplesmente Planície dos Jarros.
A pedra não é uniforme. Foram identificados cinco tipos de rocha nos vasos: arenito, o mais comum e usado nos jarros maiores, além de granito, conglomerado, calcário e brecha. Foram localizadas pedreiras perto de vários sítios e, no Sítio 1, o grupo mais visitado, os jarros parecem ter sido deslocados cerca de 8 quilómetros desde o local onde a rocha foi cortada. Não há indícios de maquinaria com ferragens, nem roda no registo local, nem animais de tração adequados ao terreno. Os vasos foram escavados com ferramentas de mão e arrastados até ao seu lugar.
O Sítio 1, conhecido localmente como Ban Hai Hin, reúne cerca de 316 jarros dispostos em cinco grupos sobre uma elevação baixa. Entre eles há mais de vinte discos talhados em arenito, a maioria deitados no chão. Na extremidade do sítio abre-se uma gruta de calcário com aberturas no teto. Essa gruta tornou-se o eixo da primeira interpretação séria de toda a paisagem.
A arqueóloga que a formulou foi Madeleine Colani, investigadora francesa ligada à Escola Francesa do Extremo Oriente. Colani prospetou o planalto no início dos anos trinta e publicou os resultados em 1935 numa obra em dois volumes sobre os megálitos do Alto Laos, documentando 21 sítios. Escavou cerca de vinte jarros e o terreno adjacente, recuperando um conjunto constante: osso queimado, cinza, contas de vidro, cossoiros, discos de orelha e utensílios de bronze e de ferro. Dentro da gruta encontrou camadas com osso humano carbonizado. Colani concluiu que a gruta servira de crematório, que os jarros continham os restos dos mortos e que os discos eram tampas ou marcos funerários. A sua leitura do lugar como paisagem funerária nunca foi derrubada.
O que não conseguiu fazer foi datá-lo com segurança. Durante décadas os jarros foram atribuídos em bloco à Idade do Ferro do sudeste asiático continental, aproximadamente entre 500 antes da nossa era e 500 da nossa era, sobretudo pelos objetos metálicos e contas achados com eles. Esse intervalo era uma inferência tipológica e não uma medição, e deixava sem resposta a pergunta central: quando é que os jarros foram de facto talhados e colocados.
Depois o planalto tornou-se zona de guerra. Entre 1964 e 1973, durante o conflito da Indochina, os Estados Unidos conduziram sobre o Laos um dos bombardeamentos aéreos mais pesados da história, e a província de Xiangkhoang esteve entre as áreas mais atingidas. Foram lançadas quantidades enormes de submunições de fragmentação, e uma proporção elevada não detonou no impacto. Os campos de jarros ficaram saturados de engenhos por explodir. Alguns vasos foram destruídos por completo e as crateras cortaram os depósitos arqueológicos em vários sítios. Durante uma geração, sair de um trilho limpo nesses campos era um risco mortal, e a escavação sistemática era simplesmente impossível. As equipas de desminagem abriram desde então corredores nos sítios principais, marcando o terreno seguro com pedras pintadas, mas mesmo hoje apenas uma pequena fração dos sítios registados foi investigada com alguma profundidade.
A investigação continuada recomeçou em 2016 com o Projeto Arqueológico da Planície dos Jarros, uma colaboração laociana e australiana. É codirigido por Dougald O'Reilly, da Universidade Nacional Australiana, Louise Shewan, da Universidade de Melbourne, e Thonglith Luangkhoth, do Departamento do Património do Laos, em articulação com as autoridades locais e com os operadores de desminagem que tornam o terreno seguro antes de se abrir qualquer sondagem. O projeto combinou escavação no Sítio 1 com cartografia, deteção remota e, sobretudo, datação laboratorial.
Os resultados refizeram a cronologia. A luminescência opticamente estimulada, que mede há quanto tempo um sedimento enterrado está resguardado da luz solar, foi aplicada ao solo sob os jarros. Indicou que os vasos já eram colocados no planalto no segundo e primeiro milénios antes da nossa era, muito antes do que a moldura da Idade do Ferro sugeria. Em contrapartida, as datações por radiocarbono de restos humanos em redor e por baixo dos jarros agruparam-se bastante mais tarde, entre os séculos VIII e XIII da nossa era. As escavações documentaram várias práticas funerárias distintas no mesmo terreno: inumações primárias, feixes de ossos de enterramento secundário e vasos cerâmicos com restos de bebés, todos colocados em torno dos jarros de pé.
Dessa combinação saiu o achado mais incisivo do projeto. Os jarros e os enterramentos encontrados junto deles estão separados por um intervalo muito longo. Enterrou-se entre os jarros durante séculos, talvez mais de um milénio, depois de os próprios jarros já estarem no lugar. Fosse qual fosse a finalidade da sua talha, comunidades posteriores continuaram a tratar o terreno em redor como sagrado e usaram-no para os seus mortos.
A prova mais direta de que os jarros funcionavam como recipientes chegou mais tarde, e de um sítio afastado da rota turística. As escavações realizadas entre 2022 e 2024 no Sítio 75, a cerca de 70 quilómetros a nordeste da cidade de Phonsavan, abriram um jarro de 1,3 metros de altura e encontraram no seu interior os restos desarticulados de pelo menos 37 indivíduos, juntamente com utensílios de ferro, cerâmica, contas de vidro e uma campainha de liga de cobre. O radiocarbono situou os depósitos entre cerca de 890 e 1160 da nossa era, acumulados em várias fases ao longo de gerações. A disposição dos ossos e a ausência de partes inteiras do corpo apontaram para enterramento secundário: os corpos decompuseram-se noutro lugar antes de os ossos serem recolhidos e depositados no vaso. Publicado na revista Antiquity em 2026, o achado foi descrito como o primeiro caso substancial de restos humanos intactos dentro de um jarro laociano.
O estatuto formal do conjunto mudou em 2019, quando a UNESCO inscreveu os Sítios Megalíticos de Jarros de Xiengkhuang, a Planície dos Jarros, na Lista do Património Mundial. Foram incluídos onze sítios componentes, com uma área central de cerca de 175 hectares e uma zona tampão bastante maior. A inscrição trouxe proteção, financiamento e atenção internacional, e também um problema de conservação sem solução fácil: o bem contém engenhos que não foram removidos, e a desminagem é lenta, cara e perigosa.
Conclusões e perguntas em aberto
A função funerária da paisagem já não é seriamente contestada. Restos humanos, espólios e estruturas de enterramento estão documentados em vários sítios por equipas independentes, e o jarro do Sítio 75 mostrou ossos dentro de um vaso e não apenas à sua volta. As perguntas por resolver dizem respeito aos jarros em si.
A interpretação mais forte, numa linha que vai de Colani ao projeto atual, sustenta que os jarros eram recipientes funerários usados para a exposição e decomposição dos mortos, cujos ossos eram depois retirados para enterramento secundário no terreno envolvente. A sua fragilidade é a cobertura. Só um jarro forneceu um conjunto substancial e intacto no interior, e milhares de vasos nunca foram escavados. Um caso confirmado prova que a prática existiu, não que explique todos os jarros do planalto.
Uma leitura alternativa vê nos jarros sobretudo monumentos ou marcos, e no depósito de restos no seu interior uma reutilização tardia. Os resultados de luminescência dão-lhe algum peso, uma vez que colocam os jarros séculos ou milénios antes dos enterramentos datáveis. A fragilidade é que essas datas dizem respeito ao sedimento sob os jarros e não à talha da pedra, e a base de amostras continua pequena.
A tradição local oferece um relato inteiramente diferente. A história oral lao atribui os jarros a um rei gigante, recordado como Khun Cheung, que os teria mandado fazer para produzir e guardar vinho de arroz e celebrar uma grande vitória. Alguns investigadores leem isto como memória de banquetes ligados a ritos fúnebres, uma ligação plausível mas não testada arqueologicamente. Uma teoria prática aparentada defende que os jarros recolhiam água das chuvas de monção para viajantes de uma rota comercial terrestre, ideia por vezes associada ao trânsito de sal e ferro pelas terras altas. Pesa contra ela a ausência de drenagem, de tampas seladas no lugar e de resíduos de água, além da presença dos mortos.
As alegações de que os jarros foram feitos por gigantes ou por visitantes vindos de outro lugar são rejeitadas pelos arqueólogos. Nada nos vasos ultrapassa a capacidade de comunidades da Idade do Ferro com ferramentas de ferro, cordas e trabalho organizado, e as pedreiras com jarros por acabar mostram o processo a meio.
O que fica verdadeiramente em aberto é muito. Quem talhou os jarros, em que língua e sob que organização social, ignora-se, porque nenhuma escrita e nenhum povoado foram associados com segurança aos seus construtores. Porque é que uns sítios reúnem quatrocentos vasos e outros um só, não está explicado. Se os discos de arenito são tampas, marcos ou outra coisa, não está decidido. E o maior obstáculo não é intelectual. Menos de um em cada dez sítios registados foi devidamente investigado e, enquanto os engenhos permanecerem, a maior parte da planície guardará as suas respostas.