Documentado

CROATOAN: a colônia que saiu do mapa

2026-07-13 · Desaparecidos sem rasto · 7 min de leitura

Na manhã de 18 de agosto de 1590, um marinheiro inglês desembarcou na faixa arenosa da ilha de Roanoke e tocou uma trombeta na direção das árvores. Deveria ter sido uma celebração. Em algum lugar daquela ilha baixa e arborizada diante da costa do que hoje é a Carolina do Norte, uma menina chamada Virginia Dare completava três anos, e o homem que mandara tocar a trombeta, o governador da colônia e avô da criança, John White, esperava vê-la chegar correndo. Ninguém veio. Os marinheiros cantaram canções inglesas conhecidas para atrair quem estivesse escondido no mato, e a floresta devolveu apenas o próprio eco.

Quando White enfim abriu caminho até o povoado que deixara três anos antes, encontrou-o desmontado com um cuidado deliberado. As casas haviam sido desmanchadas, não queimadas. Arcas pesadas foram achadas enterradas, desenterradas de novo e revistadas. E gravada num poste da paliçada, no que ele chamou de belas letras maiúsculas, erguia-se uma única palavra: CROATOAN.

A trombeta naquela praia vazia foi o último ato de um empreendimento em apuros desde o primeiro dia. Em 1587, sob uma carta régia de sir Walter Raleigh, cerca de 115 homens, mulheres e crianças ingleses cruzaram o Atlântico para fundar uma colônia permanente no Novo Mundo. Deviam instalar-se na baía de Chesapeake, mas o piloto português da expedição, Simão Fernandes, recusou-se a levá-los adiante e os desembarcou em Roanoke. Ali já fracassara uma guarnição militar anterior, formada só por homens, que deixou as relações com as tribos locais envenenadas pela violência, inclusive a morte de Wingina, o líder roanoke. Foi naquela ilha, em 18 de agosto de 1587, que a filha de White, Eleanor, deu à luz Virginia Dare, a primeira criança inglesa nascida em solo americano.

Em poucas semanas a situação ficou desesperadora. Faltava comida, a estação virava, e os colonos pressionaram o governador a fazer o que nenhum líder deseja: navegar ele próprio de volta à Inglaterra e implorar socorro. Ele não podia saber que levaria três anos para voltar. White chegou à Inglaterra no fim de 1587 e encontrou um país à espera de uma invasão. Quando a Armada Espanhola veio, em 1588, a Coroa requisitou toda embarcação em condições de navegar, e os dois pequenos navios que White acabou conseguindo a muito custo dedicaram-se à pirataria na travessia, saíram maltratados de um combate naval e voltaram a duras penas sem jamais chegar a Roanoke.

Só em 1590 obteve passagem numa viagem de corso. Quando seus botes se aproximaram da ilha, já se levantava uma tempestade. Âncoras foram perdidas e sete homens se afogaram na arrebentação perto da barra. Mal White viu o forte abandonado, o tempo empurrou sua frota de volta ao mar aberto antes que ele pudesse vencer as poucas milhas até Hatteras. Nunca mais pisou na América e morreu por volta de 1593, muito provavelmente na Irlanda, sem jamais saber o que fora feito de sua filha e de sua neta.

A palavra no poste não era sem sentido para ele. Antes de partir, em 1587, White combinara com os colonos um código simples. Se fossem para o interior ou ao longo da costa, gravariam o nome do destino. Se partissem em aflição, sob ataque ou por medo, acrescentariam uma cruz acima. No poste da paliçada estava CROATOAN, numa árvore próxima as letras CRO, e em lugar nenhum uma cruz. Para White a mensagem soava quase esperançosa. Croatoan é a atual ilha de Hatteras, lar da única tribo que permanecera leal, cujo líder Manteo havia navegado até a Inglaterra e voltado. White pretendia segui-los. O Atlântico e, depois, sua própria morte decidiram de outro modo.

Quatro séculos depois, a busca moderna mais bem documentada corre para leste, até a própria Hatteras. A partir de 2013, a Croatoan Archaeological Society, fundada pelo historiador nascido em Hatteras Scott Dawson junto com o arqueólogo britânico Mark Horton, da Universidade de Bristol, escavou um sítio em Cape Creek. A um metro e meio ou dois de profundidade, retiraram milhares de objetos das mesmas camadas de terra: fragmentos de espadas inglesas, peças de armas de fogo, lousas de escrita, cobre e chumbo trabalhados, tudo isso em meio a cerâmica e pontas de flecha croatoan, com indícios de ferraria e metalurgia que prosseguiram até bem dentro do século XVII. Dawson expôs sua leitura dos achados no livro de 2020 The Lost Colony and Hatteras Island. Há também um tênue eco documental: anos depois, colonos de Jamestown reuniram relatos de gente de pele clara, com aparência de ingleses, vivendo entre grupos indígenas ao sul.

Um segundo conjunto de indícios aponta para o lado oposto, terra adentro. Em 2012, pesquisadores da First Colony Foundation pediram ao Museu Britânico que colocasse o próprio mapa de John White de 1585, La Virginea Pars, sobre uma mesa de luz. Sob dois pequenos remendos de correção havia algo escondido: na confluência dos rios Roanoke e Chowan, o símbolo tênue de um forte, como se White tivesse marcado e depois ocultado de propósito um refúgio planejado no interior. Escavando naquela área, num ponto que chamam de Sítio X, na região de Salmon Creek, no condado de Bertie, a fundação recuperou fragmentos de cerâmica da era Tudor do tipo que um pequeno grupo de colonos vivendo longe da costa teria usado.

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Nem todo achado resistiu. O célebre anel Kendall, um sinete com um leão passante, foi certa vez ligado por um especialista londrino em heráldica a um Kendall que participara das viagens da década de 1580, e por muito tempo se supôs que fosse de ouro. Um reexame na East Carolina University concluiu que é de latão.

O que nunca se encontrou é justamente o que encerraria o caso. Em mais de quatro séculos de busca não há túmulo de colono, nem restos identificáveis, nem um fio de DNA ligando uma família viva a Eleanor Dare ou a algum de seus vizinhos, nem um pedaço de diário. As casas se foram, a paliçada se foi, e até a linha de costa que White conheceu foi remodelada pelo mar. O próprio poste apodreceu há muito, de modo que a palavra sobrevive apenas como descrição no relato de um avô enlutado. O que aconteceu com Virginia Dare não é só desconhecido: é impossível de saber por qualquer registro remanescente, e ao longo dos séculos seu nome deslizou da história para a lenda.

Conclusões e perguntas em aberto

A leitura mais popular hoje é também a mais simples, defendida com vigor por Scott Dawson e apoiada nas escavações de Cape Creek: a de que os colonos nunca estiveram perdidos. Mudaram-se para junto de seus aliados exatamente como dizia o poste, e seus descendentes se fundiram à tribo. Sua fraqueza é apontada com constância pelo arqueólogo Charles Ewen, da East Carolina University, a principal voz de cautela na área. Bens ingleses circularam por rotas comerciais indígenas durante décadas, observa ele, de modo que um punho de espada em Cape Creek prova contato, não necessariamente residência. Boa parte do material de Hatteras ainda não passou por revisão por pares completa, e o anel Kendall é um aviso de quão depressa uma história bem arrumada se dissolve sob a luz de um laboratório. Popular não é o mesmo que provado.

Os indícios do Sítio X, apresentados pela First Colony Foundation, sugerem, ao contrário, que ao menos parte do grupo caminhou para oeste, rumo ao forte que White desenhara e depois escondera em seu mapa. Essa cerâmica é autêntica, mas escassa. Um punhado de cacos pode indicar alguns colonos ou um comerciante inglês posterior, e nada disso pode ainda ser ligado a um colono com nome.

A teoria mais antiga é o massacre. Apoia-se sobretudo num testemunho tardio de Jamestown segundo o qual o chefe supremo dos powhatan teria se gabado de destruir um povoado inglês próximo. O relato é de segunda mão, chegou a ouvidos ingleses anos depois e não deixou aldeia queimada nem vala comum que o confirmem. Uma ideia rival sustenta que os colonos construíram um barco e se afogaram tentando chegar à Inglaterra; isso explica a ausência deles, mas não o desmonte calmo, tábua por tábua, das casas, nem um sinal que nomeava com clareza um destino em terra firme. E o medo que assombrava o próprio White, um ataque espanhol, desmorona diante de um fato simples: a Espanha ainda procurava a colônia inglesa anos mais tarde e também nunca a achou.

Uma teoria que hoje ganha terreno diz que a longa caça a uma resposta única foi ela mesma o erro. Alguns argumentam que uma comunidade assustada e meio faminta, deixada três anos sem socorro, não se moveria como um só corpo, e que se partiu sob a tensão: a maior parte indo para Croatoan com a gente de Manteo e cortando a palavra no poste, um grupo menor rumando para o interior e talvez uns poucos desesperados apostando tudo no mar aberto. Se foi assim, não há uma única colônia perdida à espera de ser encontrada, apenas vários desaparecimentos menores.

As perguntas em aberto continuam concretas. Como uma comunidade de mais de cem pessoas não deixa um só corpo nem uma só sepultura marcada? Quem desmonta uma aldeia tábua por tábua, trabalho paciente de mãos sem pressa, em vez de fugir? Por que nenhum visitante inglês posterior se sentou com o povo de Hatteras e simplesmente lhes perguntou o que havia acontecido? E por que os colonos deixaram exatamente uma pista, quando quatrocentos anos de escavações ainda não conseguiram segui-la até o fim?

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