Contestado

O Santo Sudário de Turim: o tecido que se recusa a revelar sua idade

2026-06-18 · Objetos impossíveis · 9 min de leitura

A capela é mantida deliberadamente na penumbra. Atras de um vidro a prova de balas, numa urna vedada e inundada de gas inerte para conter a passagem dos seculos, repousa uma faixa de linho com pouco mais de quatro metros de comprimento. Sobre ela, tao tenue que um visitante que se incline demasiado pode perde-la por completo, flutua a imagem frontal e dorsal de um homem nu. Ele e barbado, as maos cruzadas sobre o ventre, e pela testa, pelo flanco, pelos pulsos e pelos pes correm manchas escuras da cor da ferrugem velha, tracando feridas que coincidem com uma crucificacao romana com uma precisao perturbadora. Durante quase toda a sua vida documentada, o pano foi apenas um objeto de devocao silenciosa. Entao, na tarde de 28 de maio de 1898, um advogado e fotografo amador italiano chamado Secondo Pia recebeu autorizacao para fotografa-lo, e ao erguer a chapa de vidro do banho de revelacao quase a deixou cair. No negativo, onde luz e sombra se invertem, a vaga mancha parda resolvera-se num rosto humano coerente, luminoso, quase escultorico. A mancha do pano comporta-se como um negativo fotografico seculos antes de a fotografia ser inventada. Esse unico facto e o ponto onde comeca o misterio moderno, e ele nunca se afastou em silencio.

O objeto e mais estranho quanto mais se olha para ele. A imagem e superficial, assenta apenas sobre as fibras mais externas do fio, sem pinceladas, sem contorno, sem acumulo de qualquer meio onde a mao de um pintor teria feito uma pausa. As manchas de sangue, onde quer que estejam, assentam sob a imagem e nao por cima, como se o sangue tivesse tocado o pano primeiro e a figura tivesse surgido depois. Os crentes sustentam que e o autentico sudario de Jesus de Nazare, envolto num corpo que de algum modo deixou a propria imagem. Os ceticos respondem que e uma obra-prima do oficio medieval, e que a nossa incapacidade de explica-la diz mais sobre os limites do nosso saber do que sobre qualquer milagre. Durante seiscentos anos, nenhum dos lados conseguiu encerrar o caso.

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