Terremotos do céu: os canhonaços que chegam de um céu azul e limpo
O som chega sem aviso. Um estrondo profundo e retumbante, como fogo de canhão distante ou uma porta pesada batida por um gigante, rola vindo da água sob um céu sem nuvens. As janelas tremem nos caixilhos. Os cães erguem a cabeça e ladram para o nada. As pessoas saem para a varanda e vasculham o horizonte à procura da tempestade, da explosão, do jato voando baixo que deve tê-lo causado, e não encontram absolutamente nada. Nem fumaça. Nem esteira na água. Nem avião. Só o mar, o céu e a lembrança que se desvanece devagar de um ruído que não deveria estar ali. Depois, um mês ou um ano mais tarde, acontece de novo, e de novo ninguém sabe dizer o que foi.
O estranho não é que aconteça uma vez. É que acontece, do mesmo modo enlouquecedor, há muitíssimo tempo, e em lugares que não têm nada a ver uns com os outros. O fenômeno é antigo e difundido o bastante para ter juntado nomes em três continentes distintos. No litoral da Carolina do Norte, onde os estrondos são ouvidos com frequência suficiente para chegar todo verão aos jornais locais, eles são chamados de Canhões de Sêneca, nome emprestado do conto de James Fenimore Cooper de 1850, "The Lake Gun", que descrevia detonações misteriosas ouvidas em torno do lago Sêneca, no norte do estado de Nova York. Na região do delta do que hoje é Bangladesh, funcionários coloniais britânicos do século XIX registraram os "Canhões de Barisal", artilharia fantasma que troava sobre os canais planos perto da cidade de Barisal, em geral para o sul e o sudeste, quase sempre com tempo úmido ou de neblina.
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