Documentado

Alem do horizonte: o Waratah e as 211 pessoas que foram com ele

2026-08-23 · Navios fantasma · 7 min de leitura

Pouco depois das seis da manha de 27 de julho de 1909, o oficial de quarto do cargueiro Clan MacIntyre viu um navio grande aproximar-se depressa por popa. O mar ao largo da Costa Selvagem da Africa do Sul estava moderado naquela manha, a luz de inverno era cinzenta e limpa, e o desconhecido navegava a talvez treze nos contra os nove do Clan MacIntyre. Ultrapassou o navio menor a poucas milhas da foz do rio Mbashe e ambos trocaram sinais a maneira antiga, com bandeiras e com lanterna. O recem-chegado deu o seu nome: Waratah, saido de Durban, com destino a Cidade do Cabo e depois a Londres. O Clan MacIntyre desejou-lhe boa travessia. O Waratah respondeu com a mesma cortesia, seguiu em frente e, em cerca de duas horas, era uma mancha no horizonte, e depois nao era nada.

Foi a ultima vez que alguem o viu. A bordo iam duzentas e onze pessoas.

O Waratah nao era um navio velho e gasto pelo servico. Fora lancado a agua em 1908 pela Barclay Curle, no Clyde, para a Blue Anchor Line, com pouco mais de 500 pes de comprimento e cerca de 9.339 toneladas brutas, construido para a longa rota de emigrantes entre a Gra-Bretanha e a Australia. Levava passageiros com conforto e muitissima carga por baixo deles, e a companhia anunciava-o como o melhor da rota australiana. A viagem que terminou ao largo do Mbashe era apenas a segunda.

Mesmo assim tinha fama, e ela vinha desde a primeira viagem. Passageiros e oficiais descreviam um navio que balancava muito, que adernava e voltava devagar e a contragosto a posicao direita, que parecia ficar suspenso no fim de cada balanco um instante mais do que devia. Queixas desse tipo sao comuns no mar e costumam ser esquecidas. Neste caso ficaram escritas, e dezoito meses depois foram lidas em voz alta num tribunal de Londres.

O Waratah saiu de Durban a 26 de julho de 1909 com 211 passageiros e tripulantes, carvao nos paios e carga pesada nos poroes, rumo primeiro a Cidade do Cabo. Um passageiro nao partiu com ele. Claude Gustav Sawyer, engenheiro que atravessara muitos oceanos, passara a travessia desde a Australia cada vez mais inquieto com o comportamento do navio e, em Durban, pegou na bagagem e desembarcou. Enviou a mulher um telegrama que e citado desde entao: achava o Waratah pesado demais em cima, e desembarcara em Durban.

Era esperado na Cidade do Cabo a 29 de julho. Nao chegou. A 28 de julho um temporal severo subiu a Costa Selvagem, forte o bastante para que outros navios da zona registassem condicoes extraordinarias, e a primeira suposicao em terra foi a habitual: avaria nas maquinas, um navio a deriva sem propulsao, uma semana de angustia e depois boas noticias. As boas noticias nunca chegaram.

O que se seguiu foi uma das maiores buscas da epoca. Navios de guerra da Marinha Real foram enviados ao longo da costa e para o oceano Indico. A Blue Anchor Line fretou o Sabine, que passou cerca de tres meses e algo como 14.000 milhas a esquadrinhar o oceano austral, ate ao gelo, e nao encontrou nada. Em 1910 familiares dos desaparecidos financiaram um segundo navio, o Wakefield, que tambem nada encontrou. A tripulacao do paquete Insizwa relatou ter visto corpos na agua ao largo da costa; o relato nunca foi corroborado, nenhum corpo foi recolhido, e continua a ser uma nota de rodape contestada e nao uma prova. Em mais de um seculo, nenhum destroco, bote, colete ou resto humano foi identificado como pertencendo ao Waratah.

Um pormenor explica o silencio, ainda que nao a perda. O Waratah nao levava equipamento de radio. Em 1909 a telegrafia sem fios ainda era facultativa, e o navio nao a tinha, pelo que nunca houve possibilidade de um pedido de socorro. Simplesmente deixou de existir entre um horizonte e o seguinte.

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A Blue Anchor Line nao sobreviveu ao desastre. Os seus navios foram vendidos a P&O e, em dezembro de 1910, abriu em Caxton Hall, em Londres, o inquerito do Board of Trade. Durou semanas. Arquitetos navais discutiram a sua altura metacentrica, o modo como o carvao e a carga tinham sido estivados, o que acontece a estabilidade de um navio quando os paios se esvaziam numa travessia longa. Passageiros da primeira viagem descreveram os balancos. Claude Sawyer depos sobre o movimento do navio e contou ainda ao tribunal que durante a travessia o tinham perturbado sonhos vividos e inquietantes, que apontou como uma das razoes para ter desembarcado em Durban. O tribunal levou a serio o seu testemunho sobre o comportamento do navio, e o relato dos sonhos pelo que era: uma testemunha a explicar o seu proprio estado de espirito. No fim, o inquerito concluiu que o Waratah se perdera, muito provavelmente ao adernar por completo num temporal de violencia excecional, e que as provas disponiveis nao bastavam para dizer porque.

O capitulo moderno pertence em grande medida a um so homem. Emlyn Brown, explorador marinho sul-africano, passou vinte e dois anos a procurar os destrocos, por vezes com o apoio do escritor americano Clive Cussler e da sua agencia de exploracao submarina. Em 1999 os jornais trouxeram a noticia que a historia esperava havia noventa anos: um alvo de sonar a cerca de dez quilometros da costa do Cabo Oriental cujo contorno correspondia ao paquete desaparecido. Os mergulhadores chegaram la em 2001. Era o Nailsea Meadow, um navio britanico afundado na Segunda Guerra Mundial, deitado quase exatamente onde o Waratah deveria estar. Em 2004 Brown anunciou que desistia. Esgotara, disse, todas as opcoes e ja nao sabia onde procurar.

Conclusoes e perguntas em aberto

A explicacao mais aceite e uma onda gigante. O trecho de costa onde o Waratah desapareceu e um dos poucos lugares do planeta onde essas ondas nao sao folclore: onde a rapida corrente das Agulhas desce para sul e um forte temporal de sudoeste empurra para norte contra ela, a energia das ondas comprime-se em paredes de agua ingremes com uma cava profunda a frente. Um trabalho do professor Mallory, da Universidade da Cidade do Cabo, no inicio dos anos setenta documentou ondas ate cerca de vinte metros nesse corredor, e grandes navios modernos sofreram danos ali. A forca da teoria e que o mecanismo e real, local e estava a funcionar num temporal exatamente naquela noite. A sua fraqueza e que navios atingidos por ondas gigantes costumam deixar alguma coisa, e o Waratah nao deixou nada.

A segunda teoria e aquela a que o inquerito dedicou mais tempo: que era simplesmente pesado demais em cima. Passageiros independentes entre si descreveram os balancos e as adernagens, e o seu centro de gravidade teria subido de forma constante a medida que o carvao ardia nos paios numa viagem longa. A forca deste argumento e que nao depende de nenhum acontecimento excecional, apenas de mar grosso a encontrar um navio no limite. A sua fraqueza e que nunca se fez uma prova de estabilidade que fixasse a estabilidade real, pelo que todos os numeros discutidos em Caxton Hall eram estimativas construidas sobre outras estimativas, e o navio ja completara uma viagem inteira a Australia e de volta sem desastre.

Uma sugestao aparentada e o deslocamento de carga pesada. Se material denso se moveu num porao enquanto o navio balancava no temporal, ele podia virar-se em minutos. Isto encaixa com a ausencia total de sinal ou de botes arriados. Tambem nao pode ser testado, ja que os manifestos sao discutidos e o navio nunca foi encontrado.

Foi proposto um incendio ou explosao nos paios de carvao para explicar a subitaneidade da perda. Os incendios de carvao eram um perigo real da epoca. Mas costumam arder lentamente durante dias e dao a tripulacao tempo para agir e, mais uma vez, nao houve destrocos a boiar do tipo que uma perda dessas produz.

O que continua por explicar nao e, na verdade, o naufragio. Os navios afundam-se. O que continua por explicar e o carater completo do desaparecimento. Em 1909, um navio daquele tamanho a ir ao fundo deveria ter deixado um campo de destrocos de madeira, coletes de cortica, ferragens de convés e botes, e os navios de busca estavam na costa em poucos dias. Nada foi recolhido e nada foi identificado desde entao, apesar de campanhas de sonar que encontraram outros naufragios nas mesmas aguas. Ate alguem apontar uma camara ao seu casco, o Waratah continua a ser o que era na manha de 27 de julho de 1909: um navio que respondeu com cortesia, seguiu em frente e passou alem do horizonte.

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