Resolvido

A fita chamada Steve: como amadores do ceu deram nome a uma luz que a ciencia ignorou

2026-07-12 · Natureza inexplicável · 9 min de leitura

Numa noite fria e limpa do inverno de 2015, um pequeno grupo de fotografos estava no escuro em algum ponto da provincia canadiana de Alberta, os tripes cravados na neve, a espera da aurora boreal. O que se ergueu sobre eles nao era a aurora boreal. Em vez das conhecidas cortinas verdes a ondular ao longo do horizonte, uma fina fita de malva palido estendeu-se a direito pelo ceu de leste a oeste, estreita e de bordos nitidos, como um risco de luz tracado a regua. Nao balancava como uma aurora balanca. Simplesmente pairava ali, brilhando em malva, por vezes debruada na borda inferior por uma fileira de curtas listras verdes que a mais de um observador pareceram uma paliçada posta de lado. Os fotografos ja o tinham visto antes. Fotografavam-no havia anos. E ainda assim nao faziam ideia do que era.

Pertenciam a um grupo do Facebook chamado Alberta Aurora Chasers, uma comunidade informal de amadores que saiam em noites geladas para cacar o ceu. Entre si tinham ganho o habito de chamar ao estranho arco malva "Steve", um nome deliberadamente vazio, deliberadamente sem sentido, tomado de emprestimo do filme de animacao de 2006 A Familia da Floresta, no qual os animais assustados dao a um objeto desconhecido um nome humano inofensivo para que deixe de meter medo. A piada pegou. E numa disciplina onde os fenomenos usam nomes como subtempestade e ovalo auroral, o facto de uma coisa sem nome ser fotografada noite apos noite por amadores, e nao por cientistas, viria a tornar-se a parte mais embaracosa e mais maravilhosa de toda a historia.

Os cacadores partilharam as suas imagens com duas pessoas que talvez soubessem: Elizabeth MacDonald, cientista de meteorologia espacial da NASA e fundadora do Aurorasaurus, um projeto criado precisamente para integrar as observacoes dos cidadaos na investigacao real, e Eric Donovan, fisico de auroras da Universidade de Calgary. Juntos, MacDonald e Donovan traziam decadas de experiencia a observar a alta atmosfera. Nenhum deles soube dizer o que era Steve. Vale a pena deter-se nessa confissao. Dois profissionais cujas carreiras se tinham construido sobre o conhecimento do ceu noturno olhavam para fotografia apos fotografia de uma estrutura brilhante que se arqueava sobre cidades povoadas, e tinham de reconhecer que estavam a ver algo que nao constava da literatura.

Donovan percebeu que a resposta nao viria apenas das fotografias. Era precisa uma coincidencia: um satelite a atravessar a fita exatamente no momento em que uma camara em terra a captasse. A Agencia Espacial Europeia tinha por acaso os instrumentos certos em orbita, um trio de satelites chamado Swarm, concebido para medir os campos magnetico e eletrico da Terra. Quando Donovan fez coincidir um avistamento de Steve a partir do solo com uma passagem do Swarm, os numeros que voltaram foram assombrosos. A altura em que Steve brilhava, cerca de 450 quilometros de altitude, o satelite voou atraves de uma fita de gas com cerca de 25 quilometros de largura onde a temperatura disparava para uns 3.000 graus Celsius, e onde particulas carregadas fluiam para oeste a perto de seis quilometros por segundo, milhares de vezes mais depressa do que o ar de cada lado.

Essa medicao deu ao nome provisorio uma casa permanente. No artigo de 2018 publicado na Science Advances, o primeiro estudo revisto por pares do fenomeno, a equipa manteve o nome escolhido pelos cacadores mas transformou-o ao contrario num acronimo digno de uma revista: Strong Thermal Emission Velocity Enhancement, forte realce da velocidade de emissao termica. Steve tornara-se STEVE. Foi um gesto generoso, um caso raro em que a ciencia profissional se curva perante os amadores que viram primeiro. Mas o acronimo tambem registou em silencio o que os cientistas tinham aprendido e, de forma mais reveladora, o que ainda nao sabiam.

O caminho de um album do Facebook ate uma revista cientifica foi tudo menos suave, e vale a pena deter-se no quao improvavel foi de facto toda a cadeia de acontecimentos. Um satelite a cruzar a largura exata da fita no segundo exato em que o obturador de um fotografo esta aberto nao e algo que alguem possa agendar; e um premio de loteria por que Donovan simplesmente teve de esperar. O Aurorasaurus, entretanto, tornou-se o tecido conjuntivo da descoberta, uma plataforma onde as pessoas comuns podiam registar o que viam e onde os cientistas podiam pescar as raras coincidencias que transformam uma anedota em prova. Nos anos seguintes chegaram as centenas os avistamentos, cada um uma pequena confirmacao de que Steve nao era uma esquisitice de uma camara ou de uma noite, mas sim um traco recorrente e repetivel do ceu subauroral que simplesmente nunca fora anotado.

Porque e aqui que a arrumada historia da descoberta comeca a desfiar-se. A fita de gas quente e veloz que o Swarm mediu e bem conhecida dos fisicos por outro nome: uma deriva ionica subauroral, ou SAID, por vezes descrita dentro da familia mais ampla das correntes de polarizacao subaurorais. Estes velozes fluxos para oeste de plasma quente tinham sido estudados durante decadas. O que ninguem nunca tinha ligado a eles era uma luz visivel. Um SAID supunha-se invisivel, um rio de energia que se podia detetar com instrumentos mas jamais ver a olho nu. Steve provou que essa suposicao era falsa. E esse e o nucleo do misterio que sobrevive ainda hoje, anos depois de o nome se ter tornado oficial: sabemos onde Steve vive e sabemos que cavalga sobre uma deriva ionica subauroral, mas nao compreendemos por completo como essa deriva produz luz sequer.

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Para captar por que isso e tao perturbador, e preciso entender o que e de facto uma aurora comum. A aurora boreal brilha porque particulas carregadas do espaco chovem ao longo das linhas do campo magnetico e embatem no oxigenio e no azoto no alto da atmosfera, excitando esses atomos ate que libertam luz. Esse aguaceiro de particulas chama-se precipitacao, e e o motor de toda a aurora classica. Quando os investigadores examinaram Steve a fundo, descobriram que o motor faltava. Nao havia uma precipitacao de eletroes apreciavel a cair na fita malva. Fosse o que fosse que a acendia, nao era o mecanismo que acende a aurora. Por essa razao os cientistas dizem agora sem rodeios que Steve nao e de todo uma aurora, ainda que apareca ao lado da aurora e pareca, a um olho pouco treinado, um primo dela. E outra coisa, um brilho produzido pelo calor e pelo atrito numa corrente veloz e nao por particulas que caem de cima.

A paliçada verde complica ainda mais o quadro. Quando o espectrografo Transition Region Explorer no Canada finalmente captou a luz de Steve e a decompos num espetro em 2019, verificou-se que a fita malva nao tinha assinatura limpa nenhuma, nem uma unica linha de emissao brilhante, mas sim uma larga mancha de cor que aponta para aquecimento e nao para as impressoes digitais atomicas discretas que uma aurora deixa. As listras verdes ao lado contaram outra historia. A sua luz era dominada pela emissao do oxigenio a 557,7 nanometros, esse mesmo verde que as auroras comuns produzem, o que sugere que a paliçada e a fita malva talvez sejam acesas por dois processos distintos lado a lado. Uma teoria, avancada pelos investigadores que examinaram aquele espetro, e que campos eletricos alinhados com o campo magnetico poderiam estar a energizar eletroes localmente, la em baixo onde a paliçada se forma, permitindo-lhes atingir a atmosfera e brilhar sem que nenhuma particula tenha de cair do espaco. E uma ideia plausivel. Nao e uma ideia arrumada.

Ha ainda uma dobra que mantem os especialistas honestos. Steve tende a aparecer em latitudes mais baixas do que a aurora classica, mais perto dos lugares onde de facto vive a maioria das pessoas, o que deveria ter facilitado, e nao dificultado, dar por ele. Que tenha passado despercebido tanto tempo diz algo incomodo sobre quanto ceu olhamos sem verdadeiramente ver. Levanta tambem uma pergunta mais silenciosa sobre a fronteira entre os dois brilhos. Se Steve e a aurora comum partilham tantas vezes a mesma noite, movidos pela mesma grande perturbacao do espaco proximo da Terra, entao onde acaba exatamente um fenomeno e comeca o outro, e quantos velhos relatos de auroras integraram em silencio um avistamento de Steve no registo sem que ninguem alguma vez notasse a diferenca?

Com que ficamos entao, na verdade? Com um fenomeno que esteve anos escondido em fotografias comuns, ao qual a ciencia profissional passou ao lado ate os amadores forcarem a pergunta, que agora usa um acronimo formal e uma altitude e temperatura medidas, e que ainda nao pode ser explicado a partir de primeiros principios. Nao se pode deixar de imaginar quantas pessoas ao longo das decadas viram aquela linha malva no ceu, supuseram que era uma faixa estranha de aurora e nunca a mencionaram a ninguem. A velha literatura sobre auroras contem referencias dispersas a "arcos malva" e bandas roxas inexplicadas que recuam muitos anos, fantasmas de Steve que foram registados e esquecidos porque ninguem tinha um quadro para os segurar. E perfeitamente possivel que Steve tenha andado a aparecer sobre cabecas humanas durante tanto tempo quanto ha cabecas humanas sobre as quais aparecer, e que so a chegada de camaras baratas e sensiveis e de uma rede social para juntar as imagens o tenha tornado por fim inegavel.

Tambem se tem de imaginar o que o batismo de Steve revela sobre os pontos cegos da pericia. Os cacadores nao tinham diplomas. Nao tinham teoria, nem financiamento, nem instrumentos alem das suas camaras e da sua paciencia. O que tinham eram milhares de horas a olhar, e a disposicao de dizer em voz alta que algo nao encaixava. Os profissionais tinham a fisica mas nao os olhos. Foi a colisao dos dois, os amadores que viram e os cientistas que mediram, que transformou uma piada interna do Facebook numa linha do registo cientifico. Se Steve tivesse esperado que um fisico reparasse nele por si so, talvez estivesse ainda a espera.

Restam enigmas mais fundos que ate os especialistas formulam com cautela. Por que razao uma deriva ionica subauroral, presente em muitas noites, so por vezes se acende como uma fita visivel? O que faz exatamente o continuo malva brilhar, se nao sao particulas a cair? Por que aparece a paliçada por vezes antes de Steve, por vezes depois de ele se apagar, e por vezes nunca? Cada uma destas perguntas esta em aberto, e cada uma insinua que o rotulo de "resolvido" assenta desconfortavelmente sobre este fenomeno. Demos nome a Steve, localizamo-lo e cronometramos a sua velocidade, o que e uma conquista autentica e arduamente ganha. Se de facto o explicamos e outra questao, e os investigadores honestos nao fingem o contrario.

Talvez seja isso o mais humano de todo o assunto. Steve e um lembrete de que descobrir nem sempre significa viajar aos confins do sistema solar ou construir a maior maquina jamais feita. Por vezes significa estar de pe num campo nevado, olhar para cima para uma luz por que todos os outros passaram ao lado, e ter a coragem de perguntar o que e. O ceu sobre Alberta dava este espetaculo havia muitissimo tempo. So precisava de alguem teimoso o suficiente para continuar a olhar, e honesto o suficiente, quando os especialistas chegaram, para admitir que ninguem sabia ainda a resposta. Steve, seja o que for que venha a revelar-se ao fim, esta ainda la em cima na maioria das noites limpas, brilhando no seu paciente malva, a espera de que o resto da explicacao alcance o seu nome.


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