O duplo clarao: o que o satelite Vela viu sobre o oceano austral
O satelite que viu aquilo ja era velho. O Vela 6911 tinha sido lancado em maio de 1969, numa orbita tao alta que vigiava quase metade do planeta de uma so vez, e no outono de 1979 estava ha mais de dois anos alem do fim da sua vida util de projeto. A sua tarefa era simples e enorme. Estava ali para vigiar a Terra e o espaco em redor a procura da luz de uma explosao nuclear, e para garantir que ninguem pudesse detonar uma na atmosfera sem que os Estados Unidos soubessem. As 00:53 GMT de 22 de setembro de 1979, sobre um trecho vazio do oceano austral entre a Africa e a Antartida, registou exatamente isso.
Os instrumentos que fizeram o registo eram dois pequenos sensores de luz de silicio com um nome estranho. Chamavam-lhes bhangmetros, por causa de uma piada sobre o preparado indiano de canabis chamado bhang, sob o argumento de que so alguem sob o seu efeito acreditaria que um aparelho assim pudesse funcionar. O que mediam era a forma da luz ao longo do tempo. Uma bola de fogo nuclear tem uma assinatura que quase nada mais na natureza produz: um primeiro pico intenso de cerca de um milesimo de segundo, depois uma queda quando a frente de choque em expansao fica opaca e esconde a bola atras de si, e em seguida um segundo pulso, mais lento, mais brilhante e muito mais longo, quando a frente se adelgaca e a bola volta a brilhar atraves dela. E esse o duplo clarao. Nos dezasseis anos de servico dos satelites Vela, eles tinham-no registado quarenta e uma vezes. Cada uma dessas quarenta e uma foi um teste nuclear.
A quadragesima segunda leitura apontava para um trecho de mar perto das ilhas Principe Eduardo e Marion, duas possessoes sul-africanas frias e fustigadas pelo vento, a cerca de 47 graus sul e 40 graus leste, onde o oceano Indico encontra o Atlantico. A potencia estimada era pequena, de duas a tres quilotoneladas, uma fracao da bomba lancada sobre Hiroshima. E a potencia de um Estado que testa um dispositivo compacto, nao de um Estado que exibe uma capacidade ao mundo.
O alerta chegou a Washington em poucas horas. O presidente Jimmy Carter anotou-o no seu diario nesse mesmo dia: "Havia indicacao de uma explosao nuclear na regiao da Africa do Sul - ou a Africa do Sul, ou Israel usando um navio no mar, ou nada." As tres possibilidades que escreveu numa unica linha naquela noite sao, no essencial, as tres possibilidades de hoje.
O que se seguiu foi uma das investigacoes tecnicas mais intensas que os Estados Unidos ja montaram em torno de um unico segundo de dados, e produziu um resultado que quase ninguem aceitou. Avioes da Forca Aerea equipados para recolher amostras de ar voaram repetidamente sobre o sul do Indico a procura de produtos de fissao. Nao encontraram nada. A regiao esta entre as mais vazias e tempestuosas do planeta, a area de busca abrangia milhoes de quilometros quadrados e o tempo estava mau, mas a ausencia de residuos continuou a ser o facto mais prejudicial a hipotese nuclear.
Depois a corroboracao comecou a chegar de direcoes que ninguem previra. A 8 de novembro de 1979, John Deutch, entao subsecretario da Energia, comunicou que o Observatorio de Arecibo, em Porto Rico, captara na manha de 22 de setembro uma perturbacao ionosferica viajante anomala, uma onda que se deslocava de sudeste para noroeste. Arecibo nunca registara nada parecido. Perturbacoes desse tipo tinham sido documentadas apos testes atmosfericos sovieticos no Artico em 1961.
O Laboratorio de Investigacao Naval recorreu aos hidrofones. Os Estados Unidos mantinham redes de escuta submarina no Atlantico, e os analistas foram buscar os registos das estacoes do sistema de localizacao de impacto de misseis na ilha de Ascensao. O que encontraram, concluiram, eram sinais acusticos do tipo associado a detonacoes nucleares em ambiente maritimo, vindos de aguas pouco profundas entre as ilhas Principe Eduardo e Marion. A primeira vista era uma confirmacao independente por um canal fisico completamente diferente: luz vinda da orbita, som atraves do mar, ambos a apontar para os mesmos poucos quilometros quadrados de agua.
A Casa Branca nao se convenceu. Frank Press, conselheiro cientifico de Carter, tratou de que o Gabinete de Politica Cientifica e Tecnologica reunisse um painel de cientistas externos presidido por Jack Ruina, do MIT, antigo diretor da agencia de projetos de investigacao avancada do Departamento de Defesa. O painel apresentou o relatorio em meados de 1980. Encontrou o que chamou um desvio significativo da assinatura luminosa em relacao ao padrao de uma detonacao nuclear autentica: os dois bhangmetros do satelite, que deveriam concordar de perto, tinham registado intensidades que nao coincidiam como o painel esperava. Ofereceu uma alternativa. Um pequeno meteoroide, sugeriu, poderia ter atingido o satelite envelhecido e libertado uma nuvem de detritos, e fragmentos iluminados pelo sol, ao derivarem pelo campo de visao dos sensores, poderiam ter tracado uma falsa dupla corcova. A conclusao foi cuidadosamente redigida e discretamente demolidora: "com base na nossa experiencia em avaliacoes cientificas afins, e nosso juizo coletivo que o sinal de 22 de setembro provavelmente nao proveio de uma explosao nuclear."
O veredicto nao encerrou a discussao dentro do governo. Dividiu-a. Uma avaliacao da CIA colocava a probabilidade de o evento ter sido um teste nuclear em noventa por cento ou mais. A agencia de informacoes da defesa, o Departamento de Defesa e o Departamento de Energia apoiavam em larga medida a leitura nuclear. Os cientistas de Los Alamos que tinham construido os sensores Vela insistiam que os instrumentos haviam funcionado bem. O estudo hidroacustico do laboratorio naval, a peca de prova fisica independente mais detalhada que alguem produziu, nao foi seriamente examinada pelo painel de Ruina.
Mais um fio chegou do outro lado do mundo. Foram comunicados niveis baixos de iodo-131, um produto de fissao com meia-vida de cerca de oito dias, em ovelhas dos estados australianos de Victoria e Tasmania nas semanas seguintes ao evento, a sotavento do local suspeito. As ovelhas testadas na Nova Zelandia nao mostraram vestigio algum. O achado e discutido desde entao, porque a amostragem foi limitada e os niveis muito baixos, mas o padrao era compativel com precipitacao radioativa levada para leste pelos ventos dominantes.
Tudo isto aconteceu num momento politicamente impossivel. O tratado de controlo de armamento SALT II fora assinado tres meses antes e aguardava o Senado. Carter construira a sua presidencia e a sua campanha de reeleicao sobre a nao proliferacao. Uma conclusao inequivoca de que um parceiro proximo tinha testado uma arma nuclear em segredo teria detonado dentro de Washington. Leonard Weiss, entao diretor da equipa do subcomite do Senado para a energia e a proliferacao nuclear, argumentou durante anos que o painel de Ruina fora convocado precisamente para produzir uma resposta tranquilizadora, e que as informacoes sobre o programa nuclear israelita foram ocultadas aos cientistas que o integraram. Victor Gilinsky, entao membro da comissao reguladora nuclear, fez a mesma acusacao: a politica moldou a ciencia. O proprio Carter escreveu no diario a 27 de fevereiro de 1980 que um numero crescente de cientistas americanos acreditava que os israelitas tinham realizado um teste no oceano ao largo do sul de Africa. Nenhum dos dois governos alguma vez confirmou algo do genero.
As decadas seguintes deslocaram o peso da opiniao especializada sem produzir provas. Em 1993 o presidente F. W. de Klerk revelou que a Africa do Sul construira seis dispositivos nucleares e os desmantelara, e declarou que o seu pais nunca realizara um teste. Em abril de 1997 o jornal israelita Haaretz citou o vice-ministro dos Negocios Estrangeiros sul-africano Aziz Pahad a confirmar que o clarao de 1979 fora um teste sul-africano; em menos de um dia o seu gabinete declarou que ele apenas repetira um rumor antigo e quisera dizer que devia ser investigado. Em 2003 Stansfield Turner, diretor da CIA em 1979, afirmou que a detecao do Vela fora de um fenomeno feito pelo homem. Em 2016 os investigadores do Arquivo de Seguranca Nacional William Burr e Avner Cohen publicaram um estudo documental que concluia que o equilibrio das provas favorecia um teste de armas. Um artigo de 2017 na revista Science and Global Security defendeu que a explicacao do meteoroide era muito menos provavel do que o painel de Ruina supusera. Um artigo de 2018 na mesma revista, de Lars-Erik De Geer e Christopher Wright, percorreu as provas radionuclidicas e hidroacusticas e apresentou um caso detalhado a favor de um teste nuclear. Em 2022 uma reanalise de dados do satelite Nimbus-7 da NASA descreveu um vestigio na camada de ozono compativel com uma onda de choque chegada 16 minutos e 44 segundos apos o clarao.
Os Estados Unidos nunca reviram a sua posicao oficial. Partes do processo continuam classificadas ate hoje.
Conclusoes e perguntas em aberto
A explicacao do teste nuclear assenta na convergencia. A sua forca e que luz, som e talvez tambem precipitacao radioativa apontam para a mesma agua a mesma hora, e que os sensores Vela nunca tinham produzido um duplo clarao falso em quarenta e uma detecoes anteriores. A sua fraqueza sao os residuos ausentes: semanas de voos de amostragem nao devolveram nada, e uma detonacao de baixa potencia perto da superficie deveria ter deixado algo por encontrar.
A hipotese do meteoroide avancada pelo painel de Ruina tem a virtude de explicar a anomalia da curva de luz sem exigir um teste secreto de quem quer que seja. A sua fraqueza e aritmetica. A probabilidade de uma particula atingir aquele satelite em concreto e libertar exatamente os detritos iluminados necessarios para imitar a unica assinatura que o instrumento fora concebido para reconhecer e muito pequena, e a analise de 2017 colocou-a ainda mais baixo. Alem disso nao explica nada do que aconteceu na ionosfera sobre Porto Rico nem na agua ao largo de Ascensao.
Uma terceira possibilidade e a menos discutida e a mais dificil de excluir: que um satelite envelhecido tenha simplesmente falhado, e que Arecibo, os hidrofones e as ovelhas australianas sejam acontecimentos sem relacao, mais tarde montados num padrao por quem procurava um. Tambem isto ninguem demonstrou.
A atribuicao e uma questao distinta da detecao. Uma teoria, defendida por Weiss e outros, sustenta que o teste foi israelita, talvez realizado a partir de um navio no mar. Outra sustenta que foi sul-africano, ou um empreendimento conjunto. As revelacoes sul-africanas posteriores ao apartheid afirmam que o pais nunca testou. Israel nunca confirmou nem desmentiu sequer possuir armas nucleares. Nenhum governo apresentou um documento que assuma a responsabilidade, e os arquivos americanos que poderiam resolver a questao continuam, em parte, retidos.
O que nao se discute e que um instrumento construido para um proposito fez exatamente aquilo para que fora construido, e que o pais que o construiu leva mais de quatro decadas sem conseguir concordar sobre o que ele viu.