UM CASO REAL
Documentado

Dez dos doze nao tem nome: os assassinatos dos torsos de Cleveland

2026-09-09 · · Pessoas sem nome · 7 min de leitura

Na tarde de 23 de setembro de 1935, dois meninos desciam correndo a encosta conhecida como Jackass Hill, na borda leste de uma ravina chamada Kingsbury Run, quando um deles viu algo branco no mato la embaixo. Era o corpo de um homem. Sem cabeca. A uns nove metros havia um segundo corpo, tambem decapitado, mais antigo, com a pele descolorida e endurecida de um jeito que o legista atribuiria depois a um conservante quimico. As cabecas foram encontradas enterradas por perto. Os dois homens foram decapitados e nos dois casos a decapitacao foi a causa da morte, o que significa que estavam vivos quando ela comecou.

Kingsbury Run e uma ravina natural que corta o lado leste de Cleveland e leva linhas ferreas ate o rio Cuyahoga. Em 1935 era um corredor de aterros, trilhos, mato e barracos, e a Depressao o enchera de homens que nao tinham para onde ir. Era o tipo de lugar onde um corpo podia ficar semanas. Nos tres anos seguintes a policia voltaria ali muitas vezes.

Impressoes digitais identificaram um dos dois homens de Jackass Hill como Edward Andrassy, de vinte e nove anos, conhecido da policia e conhecido no bairro. O outro nunca foi identificado e entrou no processo como John Doe I. O padrao se manteve com brutal constancia. Em 26 de janeiro de 1936, partes de uma mulher apareceram em cestos atras de um comercio na rua 20 Leste; as digitais deram o nome dela, Florence Polillo, e ela continua sendo uma das apenas tres vitimas que alguem conseguiu nomear. Em 5 de junho de 1936, dois meninos que mataram aula para pescar acharam uma calca enrolada sob uma arvore no lado leste. Dentro estava amarrada a cabeca cortada de um homem. O corpo apareceu perto dali, junto aos trilhos.

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Essa vitima virou a mais famosa e a mais exasperante. Era jovem, bem alimentado, e tinha seis tatuagens, entre elas os nomes Helen e Paul e as iniciais W.C.G. A policia tirou suas digitais, distribuiu descricoes pelo pais e mandou fazer uma mascara mortuaria de seu rosto. Em 1936 essa mascara foi exposta ao publico na Exposicao dos Grandes Lagos, a beira do lago em Cleveland, junto com desenhos das tatuagens. Diz se que mais de cem mil pessoas passaram diante dela. Nenhuma o reconheceu. Noventa anos depois ele ainda e John Doe II, ainda e o Homem Tatuado.

As descobertas continuaram. Em 22 de julho de 1936 apareceram restos na regiao de Brooklyn, na cidade. Outra vitima foi retirada de uma poca parada perto da rua 37 Leste. Em 23 de fevereiro de 1937 partes de uma mulher deram na praia de Euclid Beach. Em 6 de junho de 1937 um esqueleto foi encontrado sob a ponte Lorain-Carnegie e identificado provisoriamente como Rose Wallace, a terceira e ultima das vitimas com nome, e nem essa identificacao jamais foi considerada segura. Em 6 de julho de 1937 os restos de um homem sairam do rio Cuyahoga. Na primavera de 1938 os de uma mulher sairam do mesmo rio. Em 16 de agosto de 1938 duas outras vitimas apareceram no mesmo dia, uma mulher num lixao da rua 9 Leste e um homem a beira do lago, a vista da sede da policia da cidade.

A contagem oficial e de doze, sete homens e cinco mulheres, encontrados entre setembro de 1935 e agosto de 1938. Nem todas as fontes concordam. Alguns investigadores e autores falam em treze, e alguns acrescentam a chamada Dama do Lago, restos parciais de uma mulher trazidos a praia perto de Bratenahl em 5 de setembro de 1934, mais de um ano antes de Jackass Hill. Outros vao alem e ligam ao caso um homem sem cabeca achado num vagao de trem em New Castle, na Pensilvania, em 1 de julho de 1936, e tres vitimas sem cabeca achadas em vagoes em McKees Rocks, no mesmo estado, em 3 de maio de 1940. A divergencia nao e pequena. Ela muda quando os crimes comecaram, quando pararam e se de fato pararam.

O que os doze certamente tinham em comum era o metodo. As vitimas foram decapitadas, muitas vezes desmembradas, na maioria dos casos com uma competencia evidente e sem pressa. O legista Samuel Gerber sustentava que quem fez aquilo entendia de anatomia. Em varios casos os corpos foram drenados de sangue e lavados. Onde os assassinatos aconteceram nunca foi estabelecido; nenhum local foi encontrado. A maioria das vitimas vinha da populacao itinerante da ravina e das pensoes baratas em volta, gente cuja ausencia ninguem tinha condicoes de comunicar.

A investigacao durou anos. O detetive Peter Merylo trabalhou no caso por seis deles, seguindo milhares de pistas. O diretor de seguranca publica era Eliot Ness, entao com trinta e cinco anos e famoso em todo o pais pelo combate ao crime organizado em Chicago, e os assassinatos dos torsos foram a unica coisa que ele nao resolveu em Cleveland. Em 18 de agosto de 1938, dois dias depois da descoberta dupla, Ness levou cerca de trinta e cinco policiais as favelas de Kingsbury Run. Os homens que viviam ali foram reunidos e fichados, sob o argumento declarado de que o assassino tirava suas vitimas daquela populacao e de que identificar seus moradores os protegeria e ajudaria a nomear os mortos. Depois, por ordem de Ness, os barracos foram queimados. Foi o ato mais criticado de sua carreira. Tambem coincidiu com o fim dos assassinatos. Nenhuma outra vitima foi encontrada na ravina.

Em julho de 1939 o gabinete do xerife do condado de Cuyahoga prendeu Frank Dolezal, um pedreiro na casa dos cinquenta que conhecera Florence Polillo. Depois de dias sob custodia, ele confessou te la matado. A confissao continha erros, ele se retratou e disse que fora espancado. Em 24 de agosto de 1939 foi encontrado enforcado na cela. Registrou se suicidio. Um exame posterior encontrou costelas quebradas que ele nao tinha quando foi preso. Nunca foi julgado nem condenado, e hoje quase ninguem que estudou o caso acredita que ele fosse o assassino.

Conclusoes e perguntas em aberto

O caso tem um suspeito central, e ele nunca foi acusado de nada.

O doutor Francis E. Sweeney era um medico de Cleveland com formacao cirurgica, um grave problema com bebida e um primo em primeiro grau no Congresso dos Estados Unidos, Martin L. Sweeney, adversario politico de Ness. Em 1938 Ness levou Sweeney discretamente a um quarto de hotel e o interrogou por dias. Leonarde Keeler, um dos criadores do poligrafo, aplicou lhe testes e, segundo se publicou, concluiu que era ele. Sweeney nao confessou. Pouco depois internou se por vontade propria num hospital de veteranos e de la mandou a Ness cartoes postais zombeteiros por anos, ate a morte de Ness em 1957. Sweeney morreu em Dayton, Ohio, em 9 de julho de 1964.

O argumento a favor de Sweeney e que ele tinha a habilidade anatomica que os desmembramentos sugerem, conhecimento do terreno e um colapso pessoal que encaixa na cronologia: os crimes na ravina cessaram mais ou menos quando ele se internou. O argumento contra e que tudo isso e circunstancial. Um poligrafo reprovado em 1938 nao seria admissivel hoje e tampouco era confiavel entao. Ness nunca apresentou denuncia, e os pesquisadores divergem sobre se foi porque as provas eram fracas demais ou porque processar o primo de um congressista era politicamente impossivel. As duas leituras continuam sendo defendidas e nenhuma foi provada.

A teoria rival sustenta que a ligacao com Sweeney e uma historia montada depois dos fatos e que o assassino foi alguem em quem a investigacao nunca tocou. Sua forca esta no numero enorme de pistas que Merylo perseguiu sem resultado e no fato de terem surgido crimes semelhantes na Pensilvania ao longo das mesmas linhas ferreas, o que aponta para um agressor movel e nao para um medico preso a Cleveland. Sua fraqueza e que nada explica sobre por que os crimes de Cleveland terminaram quando terminaram. Uma terceira possibilidade, defendida por alguns, e que nunca houve um unico assassino e que os doze oficiais incluem a obra de mais de uma pessoa, o que explicaria as variacoes de metodo que incomodaram todo mundo que leu os laudos.

O que nao se discute e a aritmetica dos nomes. Tres vitimas em doze foram identificadas, e uma dessas tres apenas de forma provisoria. As outras nove, seis homens e quatro mulheres, foram enterradas em covas sem marcacao num campo de indigentes do cemiterio Memorial Park, em Highland Hills, e ali ficaram por quase um seculo.

Essa e a parte do caso que agora se move. Em 2024 o gabinete do medico legista do condado de Cuyahoga comecou a trabalhar com o DNA Doe Project para exumar as vitimas nao identificadas e tentar a genealogia genetica investigativa, a tecnica que constroi arvores familiares a partir de coincidencias de DNA ate chegar a um nome. Na primeira fase foram recuperados dois conjuntos de restos. O trabalho e lento, os restos sao antigos e nao ha garantia de resultado.

O assassino esta hoje fora do alcance de qualquer tribunal. As vitimas nao estao fora do alcance de uma identificacao. Oitenta e oito anos depois, a pergunta em aberto sobre os assassinatos dos torsos ja nao e apenas quem os cometeu, mas se os homens e as mulheres encontrados na ravina recuperarao seus nomes antes que as provas desaparecam de vez.

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