A cidade que não conseguia parar de dançar: Estrasburgo, 1518
Na manhã de 14 de julho de 1518, uma mulher conhecida pela história apenas como Frau Troffea saiu de sua estreita casa de enxaimel para uma rua de Estrasburgo e começou a dançar. Não havia música, nem casamento, nem festa, nem uma gota de vinho bebida. As testemunhas descreveram algo mais próximo do tormento do que da alegria: uma persistência sombria, crispada, como de transe, hora após hora, os membros sacudindo-se como movidos por uma vontade que não era a sua. O marido, dizem as crônicas, implorou que ela parasse. Ela não parou, ou não pôde. Dançou até desabar encharcada de suor e exausta, dormiu algumas horas, levantou-se e voltou a dançar sobre pés que já inchavam e sangravam. Segundo alguns relatos, seguiu assim por quatro a seis dias, sob o calor impiedoso de um dos verões mais tórridos de que a cidade se lembrava, enquanto uma multidão se adensava ao seu redor: primeiro para rir, depois para olhar e, então, o mais inquietante de tudo, para dançar também.
Em uma semana, cerca de três dúzias de pessoas dançavam. Em um mês, afirmaram os cronistas, até 400. Não é folclore polido por séculos de repetição. O surto sobrevive nas atas do conselho municipal de Estrasburgo, em sermões da catedral, nas anotações dos médicos da cidade e em contas municipais que registram, na linguagem seca da contabilidade, o dinheiro gasto para lidar com ele. Entre os notáveis da cidade naqueles dias estava Sebastian Brant, o célebre autor de A Nau dos Insensatos, então chanceler de Estrasburgo. Como diz John Waller, o historiador que estudou o episódio mais de perto do que ninguém, que o evento tenha ocorrido não está em disputa. Os estudiosos modernos que peneiram os mesmos papéis situam o número de afetados entre 50 e 400. Mesmo o número mais baixo faria disso um dos episódios sanitários mais estranhos jamais postos por escrito.
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