As luzes de Hessdalen: o vale onde a ciência persegue orbes brilhantes
Hessdalen é um vale estreito no centro da Noruega, com cerca de quinze quilómetros de comprimento, situado a uns 120 quilómetros a sul de Trondheim e habitado por apenas algumas centenas de pessoas. Há mais de quatro décadas é o cenário de um dos fenómenos inexplicados mais instrumentados do mundo: bolas de luz silenciosas que aparecem sobre as suas colinas sem aviso. Ficam suspensas, ganham brilho, deslizam baixas ao longo das cristas, por vezes dividem-se em várias luzes menores que viajam juntas, e depois apagam-se. Não deixam som nem marca na neve por baixo.
As luzes não chegaram com o interesse moderno pelos discos voadores. Os moradores mais velhos do vale descreviam clarões estranhos sobre as colinas já nos anos trinta do século passado, muito antes de o vocabulário dos objetos voadores não identificados existir na Noruega. Os habitantes de Hessdalen tratam o fenómeno menos como uma visita do que como uma característica do lugar, algo que o vale simplesmente faz, inquietante mas familiar.
O fenómeno entrou na esfera pública em dezembro de 1981, quando começou uma onda intensa de avistamentos. No seu auge, ao longo de 1982 e 1983, os moradores relatavam as luzes até vinte vezes por semana e, em certas noites, várias vezes entre o crepúsculo e a madrugada. Entre as testemunhas havia agricultores, motoristas de autocarro e polícias. Vários dos episódios foram registados em filme.
Os relatos cobrem uma gama larga de aparências. Algumas luzes eram pequenos clarões rápidos. Outras eram formas luminosas com vários metros de diâmetro segundo as estimativas, brancas ou amarelas e por vezes vermelhas ou azuis. As testemunhas descreveram objetos que ficaram imóveis durante minutos e depois atravessaram o céu mais depressa do que qualquer avião, e outros que flutuavam tão devagar e tão baixo que podiam ser observados da janela de uma cozinha até se apagarem por si. Condutores relataram um objeto luminoso do tamanho aproximado de um carro que flutuava a poucos metros da estrada e os acompanhava durante um trecho antes de desaparecer. Outros viram uma forma brilhante suspensa sobre um telhado, lançando um clarão visível sobre a neve e afastando-se depois por trás de uma colina. De algumas luzes relatou-se que piscavam num ritmo lento e regular. Quase todas eram silenciosas.
O que distingue Hessdalen de qualquer outro relato de luzes inexplicadas é o que aconteceu a seguir. No verão de 1983 um projeto de campo instalou-se no vale e começou a medir. Foi lançado pelas organizações de estudo de óvnis da Noruega e da Suécia, teve apoio parcial da Universidade de Bergen e parte do equipamento foi emprestada pelos militares. Ficou conhecido como Projeto Hessdalen e foi dirigido pelo engenheiro Erling Strand, do centro universitário de Ostfold. A equipa levou para a neve câmaras, radar, analisadores de espectro, magnetómetros e equipamento laser.
Os resultados chegaram depressa. Numa única campanha de inverno, de 21 de janeiro a 26 de fevereiro de 1984, o grupo registou cinquenta e três observações de luzes distintas. Desde 1998 uma estação automática apelidada de Caixa Azul vigia o vale a toda a hora, fotografando e gravando tudo o que se move ou brilha. A partir de 1999 juntou-se uma equipa italiana: o astrofísico Massimo Teodorani e Stelio Montebugnoli, da estação de radioastronomia de Medicina, perto de Bolonha, numa série de campanhas de medição chamada EMBLA.
Os instrumentos produziram números firmes. Os espectros óticos apontavam para gás ionizado incandescente, com azoto e oxigénio dominantes e vestígios de elementos mais pesados, entre eles escândio e ferro. Os espectros mostraram também linhas compatíveis com hélio, que alguns investigadores associaram ao decaimento do rádon no ar do vale. A potência radiante de uma das luzes foi medida em cerca de 19 quilowatts, mais de dez vezes a de um holofote de helicóptero, e a análise fotométrica dos episódios mais brilhantes deu valores muito superiores, próximos de cem quilowatts.
O comportamento revelou-se tão característico como a energia. O brilho pulsava em escalas de um segundo ou menos e em geral extinguia-se após alguns ciclos. Os aparelhos de visão noturna revelaram uma forte assinatura infravermelha mesmo quando a luz era ténue ou invisível a olho nu. Com frequência o fenómeno não se comportava como um objeto único: partia-se em grupos de bolas menores que mantinham o espaçamento e se moviam juntas, um comportamento que Teodorani descreveu como termodinamicamente autorregulado. Alguns episódios chegaram a durar um quarto de hora.
Os instrumentos discordavam muitas vezes entre si. Em certas noites uma câmara registava um clarão suave baixo na encosta, enquanto na mesma direção o radar seguia um contacto que se movia muito mais depressa do que a luz ténue captada pela lente. Noutras noites os magnetómetros registavam perturbações sem qualquer luz visível. Num conjunto de casos documentados, as fotografias, os ecos de radar e as leituras magnéticas coincidiram no mesmo minuto.
Ao longo dos anos o vale tornou-se um laboratório de campo em funcionamento. Estudantes do centro universitário de Ostfold realizam ali cursos de campo anuais. Os encontros feitos no vale atraíram físicos, geólogos e astrónomos, investigadores sem interesse algum em histórias de discos voadores mas com interesse profissional numa anomalia mensurável e repetível que regressa a um local fixo. Essa situação é invulgar no estudo de anomalias: em vez de uma única fotografia granulada ou de uma testemunha impossível de verificar, Hessdalen produziu espectros, registos de radar, traços de magnetómetro e milhares de imagens reunidas em poucos quilómetros quadrados ao longo de décadas.
Quatro décadas de medições resolveram um ponto para além de qualquer dúvida razoável. As luzes são um fenómeno físico real e não folclore nem ilusão coletiva. Foram fotografadas repetidamente e, num conjunto de casos, registadas ao mesmo tempo por radar e por magnetómetros. Não dependem de uma só testemunha, de uma só estação do ano nem de um só ponto de observação, e sobreviveram a todas as gerações de equipamento trazidas para as documentar.
A grande onda acalmou desde os anos oitenta, mas o fenómeno não parou. Continuam a registar-se avistamentos na maioria dos anos. A Caixa Azul continua a vigiar durante as longas noites do norte, e investigadores vindos até da Alemanha trouxeram os seus próprios instrumentos para acrescentar aos de Strand. Hessdalen continua a ser um dos muito poucos fenómenos inexplicados sob observação científica contínua há mais de quarenta anos.
Conclusões e perguntas em aberto
Todas as explicações simples foram testadas e nenhuma cobre o conjunto do registo. Os primeiros céticos propuseram que as luzes eram faróis de automóveis em estradas distantes. Os investigadores que cartografaram os avistamentos em detalhe responderam que a geometria não encaixa: há luzes onde não passa estrada alguma, em ângulos que nenhum farol alcançaria, e que se movem de modos impossíveis para um farol. O relâmpago globular é um candidato natural, mas mede-se em segundos e não nos quinze minutos que Hessdalen às vezes sustenta. Foram também propostos o gás dos pântanos e uma aurora que tivesse descido mais para sul do que é habitual, e nenhum dos dois concorda com os espectros registados nem com o terreno duro e seco do vale.
Restam três modelos físicos sérios, e cada um explica uma parte do quadro.
Teodorani propôs um plasma de pó ionizado, possivelmente semeado pelo decaimento do rádon no ar do vale. O modelo encaixa nos espectros medidos, nas linhas de hélio e na pulsação rápida, e explicaria os grupos que conservam o espaçamento. A sua fraqueza é mecânica: ninguém mostrou como uma nuvem dessas poderia manter-se unida e suspensa durante minutos sem se dispersar.
Uma segunda explicação, defendida por geólogos que apontam para a rocha rica em quartzo do vale, é piezoelétrica. A tensão tectónica sobre o quartzo gera campos elétricos, e campos suficientemente intensos ionizariam o ar em volta. A ideia tem verdadeiro apoio laboratorial. A sua fraqueza é que nenhuma medição de campo ligou nunca um episódio concreto de tensão na rocha a uma luz concreta no céu.
O terceiro modelo vem de uma equipa de geólogos italianos, que descreveram o próprio vale como uma bateria natural: uma encosta rica em zinco e ferro, a outra em cobre, e água sulfurosa a infiltrar-se entre ambas, empurrando correntes elétricas pelo terreno. A mineralogia é real e a química é sólida. A fraqueza é que uma bateria explica uma corrente na rocha, não uma bola luminosa que se desloca livremente no ar aberto acima dela.
O que fica sem explicação é a combinação, não um elemento isolado. Algum processo neste vale consegue verter quilowatts de luz visível num volume de ar que se move devagar, sustentá-lo durante minutos, fazê-lo pulsar e dividi-lo num grupo de luzes menores que mantém a formação. Nenhuma física aceite dá conta com conforto dessa mistura de potência, duração e aparente controlo. Essa lacuna, e não qualquer afirmação sobre visitantes, é o verdadeiro mistério de Hessdalen.
Uma teoria sustenta que Hessdalen não é um fenómeno mas vários, confundidos de boa-fé entre si: um efeito de plasma ou eletroquímico autêntico por trás dos casos melhor medidos, e um resíduo de aviões mal identificados, planetas brilhantes e faróis distantes a preencher o resto do diário. Isso explicaria por que razão cada modelo cuidadoso captura parte do padrão e nenhum captura o todo. Nunca foi, porém, demonstrado, e corre o risco de se tornar um pretexto para pôr de lado qualquer observação que um determinado modelo não consiga acomodar.
Alguns argumentam que a discordância entre instrumentos aponta para algo mais exótico, um estado da matéria não reconhecido ou uma fonte de energia ainda não descrita. Nada no material medido exige essa conclusão. Nenhuma leitura de Hessdalen atravessou o limite do fisicamente impossível; as leituras são invulgares e não milagrosas, e a descrição honesta do processo é um problema não resolvido da física da atmosfera.
As perguntas em aberto são precisas. O que fornece a energia, na ordem dos quilowatts, noite após noite, num único vale pequeno? O que mantém um plasma luminoso estável durante minutos, quando os plasmas de laboratório desse tipo se dissipam numa fração de segundo? Por que motivo o radar e os sensores óticos e magnéticos registam tantas vezes coisas diferentes no mesmo instante e na mesma direção? Por que motivo a frequência de avistamentos caiu de forma tão abrupta depois de 1983, e o que a governa agora? E por que motivo aqui, nestes quinze quilómetros de planalto norueguês, e quase em nenhum outro lugar da Terra? Depois de mais de quarenta anos de medições pacientes, a resposta a todas estas perguntas é a mesma: ninguém sabe ainda.