As luzes de Kaikoura: uma equipe de TV foi filmar um céu vazio, e as luzes voltaram
Faltavam poucos minutos para a meia-noite de 30 de dezembro de 1978. Um avião de carga decolava de Wellington, a capital da Nova Zelândia.
Era um velho cargueiro de 4 motores. Toda noite ele levava para o sul, ao longo da costa, os jornais da manhã seguinte. Naquela noite levava mais uma coisa: uma equipe de televisão.
A equipe vinha de Melbourne, na Austrália. Estava ali para gravar imagens de fundo para uma reportagem. A reportagem era sobre algo que outros pilotos tinham visto naquela mesma rota 10 dias antes.
Ninguém a bordo esperava ver nada. Eles queriam imagens do céu noturno e da costa, para colocar por baixo da voz do repórter.
Em menos de uma hora, o comandante já chamava o controle de tráfego aéreo para falar de luzes do lado de fora da janela. E o cinegrafista as estava filmando.
Este é o caso que a imprensa neozelandesa chamou de as luzes de Kaikoura. Kaikoura é uma pequena cidade costeira no lado leste da Ilha Sul da Nova Zelândia, mais ou menos no meio do caminho entre Wellington e Christchurch. Em 2 noites de dezembro de 1978, pilotos que passavam por ali relataram luzes fortes que pareciam seguir o avião. Controladores de radar em terra disseram que também viam alvos. Na segunda noite, as luzes foram filmadas.
O filme existe até hoje. Os relatos de radar existem até hoje. O que ninguém jamais conseguiu provar é o que eram aquelas luzes.
A primeira noite
Para entender esse voo, é preciso voltar 10 dias, à madrugada de 21 de dezembro de 1978.
Um avião de carga da mesma empresa fazia a mesma rota noturna pela costa. Era um Argosy, um cargueiro a hélice grande e lento, fabricado na Grã-Bretanha.
Em frente à costa de Kaikoura, os 2 pilotos viram luzes que não conseguiam explicar. O comandante descreveu uma luz vermelha e brilhante à esquerda do avião.
Ele chamou Wellington pelo rádio. No centro de controle, um controlador de radar olhava para a tela. Disse aos pilotos que via alvos perto do avião. Segundo contou depois, um deles aparecia na tela tão forte quanto o próprio avião.
As luzes apareceram e sumiram ao longo de um trecho longo do voo. Moradores da costa também relataram luzes estranhas naquela noite. Segundo os relatos, a maioria não deu muita importância na hora.
Os pilotos pousaram e relataram o que tinham visto. A história chegou aos jornais e, em poucos dias, atravessou o mar até a Austrália.
Uma equipe de TV vai filmar o céu
Uma emissora de televisão de Melbourne decidiu fazer uma reportagem. O repórter dela estava por acaso na Nova Zelândia. A emissora mandou um cinegrafista e uma técnica de som para se juntarem a ele. Um jornalista da televisão neozelandesa também foi junto.
O plano era simples. Eles voariam no avião dos jornais, pela mesma rota do avistamento, e filmariam a vista da cabine.
O avião decolou de Wellington tarde da noite de 30 de dezembro, desta vez com outro comandante e outro copiloto nos controles.
As luzes voltam
Quando o avião chegou à altura da costa de Kaikoura, a tripulação viu luzes.
O comandante descreveu depois uma luz branca enorme e brilhante, com um tom avermelhado, que parecia acompanhar o ritmo do avião. Outras luzes, menores, apareciam e sumiam.
O cinegrafista começou a filmar. Ele usava uma câmera de filme de 16 mm, a comum na época para os telejornais. Tinha de filmar através das janelas da cabine, grossas e curvas.
O comandante chamou Wellington. De novo, o controlador de radar disse que via alvos na área do avião. Durante muitos minutos, pilotos e controlador conversaram. O controlador dizia onde estavam os alvos, e a tripulação olhava para ver se havia uma luz naquele ponto.
O avião pousou em Christchurch, como previsto.
A volta
Às 2h16 da madrugada de 31 de dezembro, o Argosy decolou de novo de Christchurch, desta vez rumo ao norte.
Pouco depois da decolagem, eles viram de novo. Agora era uma fila de 5 luzes pequenas e brilhantes e, perto delas, algo que parecia uma grande bola luminosa.
O avião tinha seu próprio radar no nariz. Segundo a tripulação, ele mostrou um eco forte na mesma direção da luz grande.
A luz ficou ao lado do avião por quase um quarto de hora. O cinegrafista filmou o tempo todo, e a técnica de som não parou de gravar. Na trilha sonora ouve-se o repórter tentando descrever o que vê. Em certo momento ele diz: "Vamos torcer para que sejam amigáveis".
Depois a luz ficou para trás, e o avião pousou em segurança antes do amanhecer.
O filme corre o mundo
Em poucos dias, o filme passou na televisão da Austrália e da Nova Zelândia. Logo depois foi exibido também em outros países.
A reação foi enorme. Segundo relatos da época, até o primeiro-ministro da Nova Zelândia pediu para ser informado pessoalmente sobre a investigação.
O que os investigadores fizeram
O governo entregou o caso à sua agência científica, o Departamento de Pesquisa Científica e Industrial. A força aérea, a polícia e o observatório nacional de Wellington também examinaram o assunto.
Os cientistas tinham 3 coisas para trabalhar: o que as testemunhas disseram, o que o radar mostrou e o filme.
Começaram pelo filme. Grande parte estava borrada e distorcida. Os cientistas mostraram que parte disso vinha de filmar através do vidro grosso da cabine. Eles reproduziram algumas das mesmas formas estranhas só apontando uma lanterna através da janela de um avião.
Um segundo filme, da televisão neozelandesa, era mais nítido, porque não tinha sido filmado através de vidro. Os cientistas o converteram em dados de computador para remover as distorções. Mesmo assim, foi difícil tirar dele medidas confiáveis.
Depois, o radar. Segundo os documentos divulgados mais tarde, tanto Wellington quanto Christchurch registraram sinais de radar durante os avistamentos. Os cientistas disseram que esses sinais não batiam com o que os pilotos, ou as pessoas em terra, disseram ter visto. Lembraram que o tempo naquele mês podia curvar os feixes de radar e criar ecos falsos.
Aqui as fontes discordam em um detalhe. Alguns relatos dizem que o radar de Christchurch não viu nada enquanto as luzes eram filmadas. Os documentos oficiais dizem que as duas estações registraram sinais, mas que eles não batiam com os avistamentos.
Em janeiro de 1979, a Nova Zelândia enviou às Nações Unidas um relatório sobre o caso. Ele só foi liberado décadas depois. Dizia que as luzes deviam ser tratadas como "óvnis até serem identificados", e que a chance de algo de fora da Terra estar envolvido era "extremamente remota". Também sugeria que as luzes talvez fossem apenas um brilho geral no horizonte, talvez de Júpiter ou Vênus.
Quando o resumo oficial foi divulgado à imprensa mais tarde em 1979, dizia que as luzes provavelmente eram fenômenos naturais, mas incomuns. Apontava 2 candidatos: uma frota de barcos japoneses de pesca de lula trabalhando na costa perto de Christchurch, e o planeta Vênus, especialmente brilhante naquele mês.
**Aqui termina o que está documentado. O filme, os sinais de radar e as palavras das testemunhas são reais. O que eram as luzes, ninguém jamais provou.**
Conclusões e perguntas em aberto
Várias explicações foram propostas. Cada uma explica uma parte do que aconteceu. Nenhuma explica tudo.
**As luzes eram barcos de pesca de lula.** Esses barcos penduram à noite fileiras de lâmpadas muito fortes sobre a água, para atrair as lulas à superfície. Do alto, uma frota inteira pode parecer uma cidade flutuante. No ano 2000, um cientista da mesma agência reexaminou o filme quadro a quadro. Ele disse que a grande "bola" era na verdade várias fileiras paralelas de luzes separadas. Pela estimativa dele, estavam a cerca de 6 km do avião, em barcos de 20 a 25 m de comprimento, com lâmpadas a 2 ou 3 m umas das outras. Exatamente como nos barcos de lula. O movimento estranho, disse ele, vinha da lente zoom e do movimento do próprio avião. O problema: as tripulações sempre rejeitaram isso. Os pilotos disseram que estavam a cerca de 4.000 m de altitude durante boa parte do voo, e que sabiam como barcos parecem vistos do ar. Um físico americano que estudou o filme disse que não havia prova de que barcos de lula estivessem exatamente naquele lugar naquela hora. Outros disseram que estavam. Essa questão nunca foi resolvida.
**Era Vênus, ou Júpiter.** Planetas brilhantes baixos no horizonte estão entre as causas mais comuns de relatos de óvnis, até entre pilotos experientes. E Vênus estava especialmente brilhante naquele mês. O problema: um planeta não fica 15 minutos de um lado do avião, e não aparece no radar. O cinegrafista tentou depois filmar Vênus com o mesmo equipamento. Disse que saiu um ponto minúsculo, nada parecido com o que filmou naquela noite.
**Os sinais de radar eram ecos falsos.** O tempo daquele dezembro podia curvar os feixes de radar, e pessoas que trabalhavam com o radar observaram que ecos estranhos sobre aquela costa eram bastante comuns. A força aérea tendeu a atribuir tudo a equipamento com defeito ou mal interpretado. O problema: isso explica o radar, mas não as luzes que os pilotos viram com os próprios olhos, ao mesmo tempo e mais ou menos nas mesmas direções.
**Era algo que ninguém identificou.** O físico americano, que trabalhava num centro de pesquisa da Marinha dos Estados Unidos, analisou o filme em detalhe. No início, calculou que a luz principal era extremamente brilhante e tinha pelo menos 20 m de largura. Concluiu que a tripulação tinha visto algo que se encaixa na definição de óvni: um objeto no céu que ninguém identificou. O problema: mais tarde ele admitiu que talvez tenha usado um dado errado da lente nos cálculos. Se foi assim, seus números de tamanho e brilho também estão errados.
Quase 50 anos depois, as peças ainda não se encaixam.
Os alvos do radar e as luzes provavelmente nem sempre foram a mesma coisa. O filme foi feito através de vidro que distorce, com lente zoom, de um avião em movimento, à noite. Os barcos de lula nunca foram situados com certeza no lugar certo, nem descartados com certeza.
O comandante do segundo voo e o repórter australiano escreveram livros sobre aquela noite. O copiloto disse que ainda não sabia o que tinham visto, mas que não acreditava em óvnis.
Talvez a resposta mais honesta ainda seja a que a Nova Zelândia deu às Nações Unidas em 1979. Havia algo lá fora. Foi visto, foi filmado, e ninguém provou o que era.