As Linhas de Nazca: uma mensagem escrita no deserto — mas para quem?
Sobrevoe a pampa de Nazca, no sul do Peru, e o solo árido do deserto se transforma de repente numa galeria. Um beija-flor com quase cem metros de envergadura. Um macaco com a cauda em espiral. Uma aranha, um condor, uma baleia — e linhas perfeitamente retas que percorrem quilômetros pelo planalto, como se traçadas com régua. Centenas dessas figuras, conhecidas como geoglifos, foram gravadas na terra entre cerca de 500 a.C. e 500 d.C., a maioria pela cultura Nasca, que floresceu ali muito antes dos incas.
Como foram feitas não é mistério algum. A superfície do deserto é coberta por pedras escuras revestidas de óxido de ferro; basta afastá-las para que o solo claro por baixo apareça. Com ferramentas simples, estacas de madeira e cordas, equipes pequenas conseguiam traçar até as maiores figuras. Pesquisadores reproduziram a técnica em experimentos modernos. E como este é um dos lugares mais secos e sem vento da Terra, os sulcos rasos sobreviveram dois milênios quase intactos.
A verdadeira pergunta é por quê. As linhas atraíram ampla atenção nas décadas de 1920 e 1930, quando pilotos comerciais começaram a cruzar o planalto e os passageiros viram as figuras do alto. A matemática de origem alemã Maria Reiche dedicou mais de cinquenta anos a mapeá-las e protegê-las, e em 1994 a UNESCO declarou o local Patrimônio Mundial. Ainda assim, o propósito dos desenhos continuou teimosamente fora de alcance.
As teorias são famosas — e continuam em disputa. Paul Kosok e Reiche defendiam que as linhas formavam um vasto calendário astronômico, apontando para solstícios e estrelas. Estudiosos posteriores acharam os alinhamentos celestes estatisticamente fracos e propuseram algo mais terreno: num deserto onde a chuva decide tudo, muitas linhas e figuras podem estar ligadas a rituais de água e fertilidade. Outros veem caminhos processionais, feitos para serem percorridos e não contemplados, ligando lugares sagrados da pampa. Cada teoria explica parte das linhas. Nenhuma explica todas.
O mistério continua crescendo. Em setembro de 2024, uma equipe da Universidade de Yamagata, no Japão, em parceria com a IBM Research, publicou na revista PNAS um estudo descrevendo 303 geoglifos figurativos até então desconhecidos — encontrados em apenas seis meses, depois que um sistema de inteligência artificial vasculhou enormes volumes de imagens aéreas e apontou os locais promissores para verificação em campo. A descoberta quase dobrou o número de figuras conhecidas e revelou um padrão: muitos geoglifos menores retratando humanos e animais domesticados ficam junto a trilhas antigas, como se destinados a ser vistos por quem passava a pé.
Assim, o deserto segue respondendo à pergunta fácil e se esquivando da difícil. Sabemos quem fez as linhas, quando e com quais ferramentas. Mas, dois mil anos depois, ninguém pode dizer com certeza o que o povo Nasca tentava comunicar — aos deuses, às montanhas, à água ou simplesmente uns aos outros.